Produtos Be Human: Jengas Emocionárias

As Jengas Emocionárias são resultado do “Projeto Kids” e proposto por crianças dos 4 cantos do mundo.
São jogos para fazer em grupo, em família e com amigos, adultos e crianças (+ de 6 anos). A ideia é que cada jogador tire uma peça, siga à instrução e a coloque no topo da torre, sem deixar cair a torre. Afinal tal como com as nossas emoções a ideia é manter o equilíbrio, o que nem sempre é fácil.

As instruções vão ajudar a falar de emoções, melhorar a convivência entre todos e a ter interacções mais significativas com o planeta.

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Brincar de esconde-esconde ou de Carnaval: Será que ainda sabemos Brincar?!

O relógio ainda não marcava as 8 horas da manhã e já estávamos prontos para sair. Tínhamos decidido “Brincar de Carnaval” em família por isso bastou-nos tirar a cola quente, as porpurinas e um toque de sensualidade do armário para cumprirmos o que se propusemos. Era o primeiro carnaval da

Madá. Os seus tenros 2 anos e picos, não lhe tinham dado tempo para vir antes. Queríamos que sentisse o som da bateria de perto e experimentasse um “Sambinha no pé”. Por isto seguimos (mascarados de igual, à “wally”) para o largo do machado, para um bloco de rua o “Largo do Machado, mas Não Largo do Copo”.

Juntamo-nos a muitas outras famílias, algumas com 4 gerações presentes, a avó, a filha e o neto, e quase todas competiam connosco, pois, estavam de “Super-Heróis” ou de família dos Flinstones. Juntos pela brincadeira, pelo escárnio do que fazemos como adultos, políticos ou como espécie, passamos uma semana a dançar, rir e brincar, numa das festas mais loucas do planeta, no carnaval do Rio do janeiro.

Decidi que o Brasil devia contribuir para o Kit de Saúde Emocional, por se tratar de um país com formas de expressão que ultrapassam a palavra. Um povo que consegue promover relações sociais e de amizade, que através do Samba usa o humor, dança e criatividade para lidar com o trágico. Foi assim cheguei ao cerne da questão, a brincadeira e a sua importância para a saúde emocional da Família. O carnaval oficial dura uma semana, mas as preparações começam meses antes do evento. É muito mais do que os desfiles das escolas de samba no sambódromo da Sapucaí.

Na verdade, o lado mais divertido do carnaval está nas ruas que, se enchem de pessoas a dançar e bincar de bloco em bloco. Os blocos são bandas independentes que tocam pelas ruas, desfilando fantasias coloridas a ritmos diferentes. Há ritmos para todos os gostos e idades, até para quem não gosta de samba, o bloco do Sargento Pimenta só toca música dos Beatles, por exemplo. O Cordão da Bola Preta é um dos maiores blocos e junta aproximadamente um milhão de pessoas todos os anos, este ano fez completou 100 anos e talvez por isto, tenha tocado mais de 7 horas seguidas.

Os blocos secretos não entram na programação oficial e exigem acima de tudo humor, muita brincadeira, pelos nomes engraçados e para conseguir responder aos comentários de duplo sentido. “A Nega Indoidô; Apertado MasEntra; O bafo da Onça; Deita, mas não dorme; É pequeno, mas vai crescer!;Melhor ser bêbado, do que ser Corno; Parei de mentir, Não de beber!;Te vejo por dentro…Sou de radiologia!;Me enterra na quarta ou Céu na terra!” São alguns dos nomes de blocos e no nosso caso, estando fantasiados de wally, era quase inevitável não ouvir comentários como “

Poh, você vem de Wally, como quer que alguém te veja? Nunca ninguém descobre o wally!”

A OCDE (Organização para a Cooperação Económica e o Desenvolvimento) e o World Happiness Report lançado recentemente pelas Nações Unidas revelam que o segredo dos pais mais felizes do mundo, começa na infância e passa por deixar as crianças brincarem. De facto, se há lugar do mundo onde brincadeira não tem hora nem idade é no Brasil. Uma das perguntas que faço nas entrevistas do “KIDS” é “o que te deixa mesmo feliz?” e tanto na Serra Leoa, como na Colômbia, Japão, São Tomé e Príncipe e Brasil, as respostas oscilavam entre estar com a família e brincar.

 

Embora a realidade das crianças se altere com o tempo, cultura ou contexto, uma coisa é certa, a brincadeira é sem dúvida uma das formas mais eficazes de aquisição de competências essenciais para viver no mundo do “futuro” e ainda uma das bases da saúde emocional. Parece que estes especialistas de pequeno porte, sabem o que confirmam os estudos, que a brincadeira livre ensina as crianças a serem menos ansiosas, mais resilientes, a lidar melhor com o stress e a desenvolverem a criatividade para darem novas soluções aos problemas, criatividade para gerir mudanças, sem que isso as distancie dos outros e do planeta. Traz portanto, mais saúde emocional e deve ser experiênciada no seio familiar.

 

A ciência já nos mostrou que as crianças preferem ouvir vozes humanas a outros sons. E no estudo sobre Felicidade e Infância realizado pela Immaginarium em Portugal (com uma margem de confiança de 95%), a maioria dos pais Portugueses respondeu que a felicidade das crianças está inteiramente ligada ao tempo passado a brincar com os pais e a explorar o mundo através da brincadeira real.

 

Através da brincadeira a criança tem a possibilidade de oscilar entre o mundo real e imaginário, desenvolver autoanálise e por isso conhecer-se melhor, criar e recriar mais relações com os outros e explorar o mundo. Ganha mais consciência das suas capacidades, das limitações e por isto, é obrigado a gerir a sua frustração.

 

A questão que se coloca em seguida é: E nós, sabemos brincar?! E a resposta é duvidosa.

 

Na maioria das vezes incutimos brincadeiras às crianças com orientação dos adultos, raramente lhes permitimos brincar livremente sozinhos ou com outras crianças. Como se isso representasse uma perda de tempo, e talvez por isso as nossas crianças sejam “entupidas” de atividades extras curriculares, de atividades que estimulam competências X e

Y (importantíssimo, sim), mas não menos importante é a Brincadeira Livre, onde crianças são deixadas simplesmente para brincarem.

 

A melhor forma de Brincar?

 

A brincadeira Livre: Significa simplesmente dar tempo para brincar livremente com amigos. As crianças são deixadas sózinhas ou na companhia de amigos para brincarem como lhes apetecer. Brincar não é o mesmo que praticar um desporto ou participar numa atividade (extra) curricular organizada por um adulto.

 

O terceiro relatório do IKEA propõe que se usem formas diferentes de brincar e sugere que estas se vão alternando com a brincadeira livre:

 

  1. “Brincar para Reparar”: São brincadeiras que promovem a recuperação do stress do dia-a-dia e aumentam o bem-estar das pessoas, como o ioga ou o tai-chi, de contacto com a natureza, jardinagem ou passeio.

 

2.”Brincar para Conectar”: Atividades que levem a família e amigos a estarem ligados sem tecnologia, a passar momentos de qualidade com atividades como, fazer karaoke ou fazer jogos tradicionais (como os de tabuleiro ou as cartas).

 

3.”Brincar para explorar”: Atividades que ajudam a explorar mundos reais ou imaginários, viajar ou brincar ao

“faz-de-conta”.

 

4.”Brincar para Expressar”: Atividades que apostam na criatividade e nas artes, da pintura à música.

 

 

Algumas ideias que podem trazer mais brincadeira às rotinas lá de casa:

 

  1. Definir um tempo de brincadeira: Com as crianças definam um dia da semana para os jogos. Faça um calendário e afixe-o no frigorífico. Rapidamente vai ver que a alegria da criançada e sentir a sua criança interior a rejuvenescer.

 

  1. Começar o dia com uma pequena brincadeira: Dança, pequeno jogo à volta do pequeno-almoço, a vestir…

 

  1. Pratique o dramatismo: As crianças adoram dramatizações, crie personagens novas e encarne-as sempre que possível.

 

  1. Ser Tonto: Quanto mais tonto melhor. Finja que cai, fale à monstro, encarne personagens…

 

  1. Use brincadeiras e humor para lidar com os momentos mais difíceis: Uma luta de almofadas, uma corrida a volta de casa ou uma competição de estátuas pode definitivamente mudar os humores.

 

Família: Postiça, Arco-iris, Barulhenta, Animada ou Esquisita, o que importa são os laços afetivos!

A Maya começou “leve-leve” e quando se apercebeu já estava apaixonada pelo segundo Homem da sua vida, o Iódi.

Com ele teve mais dois filhos. Disse-me que a verdadeira família são os nossos filhos e as crianças que vivem connosco “homens vão e vêm”.

Se noutros lugares os ritmos importam, na capital mais pequena do mundo e uma das maiores biodiversidades do planeta, na ilha do Príncipe, ainda mais. Uma ilha com cerca de 7000 habitantes registados, dos quais 4 000 são crianças e 40% de floresta virgem, as coisas devem respeitar, sem dúvida, o seu fluxo “Leve-leve”.

O “Homem da Lua”, como é conhecido nas ruas da ilha é um empresário sul-Africano e o grande investidor deste território. Ficou conhecido por ter sido um dos primeiros turistas espaciais da história e por querer fazer de uma das ilhas mais pobres do mundo uma utopia de sustentabilidade. Objetivo cumprido ou não, as coisas têm seguido o seu rumo e a verdade é que tem investido na ilha como se fosse o seu bebé em crescimento. Tornando-se numa dos responsáveis pelo aumento do poder de compra dos habitantes (mesmo com todas as polémicas envolvidas).

A Bela conhece-o e juntou o seu sonho ao dele: ter uma guest-house e servir o melhor Bonito grelhado do mundo era o que a movia. Sempre acreditou que a Família era um dos valores mais importantes da vida, até mesmo mais importante do que o trabalho. Acima de tudo queria interromper o ciclo de pobreza em que vivia através de um negócio familiar “Graças ao homem da Lua a única estrada que leva a capital ao aeroporto está concluída e isto tem aumentado o nº de pessoas que passeiam pelo rio Papagaio, por isso hoje estou a construir a minha primeira guest-House e a minha família é que está a ajudar”.

A Maria do Céu é mais um elemento da grande família da Ilha. É uma investigadora Portuguesa que faz o reconhecimento da fauna e flora do arquipélago. O Príncipe é um ótimo Playground para quem trabalha nestas áreas e Maria do Céu foi gradualmente tornando os terapeutas e curandeiros tradicionais na sua família. Deles recebe os conhecimentos sobre as plantas (muitas endémicas) e agrega-os. Afinal se todos soubermos os benefícios de determinadas seivas e plantas podemos começar criar a nossa própria farmácia caseira.

A Vanessa é bióloga, com muitas milhas marítimas feitas. Viu a família biológica passar a numerosa, quando se apercebeu que as equipas de guardas dos mares e até de tartarugas que criam ninho na ilha, lhe davam um sentido de “estar no lugar certo”, de pertença. São estes que a apoiam quando precisa ir salvar um ninho no meio da noite, que a ajudam a proteger os ninhos contra as ameaças dos turistas, e até lhe dão um sentido de propósito fundamentais para sobreviver à distância de casa. O Facto desta ilha juntar cerca de 5 (de 7) espécies de tartarugas do mundo (e algumas delas estarem em vias de extinção) reforça o sentido de propósito, de proteção e dedicação à ilha.

A Estrela, trocou as maresias de Sines pela humidade do Príncipe e dedica-se à sua nova família, as mulheres da cooperativa. Estas mulheres fazem do vidro que recolhem da ilha e que vai chegando com as marés vazias, obras maravilhosas. Transformar vidro em joias que conseguem escoar (podem ver e comprar na Dome Etical Store,em Lisboa) tem vindo a unir a Família, a melhorar a socialização, valorização e sentimento de utilidade.

A ideia de visitar a Ilha do Príncipe surgiu essencialmente por ser uma ilha com uma enorme biosfera e com mais crianças que adultos. Desconfiei que seriam ótimos especialistas de sonhos e de conservação e proteção da natureza.

Mais uma vez fui surpreendida pelo projeto quando me apercebo que o (assunto) Família é um dos que mais importa neste retalho do Mundo. Estando a criar um Kit de saúde emocional para Famílias, aproveitei a dica para me debruçar no tema e enriquecer a ferramenta.

Às perguntas o que te deixa feliz? A maioria das crianças focou essencialmente: ” Estar com a minha Família e dar mergulhos no Mar”.

O termo “família” é derivado do latim famulus e significa “escravo doméstico”, mas a definição clássica de família remete para outras dimensões (e ainda bem): um agrupamento humano formado por indivíduos com ancestrais em comum e/ou ligados por laços afetivos que geralmente vive na mesma casa.

Ao nível de função, há várias visões. Enquanto uns defendem que a família é aquela que gera afeto entre os membros, que proporciona segurança e aceitação pessoal, sentimento de utilidade e ainda a base de aprendizagem das regras sociais.

Outros acrescentam que deve ser a responsável por garantir as necessidades básicas, como promotora do sistema de crenças e atitudes face à saúde. Felizmente hoje, a família pode ser muito mais do que um conjunto de obrigações ou ligações biológicas. Envolve também, proteção e afeto.

Há factos intemporais, que não dependem de teorias: a Família é a primeira instituição social com a qual a criança tem contacto na vida, e que serve como quadro de referência para futuras relações e interações com os outros e com o mundo. Esta foi uma das razões que me mais me motivou para este projeto, acreditar que a Família deve ser foco de atenção e apoio pela sociedade.

Quer sejam Famílias monoparentais, arco-íris, adotivas, biológicas ou postiças, devem ser apoiadas pelas vários organismos e nutridas de ferramentas que lhes permitam exercer saudavelmente a parentalidade, para assim formar as futuras gerações, com menos sofrimento ou agressividade, mais laços afetivos e melhores interações com o planeta, afinal “Sem o afeto de um adulto, a criança não desenvolve a sua capacidade de confiar e de se relacionar com o outro”.

Daí que se tenha tornado tão claro para mim a necessidade da criação de uma ferramenta que tivesse o contributo de “filhos” e servisse de apoio para as Famílias.

Retomando a ilha do Príncipe. Na dinâmica social e familiar da ilha, a mulher desempenha muitos papeis de negócios e normalmente gerem-nos independentemente dos seus companheiros ou irmãos.

Ser “Mãe” é bem mais importante do que ter uma família com companheiro/marido. Aqui, mais do que noutros lugares do mundo que conheço, há dois tipos de união entre casais: o “viver Juntos” e a “relação de visita”. E tudo isto condiciona o tipo de família que por cá se vive.

As crianças do Príncipe, a Maya, a Estrela, a Maria Do Céu, a Vanessa e a Bela têm algo em comum com o “Homem da Lua” fizeram da Ilha casa e criaram a sua família a partir desse ponto.

De facto se olharmos para o conceito de família nos dias de hoje, os números de vários países mostram-nos que o conceito tem vindo a fugir do modelo tradicional (Pai provedor e mãe doméstica) criado para servir o desenvolvimento do capitalismo.

Se na ilha do Príncipe mais de metade das crianças têm mães solteiras, na Colômbia 84% dos filhos são de Mães Solteiras, já em Portugal (em 2016) o número rondava os 2446 e 103 foram registados de mães incógnitas (barrigas de aluguer no estrangeiro, por exemplo) e 64 pessoas adotaram uma criança nesse ano.

E embora Portugal seja um país religioso tradicional, os números mostram-nos uma realidade, a reformulação do conceito e função familiar. E atenção que mudar de paradigma em relação ao conceito de família, não lhe retira significa importância no que concerne o “Valor de Família” apenas ajuda a a reflexão. Afinal mais importante do que forma ou tipo de família (monoparental, arco-íris, adotiva, com irmãos postiços, madrastas ou padrastos) o que importa é o exercício da parentalidade em pleno, com qualidade de laços afetivos.

Que sociedade civil e legislação acompanhem esta mudanças sem preconceitos.

Em termos legais o Tribunal Europeu dos Direitos do Homem e a Convenção Europeia tentam acompanhar as modas e criam medidas para manter os laços afetivos dos menores e evitar o seu sofrimento. Resta que a sociedade civil integre e apoie os diferentes conceitos de família com tolerância.

Que a nossa máxima seja o respeito e promoção da primeira experiência de socialização da criança, com mais afeto, acompanhamento e valorização, proteção e formação de valores, consequentemente de carácter.

 

Algumas dicas que melhoram a socialização afetiva lá em casa:

 

 

 

 

 

  1. Perceber qual o tipo de demonstrações de afeto usadas lá em casa: todas as famílias têm a sua cultura e se para uns é óbvio que temos que dizer “gosto muito de ti”, para outros o amor vê-se à mesa e na forma como se preparam as refeições. Identifique a sua e ponha-a em prática.
  2. Identifique quem são as pessoas, com quem não tem laços biológicos, que fazem parte da sua família pelos laços afetivos, sonhos, convivências, datas especiais e rituais que partilham. Às vezes aquele amigo/amiga são os melhores tios ou irmãos “postiços” que podemos dar-nos a nós e aos nossos filhos.
  3. Rituais: Reflita sobre os dias de celebração importantes para si e para a sua família, crie a partir daí um ritual seu. Às vezes os dias de celebração especiais impostos pela sociedade não nos dizem muito e pouco contribuem para socializações afetuosas.
  4. Todas as famílias são diferentes, mas todas ficam tristes quando perdem alguém que amam. O importante é perceber esta diferença e fazer com que todos os membros se sintam valorizados, que são importantes e primeiro que fazem parte daquele que é o seu primeiro grupo social.

Das Revoltas às Birras: Como Lidar com a Zanga?

A entrada da Primavera em Portugal trouxe uma mudança de continente no “Kids”. Deixei os ares do caribe e mergulhei nos cheiros Africanos, em São Tomé e Príncipe.

África: o terceiro continente mais extenso do mundo, ocupa cerca de 20% do planeta Terra e é composto por 54 países. Embora alguns países tenham um índice de desenvolvimento humano razoável, como é o caso das Seychelles, África do Sul ou São Tomé e Príncipe, dos 30 países mais pobres do mundo, 21 são Africanos. Com um mapa desenhado a régua e esquadro pelos colonizadores Europeus (consoante seus interesses e zonas de influência) que dividiu artificialmente grupos com os mesmos costumes, tribos e praticantes dos mesmos dialectos,  é um continente muito marcado pela resiliência na luta, acima de tudo, por dignidade. Com revoltas separatistas, golpes de estado, ditaduras, massacres ou guerras sangrentas, nunca se deixou ficar perante as injustiças. Mas o encanto selvagem e belezas brutas destes 20% de planeta distraí-nos da sua história mal aterramos.

Quando aterramos em São Tomé a sensação imediata é de expansão: de cores, de natureza, de volumes e cheiros. Talvez ter ficado alojada no “Pequeno Paraíso” tenha ajudado, mas decerto que a combinação entre a lusofonia que cá se fala, a natureza e a ecologia, a cultura e história marcam a diferença deste arquipélago cruzado pela linha do Equador. Mais que direito por linhas tortas, é aqui que a linha do Hemisfério Norte se cruza com o Hemisfério Sul.

Na ilha do “Leve Leve” deslocamos-nos de Vanettes amarelas, regateamos caso nos cobrem preço de turista. A  Rosema (cerveja Nacional) ajuda muito nos fins de tarde húmidos e alaranjados. O peixe e a banana estão na ordem dos dias, ou melhor, nos menus de refeição. As crianças, essas são ágeis a estender a mão para pedir “doce” e raramente estão sós. Em qualquer comunidade, quintal ou Roça, o que não faltam são crianças. Muitas, mas muitas crianças. Seja a lavar a roupa nos rios, a capinar nas roças ou a pôr o “pé na estrada” para ir para a escola. Crianças pequenas com agilidade de adulto, até para colocar a capulana e transportar outras ainda mais pequenas.

Confesso que se em algumas regiões da Colômbia ou no Japão foi difícil ter autorização das famílias para entrevistar crianças, aqui esse não é o caso. O desafio é mesmo manter a calma, sem ficar enfurecida, e conseguir que as

centenas de crianças curiosas se afastem e fiquem em silêncio durante as filmagens das entrevistas.

Em conversa com o Presidente do Conselho de Ministros da ilha apercebi-me que também ele tinha assuntos que o enfureciam. O desemprego na Ilha era o seu tema. Não que fosse essa a questão, mas afinal, dizia-me “é que cerca de 90% da população presta serviços informais, criando uma economia paralela no mercado, difícil de mensurar. As famílias rurais trocam os vegetais da sua roça, as pessoas que vemos sentadas nas ruas a viver o “tempo livre” são simplesmente os donos das moto-taxis que circulam na cidade. Alguns deles têm até 4 motas a trabalhar; nas comunidades  piscatórias, por exemplo, todo o peixe é pescado e vendido em mercado paralelo. Como é que a comunidade internacional ainda fala no desemprego de São Tomé?”.

O Kuame é um artista plástico São Tomense, também me confidenciou o que a sua revolta o levou a fazer à medida que me mostrava a sua escola de artes “com esta residência/escola vou mostrar à comunidade internacional que os São Tomenses têm capacidade para fazer crescer o país, não só em termos morais como, económicos e artísticos, mantendo nossa cultura!”.

Ia ficando desconfortável com algumas destas partilhas, mas ainda não entendia a importância que estas revoltas podiam ter.

A ida a São Tomé foi resultado da primeira parceria do projeto “Kids” com uma ONG Portuguesa, Missão Dimix.

A Sónia, fundadora da Dimix, acredita na mais-valia dum trabalho de competências emocionais para os jovens com quem trabalha e desafiou o “Kids” a desenvolver os seus workshops para promoverem auto conhecimento, melhorarem a relação com os outros e a interacção com o planeta, num grupo institucionalizado.

Diariamente apanhávamos as vans e deixávamos a casa do “Pequeno Paraíso” rumo à comunidade onde a instituição se encontrava. Dia após dia, as sessões corriam bem e a ideia de, no final, entrevistar as crianças da instituição para o documentário do “Kids”, era cereja no topo do bolo. Ambas  queríamos dar voz a estes especialistas e ter a sua contribuição na criação do kit de saúde emocional que o Projeto Kids se propõe.

Vivêmos algumas revoltas ao longo da semana, que não nos impediam de continuar. A Sónia numa das viagens de transportes públicos foi atacada verbalmente por um grupo de mamãs ao perguntar o preço por saír numa outra paragem. Já eu, enquanto tentava comprar carambolas no mercado (não há melhor do que as carambolas de São Tomé) fui a causa de uma richa nas vendedoras de mercado, que em uníssono gritavam, esbracejavam que me devia ir embora. E foi um moto-taxista que me aconselhou a ir embora. Sem as carambolas…

No final da semana, já com a autorização da directora da instituição, começamos com as filmagens. A Sónia conseguiu criar a primeira equipa de produção do projeto Kids (formada por crianças!!) e conseguimos respostas deliciosas, dicas incríveis. É sem dúvida um grupo de rapazes muito especial. O que não contemplamos foi a zanga da directora face ao facto das filmagens terem como plano de fundo um vão de porta “o que vão pensar as pessoas? Esta porta meio destruída?! Não autorizo esta publicação.” Decisão respeitada, entrevistas não vão ser usadas no documentário.

Semana terminada,  uma missão cumprida no terreno, e muitas zangas expressas pelo caminho.

Efetivamente, ambas estranhamos algumas destas reacções e confissões, afinal se há lugar no mundo onde as pessoas são felizes e pacíficas, é em São Tomé. Demorei a entender o que estava por detrás de tudo isto, uma história marcada por imposições de valores, costumes e ordens e um enorme desejo de “preservação da sua cultura”.  Parece que estas revoltas desempenham um papel num país tão pacifico como este: Manter os limites e proteger uma região que tem sofrido muito com a invasão de estrangeiros, ora como o colonialismo, era com boom turístico dos últimos anos. Os turistas que “entram” sem respeitar a cultura e acabam por interferir com a dinâmica do dia a dia e os nacionais que se defendem disso, reagindo com estrangeiros, como se todos fossem turistas.

De facto, segundo o índice de Felicidade Interna Bruta, uma dos indicadores que mais contribui para a felicidade de um povo é a conservação e protecção da sua cultura. Voilá, revoltas em prole do bem estar do povo!!

É impossível falar de zanga e bem estar sem referir a importância de aprender a regulação desta emoção especialmente num mundo como o que vivemos hoje, onde as relações entre os povos são marcadas pela doença do século (o terrorismo) e as interacções com o planeta com a explosão de revoltas e guerra. Não é difícil agir de forma zangada contra os outros e contra o mundo. Parece-me urgente ensinar às futuras gerações a zangarem-se.

Por isso uma das perguntas que faço nas entrevistas do “Kids”: “O que podemos fazer quando estamos zangados?”

Em São Tomé as respostas rondaram: “ Deve-se beber água e lavar a cara até ficar calmo.”

Na Serra Leoa: “Ficar quieto até passar.”

Na Colômbia: “Quando estamos zangados o melhor é deixar passar e não fazer nada que nos podemos arrepender.”

Em Portugal: “Brincar com os amigos.”

No Brasil: “Dar um mergulho no Mar.“

Japão:” Zangado? Não sei…nunca me senti zangado.”

A Zanga é uma emoção primária, logo muito importante, acima de tudo porque traz ação. É uma energia interna que permite pôr limites, que dá motivação para dar um “murro na mesa”, lutar contra injustiças ou repressões; permite que nos rebelemos contra regimes, situações ou contextos disfuncionais. Traz mudança. Agora sim, vislumbro a função de algumas das revoltas que vi no povo mais pacífico do mundo, os São Tomenses. De facto talvez sem estas zangas, fosse difícil manterem-se com níveis bons de desenvolvimento humano, com cultura e carácter próprio.

É essencial que aprender a direccionar a zanga para o lugar certo, sem sair explosivamente e contra coisas/pessoas/situações que não são a sua causa. Deve ser regulada e usada de forma saudável, e nunca para mostrar poder ou castigar os outros. Quantas vezes ouvimos dizer ou dizemos que “ Ela reage com 7 pedras na mão”, “Não lhe fiz nada para me falar assim..” “Ele foi muito agressivo e isso foi injusto..”, estas são algumas situações em que a zanga foi “disparada” e em vez de construir e desempenhar a sua função saudável, intoxicou a relação com os outros.

A primeira dica para aprender a lidar com a zanga é:  Autorregular-mo-nos.

Em seguida aprender a reconhecer o que nos deixa zangados e a libertar a emoção.

Por fim, aprender a usar a energia da zanga para criar, transformar o que precisa ser tranformado (este último ponto ficará para outro momento).

É comum ver famílias a castigar as crianças, porque estão a fazer uma birra, porque estão zangadas ou batem nos colegas. O que não é tão comum é ver famílias a ensinarem os seus filhos a zangarem-se. Talvez o primeiro passo na parentalidade é reflectir sobre a forma como lida com o seu filho quando ele o faz ficar zangado:

Algumas perguntas que podem ajudar nesta reflexão:

  1. Tenho uma estratégia coerente e consistente para disciplinar o meu filho?
  2. B. Normalmente, nestas situações, consigo transmitir o que quero aos meus filhos?
  3. C. Sinto-me bem com a forma como o faço?
  4. D. Eles sentem-se bem com a forma como lhes ponho limites?
  5. Quanto da minha estratégia de disciplina reflete o que os meus pais faziam comigo?
  6. F. O que gostava de mudar na educação que dou aos meus filhos? Muitas vezes a resposta a estas perguntas traz sentimentos de culpa “não estou a ser sufientemente bom”, “estou a falhar”, “posso estar a errar”…É um momento de respire fundo e relembrar que tem feito o seu melhor. Agora pode aprender algumas estratégias para fazer diferente.

Mais do que a corrigir as situações imediatas, o importante é promover ligações neuronais e celebrais que levem a criança a fazer escolhas cada vez mais conscientes e responsáveis, a desenvolver competências emocionais que lhe permitam auto-regular-se e assim a precisar menos e menos de medidas de disciplinares. Especialmente em momentos de gestão de stress.

Como sabemos, nas crianças os comportamentos são o termómetro do que estão a viver internamente, por exemplo, comportamentos como: Zangas, brigas, birras, atirar-se para o chão, mostram que a criança está com dificuldade em regular as suas emoções internas. Agarrar, pegar ao colo, Tocar, tranquilizar pode ajudar a que se acalme e organize internamente. Já as reacções de Ansiedade, medos, tristeza,  isolamento (são mais difíceis de observar), mostram que a criança precisa de ajuda para exprimir o que está a sentir. Verbalizar as emoções e dar hipóteses costumam ser uma grande ajuda.

 

 

Uma dica de Daniel Siegel  para lidar com a zanga do seu filho:

Não desvalorize o que zanga o seu filho (como nos sentimos quando alguém nos diz”deixa la isso, esquece isso, perante uma situação onde nos sentimos injustiçados?!) por isso, conecte-se com o seu filho/a” Eu sei que estás a passar um mau bocado. Que está a ser difícil controlares-te. Anda, eu ajudo-te”. Atenção, é frequente ver famílias a usar a estratégia de repetir apenas o que a criança está a fazer “Eu sei, eu sei…pareces zangado” e nestes casos o comportamento descontrolado da criança é o que está a ser promovido, de forma muito indulgente. É importante explicar o primeiro exemplo, pois este permite que a criança perceba que precisa de se controlar e esteja receptivo e disponível para fazer diferente.

Dicas para promover auto-regulação de uma criança zangada:

  1. Em caso de birras, faça um “time out” afaste-se deixando-a regular-se por si. Caso seja muito pequenina, respire fundo e mostre-se ainda mais calmo que o normal. As crianças aprendem por modelos.
  2. Priorizar a ligação com a criança: a criança é mais cooperante quanto mais se sentir acarinhada e amada.
  3. Validar o que a criança sente: Mesmo que seja inconveniente “sim, eu sei que estás desapontada”.

Actividades lúdicas que desenvolvem técnicas de autocontrole ou regulação de emoções difíceis:

O grito de Guerra “AAAAAUUUTXXXX”: Junte e encha balões de água de várias cores. Escolha um lugar onde possam ser lançados (pode ser na banheira lá de casa, num jardim…). Com o seu filho, lance-os contra a parede/banheira/chão, a única regra é que em cada balão lançado ambos devem dizer uma coisa que os deixa muito zangados ou irritados. No final de cada frase é lançado o balão acompanhado do grito. Esta actividade ajuda libertar e trabalhar sentimentos de zanga precisam ser libertados. Não substitui auto-regulação dos mesmos, mas ajuda a introduzir o tema das emoções difíceis.

Zanga no Pincel: Distribua material de pintura (é melhor serem tintas ou lápis de cera, pois, deslizam melhor na folha) e folhas A3. A instrução a dar “Agora vamos desenhar como se o lápis/pincel estivesse triste” “Agora como se estivesse Zangado”, “irritado”, “sózinho”..

No final, aproveite para falar do quadro artístico, focando mais a zona da zanga. Esta actividade ajuda a introduzir a emoção e trabalhá-la no papel. Não exclui a auto-regulação, mas mais uma vez ajuda a introduzir o tema das emoções difíceis.

O croquete na Relva/croquete de Praia: Num jardim ou Praia, proponha ao seu filho este jogo. Cada um deve partilhar uma coisa que o deixa zangado e em seguida rebolam na relva ou areal da praia. As crianças normalmente gostam tanto deste jogo que rapidamente deixam de estar zangados ou de querer falar disso, mas pode aproveitar a brincadeira para introduzir o tema e mais tarde falar sobre as coisas que referiram no jogo.

Kids@Minca: Como promover a liberdade dos mais velhos e expontaneidade dos mais novos lá em casa?

Os Coguis são uma tribo ameríndia residente no norte de Serra Nevada na Colômbia. São cerca de 10 mil pessoas. Falam a sua língua, têm costumes e ideias próprias. As suas práticas baseiam-se na crença de que a Terra é um ser vivo e de que a Humanidade tem dois irmãos: os irmãos maiores (eles próprios) e os irmãos menores (nós, os comuns mortais). Os segundos, são descritos como “crianças asneirentas” que precisam aprender a viver Humanidade.

Com o sem base cientifica, esta era a razão que me levava sonhar em chegar a Serra Nevada para entrevistar crianças coguis e pedir as suas dicas para melhorarmos a interação com a Terra. Apenas não planeei que Minca e Macondo, mudassem não só os meus planos, como o tema da crónica de hoje.

Na última crónica falei da importância da ligação com a natureza para a saúde emocional da família. Hoje foco-me na liberdade.

Na verdade, a liberdade começou a ganhar corpo antes de chegar a Minca. Quando “tropeçei” com Macondo.
Macondo é uma vila com cerca de 300 pessoas na cidade da Aracataca, onde Gabriel Garcia Marquez viveu a sua infância e usou como cenário para o romance “Cem anos de Solidão”.
Este romance é marcado pelo isolamento e destruição da vila e, são as gerações da família Buendia que se vêm obrigadas a assumir um papel ativo no desenvolvimento próspero da região e da sua libertação pessoal. Coincidentemente (ou não) a esta altura já desconfiava que liberdade e solidão podiam caminhar juntas, mas foi em Minca que me apercebi da profundidade da coisa.

Minca é um lugar de almas livres. Senti-o imediatamente quando cheguei. Talvez o violoncelo de Pablo tenha ajudado, mas a localizaçõa a 600 metros de altitude, as casas rústicas em ruínhas apertadas e as cerca de 300 espécies de pássaros que sobrevoam a vista para Santa Marta, decerto contribuíram.

Pablo mostrou-me que a liberdade, começa com o “dedo” da família e pode caminhar junto com a solidão quando não é bem “cozinhada”. Ser livre depende não só do óbvio, externamente (prisão…), mas acima de tudo, de processo internos (Medos, pressões sociais..etc) daí que a expontaneidade seja uma das principais mediadoras entre o que está dentro e o que sai para fora.

Deu a entender que ter medo de falhar faz parte do processo, mas não é o fim do mesmo.
E foi nesta refelxão que ele que me levou a conhecer Sónia e o seu projeto.

Sónia é a criadora de uma comunidade. Decidiu cria-la anos antes, por acreditar que para ser livre é essencial viver saber viver com os outros, só assim se treina a expontaneirdade  poder gerir o próprio tempo: “antes de ter esta comunidade tinha um negócio de motas que me obrigada a ter muita disciplina de tempo. Tinha sempre a sensação que estava “presa” ao negócio. E como prestava um serviço ao público, raramente podia ser expontanea e criativa. Ganhava cada vez mais dinheiro, mas não tinha tempo para estar com quem mais gostava, não tinha tempo para lazer e já quase não sabia quem era. Sentia-me presa. Por isso criei uma comunidade onde pudesse ser mais eu, ser mais genuina, expontanea e acima de tudo, conseguir gerir o meu tempo. Já que para mim, isso me ajuda a sentir livre”.
Sónia tem com ela 15 nacionalidades diferentes, mais de 15 pessoas: entre músicos, artistas e amantes de natureza, cada um assume um papel no grupo, gere o seu tempo e o contributo que quer dar.

Hoje aquela comunidade é conhecida por promover as melhores Jam sessions, culturas de café e ainda exposições de arte, da região.

Minca e Macondo, Pablo e Sónia deram um contributo importante sobre a liberdade, mas foram as respostas das crianças, nos vários cantos do mundo, que me mostraram a sua profundidade:
A Pergunta feita foi: “O que mais odeias que os adultos façam?”
As respostas:
Na Colômbia: “Quando me dizem que tenho que ir fazer coisas que não gosto e não entendo porquê.” Emília, 7 anos.
No Brasil: “Quando eu falo e ninguém me ouve!!” Bruno, 6 anos.
Em Portugal: “Quando me obrigam a comer coisas que não gosto …que odeio!” Rafael, 7 anos
Em São Tomé e Príncipe: “Quando violam pessoas.” Daisy, 9 anos.
Na Serra Leoa: “Quando me obrigam a fazer coisas e não ouvem que estou a fazer as minhas coisas” Bill, 8 anos.


O contributo dos mais novos, veio mostrar que a liberdade tem papel diferente nas várias fases de desenvolvimento humano, e que “ a sensação de perder o controlo da própria Vida” é um foco de mal estar transversal a várias idades.

De facto, se olharmos para a filosofia, Espinoza defende que ser livre é agir de acordo com a própria essência, com a sua natureza. Outras prespetivas focam na autonomia e a espontaneidade do sujeito. Nelson Mandela acrescenta a dimensão dos “outros”.

Segundo o relatório de felicidade de 2012, uma das componentes mais importantes no sentido de bem-estar e realização pessoal do Ser Humano é a sensação de liberdade. O índice de liberdade humana deste relatório, mostra que a sensação de liberdade dos vários povos, está divida em três áreas: “liberdade de expressão, de escolha, de gestão de relações”, mas o tempo tem um papel transversal a todos eles.

Ao nível das crianças a liberdade é reforçada pela espontaneidade, pela autoestima e capacidade de lidar com o fracasso. E neste caso, sendo que a família é a primeira instituição social que a crianças conhece, é importante que estas competências sejam estimuladas aqui. Ao nível do adulto e gestão de dinâmicas familiares, sem dúvida que o tempo é uma questão de desarmonia.

Desarmonia porque, se uns são mais rápidos que outros, outros não podem esperar; uns porque têm mais tempo que outros para “as suas coisas” e ainda há aqueles que não sentem ter tempo para nada,  e isso é injutso.

Resumindo, ao nível de Liberdade na família, abordo duas dimensões:  gestão de tempo nos adultos e o desenvolvimento de espontaneidade nas crianças.
Os estudos indicam que as mães sentem mais responsabilidade na educação dos filhos e, são elas que sentem deixar de ter tempo para si e para as suas coisas. Os estudos tambem mostram que o Fosso de Felicidade Parental (satisfação com a parentalidade) se altera com a  fase de vida da dinâmica familiar e da criança. Uma família com pouco apoio externo ficará mais afetada com a doença de um pequeno, do que outra com apoio de avós, por exemplo.

Para reduzir este fosso, vários países criam respostas. Na Dinamarca, por exemplo, uma das respostas foi o programa de “empréstimo de avós” onde os mais velhos se inscrevem para adotar uma família e apoiar nas questões logísticas da mesma. Afinal se um casal consegue fazer um bom trabalho, imaginem 4 casais. No Japão adotaram o shirin-yoku, “um banho de floresta”. A proposta Japonesa é que de tempos a tempos, as famílias se percam na natureza e usem os seus sentidos, segundo eles, a experiência vai reforçar laços e sentimento de pertença, capacidade de arriscar e arrojar. Em Bogotá, na Colômbia, a medida adotada foi o “fecho das ruas aos domingos” para que todos possam aproveitar o tempo livre em família usando a ciclo via.
Segundo Meik Viking, os Portugueses têm muita satisfação com parentalidade. Em Portugal há um equilíbrio entre o tempo de trabalho, de lazer e os custos de serviços de apoio às crianças.
Por isto deixo algumas dicas para os adultos libertarem tempo, facto que lhes trará mais sentido de liberdade na rotina diária e em seguida algumas dicas para formar futuros adultos mais espontâneos, com menos medo da solidão, com mais capacidade para exporem as suas opiniões e sentirem-se mais e melhor na sua pele, mais livres.

Para Pais:
1. Ter uma prática física que inclui socialização. Fará 2 em um. Pode estar com um amigo/amiga e incluir na sua vida exercício físico.
2. Aproveitar mais os tempos mortos. Dois minutos aqui, 5 ali, podem ser usados para fazer pequenas coisas. Aproveito sempre para fazer algumas pesquisas. Mas o Meik Wiking usa-o com uma aplicação para aprender Espanhol.
3. Se se deslocar de transportes públicos, aproveite para ler um livro
4. Cozinhe mais do que precisa. Ter mais comida feita, permite que mantenha uma alimentação saudável e que tenha finais de dias livres.
5. Focar-se e evitar o que Meik Wiking chama de “sangue sugas de tempo”, como as redes sociais ou os jogos de telemóvel. Evitando-os, dedicará mais tempo a comunicar em família, melhorar as interações com todos e consequentemente o sentido de pertença.

Para incluir na educação dos miúdos e promover o seu sentido de liberdade:
1. Incluir a prática de atos de bondade: Um ritual de visita a uma instituição e progressivamente adicionar ações como ajudar quem precisa, dar um elogio a alguém, conversar com uma pessoa tímida ou isolada.
2. Promover a empatia: “o que será que a pessoa X ou Y está a sentir agora?” pode ser feito em tom de jogo.
3. Cumprimentar as pessoas com quem nos cruzamos todos os dias.
4. Sorrir para estranhos
5. Promover a confiança na criança. Sim, sei que nem sempre é fácil, tendemos a pensar que sabemos o que é melhor para os mais pequenos, por isso ouça com paciência, mostre curiosidade e transmita encorajamento para que ele/ela consiga fazer coisas por si e desenvolva o seu sentido de “ser único” sem pressões sociais.
6. Mostrar apoio incondicional perante as escolhas da criança. Uma das maiores questões da liberdade, que a pode levar à sensação de solidão e de que não se tem o apoio e compreensão dos progenitores.