Das Revoltas às Birras: Como Lidar com a Zanga?

A entrada da Primavera em Portugal trouxe uma mudança de continente no “Kids”. Deixei os ares do caribe e mergulhei nos cheiros Africanos, em São Tomé e Príncipe.

África: o terceiro continente mais extenso do mundo, ocupa cerca de 20% do planeta Terra e é composto por 54 países. Embora alguns países tenham um índice de desenvolvimento humano razoável, como é o caso das Seychelles, África do Sul ou São Tomé e Príncipe, dos 30 países mais pobres do mundo, 21 são Africanos. Com um mapa desenhado a régua e esquadro pelos colonizadores Europeus (consoante seus interesses e zonas de influência) que dividiu artificialmente grupos com os mesmos costumes, tribos e praticantes dos mesmos dialectos,  é um continente muito marcado pela resiliência na luta, acima de tudo, por dignidade. Com revoltas separatistas, golpes de estado, ditaduras, massacres ou guerras sangrentas, nunca se deixou ficar perante as injustiças. Mas o encanto selvagem e belezas brutas destes 20% de planeta distraí-nos da sua história mal aterramos.

Quando aterramos em São Tomé a sensação imediata é de expansão: de cores, de natureza, de volumes e cheiros. Talvez ter ficado alojada no “Pequeno Paraíso” tenha ajudado, mas decerto que a combinação entre a lusofonia que cá se fala, a natureza e a ecologia, a cultura e história marcam a diferença deste arquipélago cruzado pela linha do Equador. Mais que direito por linhas tortas, é aqui que a linha do Hemisfério Norte se cruza com o Hemisfério Sul.

Na ilha do “Leve Leve” deslocamos-nos de Vanettes amarelas, regateamos caso nos cobrem preço de turista. A  Rosema (cerveja Nacional) ajuda muito nos fins de tarde húmidos e alaranjados. O peixe e a banana estão na ordem dos dias, ou melhor, nos menus de refeição. As crianças, essas são ágeis a estender a mão para pedir “doce” e raramente estão sós. Em qualquer comunidade, quintal ou Roça, o que não faltam são crianças. Muitas, mas muitas crianças. Seja a lavar a roupa nos rios, a capinar nas roças ou a pôr o “pé na estrada” para ir para a escola. Crianças pequenas com agilidade de adulto, até para colocar a capulana e transportar outras ainda mais pequenas.

Confesso que se em algumas regiões da Colômbia ou no Japão foi difícil ter autorização das famílias para entrevistar crianças, aqui esse não é o caso. O desafio é mesmo manter a calma, sem ficar enfurecida, e conseguir que as

centenas de crianças curiosas se afastem e fiquem em silêncio durante as filmagens das entrevistas.

Em conversa com o Presidente do Conselho de Ministros da ilha apercebi-me que também ele tinha assuntos que o enfureciam. O desemprego na Ilha era o seu tema. Não que fosse essa a questão, mas afinal, dizia-me “é que cerca de 90% da população presta serviços informais, criando uma economia paralela no mercado, difícil de mensurar. As famílias rurais trocam os vegetais da sua roça, as pessoas que vemos sentadas nas ruas a viver o “tempo livre” são simplesmente os donos das moto-taxis que circulam na cidade. Alguns deles têm até 4 motas a trabalhar; nas comunidades  piscatórias, por exemplo, todo o peixe é pescado e vendido em mercado paralelo. Como é que a comunidade internacional ainda fala no desemprego de São Tomé?”.

O Kuame é um artista plástico São Tomense, também me confidenciou o que a sua revolta o levou a fazer à medida que me mostrava a sua escola de artes “com esta residência/escola vou mostrar à comunidade internacional que os São Tomenses têm capacidade para fazer crescer o país, não só em termos morais como, económicos e artísticos, mantendo nossa cultura!”.

Ia ficando desconfortável com algumas destas partilhas, mas ainda não entendia a importância que estas revoltas podiam ter.

A ida a São Tomé foi resultado da primeira parceria do projeto “Kids” com uma ONG Portuguesa, Missão Dimix.

A Sónia, fundadora da Dimix, acredita na mais-valia dum trabalho de competências emocionais para os jovens com quem trabalha e desafiou o “Kids” a desenvolver os seus workshops para promoverem auto conhecimento, melhorarem a relação com os outros e a interacção com o planeta, num grupo institucionalizado.

Diariamente apanhávamos as vans e deixávamos a casa do “Pequeno Paraíso” rumo à comunidade onde a instituição se encontrava. Dia após dia, as sessões corriam bem e a ideia de, no final, entrevistar as crianças da instituição para o documentário do “Kids”, era cereja no topo do bolo. Ambas  queríamos dar voz a estes especialistas e ter a sua contribuição na criação do kit de saúde emocional que o Projeto Kids se propõe.

Vivêmos algumas revoltas ao longo da semana, que não nos impediam de continuar. A Sónia numa das viagens de transportes públicos foi atacada verbalmente por um grupo de mamãs ao perguntar o preço por saír numa outra paragem. Já eu, enquanto tentava comprar carambolas no mercado (não há melhor do que as carambolas de São Tomé) fui a causa de uma richa nas vendedoras de mercado, que em uníssono gritavam, esbracejavam que me devia ir embora. E foi um moto-taxista que me aconselhou a ir embora. Sem as carambolas…

No final da semana, já com a autorização da directora da instituição, começamos com as filmagens. A Sónia conseguiu criar a primeira equipa de produção do projeto Kids (formada por crianças!!) e conseguimos respostas deliciosas, dicas incríveis. É sem dúvida um grupo de rapazes muito especial. O que não contemplamos foi a zanga da directora face ao facto das filmagens terem como plano de fundo um vão de porta “o que vão pensar as pessoas? Esta porta meio destruída?! Não autorizo esta publicação.” Decisão respeitada, entrevistas não vão ser usadas no documentário.

Semana terminada,  uma missão cumprida no terreno, e muitas zangas expressas pelo caminho.

Efetivamente, ambas estranhamos algumas destas reacções e confissões, afinal se há lugar no mundo onde as pessoas são felizes e pacíficas, é em São Tomé. Demorei a entender o que estava por detrás de tudo isto, uma história marcada por imposições de valores, costumes e ordens e um enorme desejo de “preservação da sua cultura”.  Parece que estas revoltas desempenham um papel num país tão pacifico como este: Manter os limites e proteger uma região que tem sofrido muito com a invasão de estrangeiros, ora como o colonialismo, era com boom turístico dos últimos anos. Os turistas que “entram” sem respeitar a cultura e acabam por interferir com a dinâmica do dia a dia e os nacionais que se defendem disso, reagindo com estrangeiros, como se todos fossem turistas.

De facto, segundo o índice de Felicidade Interna Bruta, uma dos indicadores que mais contribui para a felicidade de um povo é a conservação e protecção da sua cultura. Voilá, revoltas em prole do bem estar do povo!!

É impossível falar de zanga e bem estar sem referir a importância de aprender a regulação desta emoção especialmente num mundo como o que vivemos hoje, onde as relações entre os povos são marcadas pela doença do século (o terrorismo) e as interacções com o planeta com a explosão de revoltas e guerra. Não é difícil agir de forma zangada contra os outros e contra o mundo. Parece-me urgente ensinar às futuras gerações a zangarem-se.

Por isso uma das perguntas que faço nas entrevistas do “Kids”: “O que podemos fazer quando estamos zangados?”

Em São Tomé as respostas rondaram: “ Deve-se beber água e lavar a cara até ficar calmo.”

Na Serra Leoa: “Ficar quieto até passar.”

Na Colômbia: “Quando estamos zangados o melhor é deixar passar e não fazer nada que nos podemos arrepender.”

Em Portugal: “Brincar com os amigos.”

No Brasil: “Dar um mergulho no Mar.“

Japão:” Zangado? Não sei…nunca me senti zangado.”

A Zanga é uma emoção primária, logo muito importante, acima de tudo porque traz ação. É uma energia interna que permite pôr limites, que dá motivação para dar um “murro na mesa”, lutar contra injustiças ou repressões; permite que nos rebelemos contra regimes, situações ou contextos disfuncionais. Traz mudança. Agora sim, vislumbro a função de algumas das revoltas que vi no povo mais pacífico do mundo, os São Tomenses. De facto talvez sem estas zangas, fosse difícil manterem-se com níveis bons de desenvolvimento humano, com cultura e carácter próprio.

É essencial que aprender a direccionar a zanga para o lugar certo, sem sair explosivamente e contra coisas/pessoas/situações que não são a sua causa. Deve ser regulada e usada de forma saudável, e nunca para mostrar poder ou castigar os outros. Quantas vezes ouvimos dizer ou dizemos que “ Ela reage com 7 pedras na mão”, “Não lhe fiz nada para me falar assim..” “Ele foi muito agressivo e isso foi injusto..”, estas são algumas situações em que a zanga foi “disparada” e em vez de construir e desempenhar a sua função saudável, intoxicou a relação com os outros.

A primeira dica para aprender a lidar com a zanga é:  Autorregular-mo-nos.

Em seguida aprender a reconhecer o que nos deixa zangados e a libertar a emoção.

Por fim, aprender a usar a energia da zanga para criar, transformar o que precisa ser tranformado (este último ponto ficará para outro momento).

É comum ver famílias a castigar as crianças, porque estão a fazer uma birra, porque estão zangadas ou batem nos colegas. O que não é tão comum é ver famílias a ensinarem os seus filhos a zangarem-se. Talvez o primeiro passo na parentalidade é reflectir sobre a forma como lida com o seu filho quando ele o faz ficar zangado:

Algumas perguntas que podem ajudar nesta reflexão:

  1. Tenho uma estratégia coerente e consistente para disciplinar o meu filho?
  2. B. Normalmente, nestas situações, consigo transmitir o que quero aos meus filhos?
  3. C. Sinto-me bem com a forma como o faço?
  4. D. Eles sentem-se bem com a forma como lhes ponho limites?
  5. Quanto da minha estratégia de disciplina reflete o que os meus pais faziam comigo?
  6. F. O que gostava de mudar na educação que dou aos meus filhos? Muitas vezes a resposta a estas perguntas traz sentimentos de culpa “não estou a ser sufientemente bom”, “estou a falhar”, “posso estar a errar”…É um momento de respire fundo e relembrar que tem feito o seu melhor. Agora pode aprender algumas estratégias para fazer diferente.

Mais do que a corrigir as situações imediatas, o importante é promover ligações neuronais e celebrais que levem a criança a fazer escolhas cada vez mais conscientes e responsáveis, a desenvolver competências emocionais que lhe permitam auto-regular-se e assim a precisar menos e menos de medidas de disciplinares. Especialmente em momentos de gestão de stress.

Como sabemos, nas crianças os comportamentos são o termómetro do que estão a viver internamente, por exemplo, comportamentos como: Zangas, brigas, birras, atirar-se para o chão, mostram que a criança está com dificuldade em regular as suas emoções internas. Agarrar, pegar ao colo, Tocar, tranquilizar pode ajudar a que se acalme e organize internamente. Já as reacções de Ansiedade, medos, tristeza,  isolamento (são mais difíceis de observar), mostram que a criança precisa de ajuda para exprimir o que está a sentir. Verbalizar as emoções e dar hipóteses costumam ser uma grande ajuda.

 

 

Uma dica de Daniel Siegel  para lidar com a zanga do seu filho:

Não desvalorize o que zanga o seu filho (como nos sentimos quando alguém nos diz”deixa la isso, esquece isso, perante uma situação onde nos sentimos injustiçados?!) por isso, conecte-se com o seu filho/a” Eu sei que estás a passar um mau bocado. Que está a ser difícil controlares-te. Anda, eu ajudo-te”. Atenção, é frequente ver famílias a usar a estratégia de repetir apenas o que a criança está a fazer “Eu sei, eu sei…pareces zangado” e nestes casos o comportamento descontrolado da criança é o que está a ser promovido, de forma muito indulgente. É importante explicar o primeiro exemplo, pois este permite que a criança perceba que precisa de se controlar e esteja receptivo e disponível para fazer diferente.

Dicas para promover auto-regulação de uma criança zangada:

  1. Em caso de birras, faça um “time out” afaste-se deixando-a regular-se por si. Caso seja muito pequenina, respire fundo e mostre-se ainda mais calmo que o normal. As crianças aprendem por modelos.
  2. Priorizar a ligação com a criança: a criança é mais cooperante quanto mais se sentir acarinhada e amada.
  3. Validar o que a criança sente: Mesmo que seja inconveniente “sim, eu sei que estás desapontada”.

Actividades lúdicas que desenvolvem técnicas de autocontrole ou regulação de emoções difíceis:

O grito de Guerra “AAAAAUUUTXXXX”: Junte e encha balões de água de várias cores. Escolha um lugar onde possam ser lançados (pode ser na banheira lá de casa, num jardim…). Com o seu filho, lance-os contra a parede/banheira/chão, a única regra é que em cada balão lançado ambos devem dizer uma coisa que os deixa muito zangados ou irritados. No final de cada frase é lançado o balão acompanhado do grito. Esta actividade ajuda libertar e trabalhar sentimentos de zanga precisam ser libertados. Não substitui auto-regulação dos mesmos, mas ajuda a introduzir o tema das emoções difíceis.

Zanga no Pincel: Distribua material de pintura (é melhor serem tintas ou lápis de cera, pois, deslizam melhor na folha) e folhas A3. A instrução a dar “Agora vamos desenhar como se o lápis/pincel estivesse triste” “Agora como se estivesse Zangado”, “irritado”, “sózinho”..

No final, aproveite para falar do quadro artístico, focando mais a zona da zanga. Esta actividade ajuda a introduzir a emoção e trabalhá-la no papel. Não exclui a auto-regulação, mas mais uma vez ajuda a introduzir o tema das emoções difíceis.

O croquete na Relva/croquete de Praia: Num jardim ou Praia, proponha ao seu filho este jogo. Cada um deve partilhar uma coisa que o deixa zangado e em seguida rebolam na relva ou areal da praia. As crianças normalmente gostam tanto deste jogo que rapidamente deixam de estar zangados ou de querer falar disso, mas pode aproveitar a brincadeira para introduzir o tema e mais tarde falar sobre as coisas que referiram no jogo.

Kids@Minca: Como promover a liberdade dos mais velhos e expontaneidade dos mais novos lá em casa?

Os Coguis são uma tribo ameríndia residente no norte de Serra Nevada na Colômbia. São cerca de 10 mil pessoas. Falam a sua língua, têm costumes e ideias próprias. As suas práticas baseiam-se na crença de que a Terra é um ser vivo e de que a Humanidade tem dois irmãos: os irmãos maiores (eles próprios) e os irmãos menores (nós, os comuns mortais). Os segundos, são descritos como “crianças asneirentas” que precisam aprender a viver Humanidade.

Com o sem base cientifica, esta era a razão que me levava sonhar em chegar a Serra Nevada para entrevistar crianças coguis e pedir as suas dicas para melhorarmos a interação com a Terra. Apenas não planeei que Minca e Macondo, mudassem não só os meus planos, como o tema da crónica de hoje.

Na última crónica falei da importância da ligação com a natureza para a saúde emocional da família. Hoje foco-me na liberdade.

Na verdade, a liberdade começou a ganhar corpo antes de chegar a Minca. Quando “tropeçei” com Macondo.
Macondo é uma vila com cerca de 300 pessoas na cidade da Aracataca, onde Gabriel Garcia Marquez viveu a sua infância e usou como cenário para o romance “Cem anos de Solidão”.
Este romance é marcado pelo isolamento e destruição da vila e, são as gerações da família Buendia que se vêm obrigadas a assumir um papel ativo no desenvolvimento próspero da região e da sua libertação pessoal. Coincidentemente (ou não) a esta altura já desconfiava que liberdade e solidão podiam caminhar juntas, mas foi em Minca que me apercebi da profundidade da coisa.

Minca é um lugar de almas livres. Senti-o imediatamente quando cheguei. Talvez o violoncelo de Pablo tenha ajudado, mas a localizaçõa a 600 metros de altitude, as casas rústicas em ruínhas apertadas e as cerca de 300 espécies de pássaros que sobrevoam a vista para Santa Marta, decerto contribuíram.

Pablo mostrou-me que a liberdade, começa com o “dedo” da família e pode caminhar junto com a solidão quando não é bem “cozinhada”. Ser livre depende não só do óbvio, externamente (prisão…), mas acima de tudo, de processo internos (Medos, pressões sociais..etc) daí que a expontaneidade seja uma das principais mediadoras entre o que está dentro e o que sai para fora.

Deu a entender que ter medo de falhar faz parte do processo, mas não é o fim do mesmo.
E foi nesta refelxão que ele que me levou a conhecer Sónia e o seu projeto.

Sónia é a criadora de uma comunidade. Decidiu cria-la anos antes, por acreditar que para ser livre é essencial viver saber viver com os outros, só assim se treina a expontaneirdade  poder gerir o próprio tempo: “antes de ter esta comunidade tinha um negócio de motas que me obrigada a ter muita disciplina de tempo. Tinha sempre a sensação que estava “presa” ao negócio. E como prestava um serviço ao público, raramente podia ser expontanea e criativa. Ganhava cada vez mais dinheiro, mas não tinha tempo para estar com quem mais gostava, não tinha tempo para lazer e já quase não sabia quem era. Sentia-me presa. Por isso criei uma comunidade onde pudesse ser mais eu, ser mais genuina, expontanea e acima de tudo, conseguir gerir o meu tempo. Já que para mim, isso me ajuda a sentir livre”.
Sónia tem com ela 15 nacionalidades diferentes, mais de 15 pessoas: entre músicos, artistas e amantes de natureza, cada um assume um papel no grupo, gere o seu tempo e o contributo que quer dar.

Hoje aquela comunidade é conhecida por promover as melhores Jam sessions, culturas de café e ainda exposições de arte, da região.

Minca e Macondo, Pablo e Sónia deram um contributo importante sobre a liberdade, mas foram as respostas das crianças, nos vários cantos do mundo, que me mostraram a sua profundidade:
A Pergunta feita foi: “O que mais odeias que os adultos façam?”
As respostas:
Na Colômbia: “Quando me dizem que tenho que ir fazer coisas que não gosto e não entendo porquê.” Emília, 7 anos.
No Brasil: “Quando eu falo e ninguém me ouve!!” Bruno, 6 anos.
Em Portugal: “Quando me obrigam a comer coisas que não gosto …que odeio!” Rafael, 7 anos
Em São Tomé e Príncipe: “Quando violam pessoas.” Daisy, 9 anos.
Na Serra Leoa: “Quando me obrigam a fazer coisas e não ouvem que estou a fazer as minhas coisas” Bill, 8 anos.


O contributo dos mais novos, veio mostrar que a liberdade tem papel diferente nas várias fases de desenvolvimento humano, e que “ a sensação de perder o controlo da própria Vida” é um foco de mal estar transversal a várias idades.

De facto, se olharmos para a filosofia, Espinoza defende que ser livre é agir de acordo com a própria essência, com a sua natureza. Outras prespetivas focam na autonomia e a espontaneidade do sujeito. Nelson Mandela acrescenta a dimensão dos “outros”.

Segundo o relatório de felicidade de 2012, uma das componentes mais importantes no sentido de bem-estar e realização pessoal do Ser Humano é a sensação de liberdade. O índice de liberdade humana deste relatório, mostra que a sensação de liberdade dos vários povos, está divida em três áreas: “liberdade de expressão, de escolha, de gestão de relações”, mas o tempo tem um papel transversal a todos eles.

Ao nível das crianças a liberdade é reforçada pela espontaneidade, pela autoestima e capacidade de lidar com o fracasso. E neste caso, sendo que a família é a primeira instituição social que a crianças conhece, é importante que estas competências sejam estimuladas aqui. Ao nível do adulto e gestão de dinâmicas familiares, sem dúvida que o tempo é uma questão de desarmonia.

Desarmonia porque, se uns são mais rápidos que outros, outros não podem esperar; uns porque têm mais tempo que outros para “as suas coisas” e ainda há aqueles que não sentem ter tempo para nada,  e isso é injutso.

Resumindo, ao nível de Liberdade na família, abordo duas dimensões:  gestão de tempo nos adultos e o desenvolvimento de espontaneidade nas crianças.
Os estudos indicam que as mães sentem mais responsabilidade na educação dos filhos e, são elas que sentem deixar de ter tempo para si e para as suas coisas. Os estudos tambem mostram que o Fosso de Felicidade Parental (satisfação com a parentalidade) se altera com a  fase de vida da dinâmica familiar e da criança. Uma família com pouco apoio externo ficará mais afetada com a doença de um pequeno, do que outra com apoio de avós, por exemplo.

Para reduzir este fosso, vários países criam respostas. Na Dinamarca, por exemplo, uma das respostas foi o programa de “empréstimo de avós” onde os mais velhos se inscrevem para adotar uma família e apoiar nas questões logísticas da mesma. Afinal se um casal consegue fazer um bom trabalho, imaginem 4 casais. No Japão adotaram o shirin-yoku, “um banho de floresta”. A proposta Japonesa é que de tempos a tempos, as famílias se percam na natureza e usem os seus sentidos, segundo eles, a experiência vai reforçar laços e sentimento de pertença, capacidade de arriscar e arrojar. Em Bogotá, na Colômbia, a medida adotada foi o “fecho das ruas aos domingos” para que todos possam aproveitar o tempo livre em família usando a ciclo via.
Segundo Meik Viking, os Portugueses têm muita satisfação com parentalidade. Em Portugal há um equilíbrio entre o tempo de trabalho, de lazer e os custos de serviços de apoio às crianças.
Por isto deixo algumas dicas para os adultos libertarem tempo, facto que lhes trará mais sentido de liberdade na rotina diária e em seguida algumas dicas para formar futuros adultos mais espontâneos, com menos medo da solidão, com mais capacidade para exporem as suas opiniões e sentirem-se mais e melhor na sua pele, mais livres.

Para Pais:
1. Ter uma prática física que inclui socialização. Fará 2 em um. Pode estar com um amigo/amiga e incluir na sua vida exercício físico.
2. Aproveitar mais os tempos mortos. Dois minutos aqui, 5 ali, podem ser usados para fazer pequenas coisas. Aproveito sempre para fazer algumas pesquisas. Mas o Meik Wiking usa-o com uma aplicação para aprender Espanhol.
3. Se se deslocar de transportes públicos, aproveite para ler um livro
4. Cozinhe mais do que precisa. Ter mais comida feita, permite que mantenha uma alimentação saudável e que tenha finais de dias livres.
5. Focar-se e evitar o que Meik Wiking chama de “sangue sugas de tempo”, como as redes sociais ou os jogos de telemóvel. Evitando-os, dedicará mais tempo a comunicar em família, melhorar as interações com todos e consequentemente o sentido de pertença.

Para incluir na educação dos miúdos e promover o seu sentido de liberdade:
1. Incluir a prática de atos de bondade: Um ritual de visita a uma instituição e progressivamente adicionar ações como ajudar quem precisa, dar um elogio a alguém, conversar com uma pessoa tímida ou isolada.
2. Promover a empatia: “o que será que a pessoa X ou Y está a sentir agora?” pode ser feito em tom de jogo.
3. Cumprimentar as pessoas com quem nos cruzamos todos os dias.
4. Sorrir para estranhos
5. Promover a confiança na criança. Sim, sei que nem sempre é fácil, tendemos a pensar que sabemos o que é melhor para os mais pequenos, por isso ouça com paciência, mostre curiosidade e transmita encorajamento para que ele/ela consiga fazer coisas por si e desenvolva o seu sentido de “ser único” sem pressões sociais.
6. Mostrar apoio incondicional perante as escolhas da criança. Uma das maiores questões da liberdade, que a pode levar à sensação de solidão e de que não se tem o apoio e compreensão dos progenitores.

Faça a Sua Doação para o Projeto Kids

Recolha de Fundos para o “Kids” está a decorrer! Já conseguimos angariar 6% do que precisamos, mas ainda precisamos de muito apoio, especialmente para a produção do Documentário. Os doadores vão ser os primeiros a ver o documentário!! Não fique de fora.

Para doar basta seguir o link:

https://www.generosity.com/education-fundraising/emotional-toolkit-for-parents-done-by-children/x/16050156

Veja o Trailer e Inspire-se:

Como conectar-se mais com a Natureza? Jaguares da Amazónia, Linces Ibéricos e Aquecimento Global

Ninguém quer assistir passivamente ao mundo a adoecer, mas parece que ninguém sabe muito bem qual é a solução.

Maslow falava em pirâmide de necessidades básicas (como a alimentação) e complexas (como o sentimento de pertença). Já eu acredito no que nos distingue como espécie, nas emoções. E por isto propus-me a criar um Kit de Emoções para Famílias. Por outro lado, se me proponho a criar um Kit de Emoções para Famílias, tenho que recuar ao básico, deixar o nível mais complexo das coisas e ir à base das bases. Se for necessário, recuar até aos nossos ancestrais e construir a partir daí. Foi esta crise existencial que me atacou em plena Amazónia Colombiana e me pôs em contacto com a natureza. Foi ali que olhei a natureza como “um lugar” onde o básico (como a alimentação) e o complexo (como o sentimento de pertença) se fundem. Por isso hoje, foco-me nos benefícios da ligação com a natureza como uma solução, não só para o aquecimento global, mas também para o bem-estar emocional.

A cerimónia típica de ocidental perdeu-se quando senti um balançar de rede, às 4h15m da manhã. As netas de Rogélio queriam que acordassemos antes de o nascer do sol para ouvir os pássaros da noite e procurar os olhos do Jaguar.

É difícil descrever o que se sente quando damos de caras com uma floresta tropical como a Amazónia.
Com acessos limitados, são os caudais dos rios que entre cruzam a selva que nos levam a lugares mais profundos. Nas margens, veem-se muitas comunidades indígenas a tentarem acompanhar o ritmo da “plata” (dinheiro) e que por isso mestiçam os seus valores. Entre as ramadas mais densas descobrem-se outras tribus, que se escondem em território indígena e lutam diariamente para manter os seus costumes longe das leis do Branco. A Organização Mundial da Colômbia fala em 87 grupos indígenas no total, dos quais 18 estão em perigo de extinção.
Aqui acordamos antes do sol nascer, banhamos quando ele ainda nos consegue aquecer, e descobrimos norte e sul na sombra; fazemos fogueiras para o ajuri (refeição coletiva) e beber o pajuaru (bebida fermentada de mandioca). Por cá caminhamos horas para procurar água doce e beber com a mão em conchinha. Dormimos alinhados em redes amakas quando o sol se põe e observamos o céu. Também rezamos para que as rãs não estejam em fase de procriação para termos uma noite silênciosa (é a altura do ano em que se unem e praticam um coro ensurdecedor).

A família de Rogélio, é uma família indígena residente num dos caudais do Rio Amazonas e recebeu-me de braços abertos. Vivem em casas próximas entre si, construídas sobre estacas e de frente para o rio. Rogélio pertence à tribo Cocama.
Reza a história que os cocamas sofreram uma rejeição da identidade étnica intergeracional que levou a uma desagregação, daí cresceram os casamentos com pessoas de outros povos, principalmente os ticuna. As comunidades cocama são formadas por parentes com fortes vínculos e a proximidade das casas demonstra a sua relação genealógica.
As mulheres costumam preparar o alimento e ajudar os maridos no cultivo da roça familiar. A pesca e a caça são atividades praticadas por todos.

Rogélio tem apenas 85 anos (é assim que se apresenta, acrescentando que está pronto para casar outra vez, já que o “o amor da sua vida” morreu o ano passado) aos 11 anos descobriu que era xamã. Para ser xamã não basta ter conhecimento dos ciclos da natureza, “tive que aceitar o meu dom e aprender a usá-lo da melhor forma”.

O xamã é alguém que manifesta poderes incomuns, como o dom de invocar espíritos ou o poder das plantas, um estado alterado de consciência. A comunicação com estes aspetos da vida é alcançada através de batidas de tambor, danças, sonhos e muitas ervas.
Confessou-me que naquela altura a vida na Amazónia tornou-se assustadora com as revelações que recebia da natureza por isso decidiu sair para “apanhar ar”.

11 anos depois regressou a casa, já com um curso de medicina e muitos quilómetros de natureza palmilhados. Sentia o peso do legado, mas nada lhe foi tão pesado, como a vergonha de encarar uma mãe que nunca deixou a porta de casa à sua espera; este peso fez com que se sediasse longe dali, num dos caudais deste Rio. Ainda hoje é naquele lugar que pratica seu xamanismo e cura pessoas e mais pessoas. Contou-me que só com o que a natureza já curou milhares de pessoas, umas com doenças simples, como a constipação, outras com doenças complicadas, como cancros.
A Jessica de 9 anos e a Maria de 6 (netas de Rogélio) foram as minhas guias. Ainda não se descobriu se alguma herda o dom do avô. Embora o conhecimento seja partilhado pelos elementos da família, o dom só se revela numa cerimónia quando fizerem 11 anos.

Desde que cheguei que me tentaram ensinar cada som e movimento dos pequenos caudais do rio. Foram elas que me mostraram 36 brincadeiras possíveis com apenas um gafanhoto. Que me apresentaram os cogumelos comestíveis e os venenosos. Com elas, aprendi o poder da seiva do “Sangue de Dragão” e o espírito divino da planta do Ayoasca. Com elas aprendi a pescar girinos. Foi também a Jessica que me ajudou a mergulhar nas margens do Amazonas e a reconhecer o barulho de uma remada de canoa, para me esconder. Afinal uma mulher quando toma banho no rio merece privacidade.

O estado de alerta e conexão que devemos ter, quando atravessamos um caudal povoado por crocodilos e anacondas não está no ecrã, é um facto. A cooperação entre todos, uma necessidade. Estas meninas mostraram-se que é importante olhar para a natureza, não como um todo, mas como um ponto de partida. Se a Maria adorava os bichinhos das lamas, a Jess vibrava com as plantas e espécies de gafanhotos. O Rogélio dependia dos ciclos das estações, e os seus filhos das marés do rios. A forma como por cá se lida com o tempo é sem dúvida inspiradora.

Estas crianças brincam ao ar livre e vivem de e com a Natureza. Esta interação mostra que há ciclos de vida, estações do ano, que as coisas têm o seu tempo: de nascimento, crescimento ou desenvolvimento e por fim de morte.
A envolvência desta família tem com a natureza dá-lhes uma consciência maior de proteção, preservação e conservação. Afinal a Natureza, para eles é um recurso essencial.

Quando constatei que uma das preocupações do millenium continua a ser o ambiente e o aquecimento global. Que a maioria das respostas das crianças da Serra Leoa, Japão, Portugal, Colômbia e Brasil à pergunta “que conselhos darias aos adultos para serem mais felizes? Foi: CUIDAR DA NATUREZA!!” resolvi incluí-la no kit e perceber como é que os Portugueses vivem esta realidade.

Nos Estados Unidos um estudo que mostra que as crianças Americanas têm menos contacto com a natureza que os presos. Outro estudo, mostra que as crianças Portuguesas têm em média 63 minutos de contacto com o ar livre, puro.

As razões para isto revertem para as questões de insegurança, para os perigos da vida de bairro, das crianças andarem na rua. Já o impacto deste afastamento entre novas gerações e Mãe natureza é avassalador: Ao nível de sistema imunológico (carências de Vitaminas como Vit D) como o tipo de envolvimento e proteção que as crianças acabam por ter com uma entidade com a qual não interagem e desconhecem, a natureza.

Porque as futuras gerações merecem crescer saudáveis, física, sócio e emocionalmente, aqui ficam algumas dicas de como podemos promover a conexão com a natureza nos nossos filhos formando-os como agentes de mudança na resolução desta preocupação do milénio: a protecção ambiental.

1. Não olhar para a natureza como uma entidade única. Há pessoas que adoram pássaros, outras que preferem insectos. Descubra os interesses de cada um lá em casa. Faça um passeio com os seus filhos e veja o que os hipnotiza, se as flores, os insectos ou os tipos de texturas da madeira. Delicie-se com o facto de a natureza hipnotizar mais do que um jogo de Ps4.
2. Observe o céu em vários momentos do dia: Manhã, à tarde e à noite. Identifique as grandes diferenças e em família, façam um desenho onde todos colaboram.
3. Programa ideal para um final de dia ou Domingo: Passeio num parque com vegetação. Levem vendas e um a um façam o passeio dos sentidos. De olhos vendados o objetivo é usarem os sentidos para descobrirem o parque através dos cheiros, dos sons ou das sensações na pele.
4. Fazer um passeio numa floresta com a audição ativa. A missão? Descobrir o barulho da Água ou de uma fonte e beber com mão em “conchinha”.
5. Criar um ritual de início de estação: Celebrar o início de cada estação com um passeio no campo. Ao longo deste passeio a família é encorajada a viver, através dos seus sentidos (de olhos fechados, sentir os cheiros, os sons e as temperaturas de cada estação. Uma visita ao parque mais próximo de casa é ideal. Idealmente um parque com árvore, flores e outros elementos de natureza que não seja um parque de baloiços).
6. Fazer um passeio para apanhar folhas. Fazer um mostruário de folhas secas.
7. Fazer uma fogueira.

Bons momentos com a Mãe Natureza para esta semana!

Apoiar o Fundraising do Projeto Kids

Desde 2017 que me dedico ao Projeto Kids: a criação de um kit de emoções para Famílias, co-criado com crianças (dos 4 cantos do mundo).

Este kit vai incluir um guia que ajuda as famílias a desenvolverem a sua saúde emocional e técnicas para revolucionarem o seu estilo parental. Inclui ainda um documentário com as reflexões de crianças dos 4 cantos do mundo sobre as emoções.

1 ano e muito investimento pessoal depois, confirmo que preciso de ajuda para conseguir lançar o projeto no início de 2019.

Por isto criei uma recolha de fundos para edição do documentário final, que todos podem e devem apoiar. Os apoios podem ir dos 5 euros aos 25000 euros, e muitas pessoas já apoiaram, incluindo bandas de Rock Português, mas ainda não consegui todos os fundos. Por isso apelo à ajuda de todos:

Para fazerem uma doação basta clickar o link:

https://www.generosity.com/education-fundraising/emotional-toolkit-for-parents-done-by-children/x/16050156