Que sociedade queremos para os nossos filhos?

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Algumas dicas de como promover a responsabilidade e a consciência social no seu filho – dos 5 aos 10 anos – usando o exemplo japonês

Cheguei a um extremo. Ao Extremo Oriente.

De facto quando mudamos de continente não mudamos só de língua. Mudamos de comida e de forma de comer – aqui come-se cru e não cozinhado e os talheres dão lugar a “pauzinhos” – mudamos a forma como vivemos a estação do ano – aqui chove no verão e usam-se sombrinhas – e até mudamos de mentalidade – mais importante do que aprender a tabuada, as crianças devem aprender a ser cidadãos responsáveis e contribuintes para uma harmonia social. Cheguei ao Japão.

Se na última crónica falei da importância da espiritualidade na educação das crianças, com histórias de Serra Leoa e Portugal, hoje exploro a importância da consciência de responsabilidade para a harmonia social na educação das crianças, a sociedade dos nossos filhos. O Japão tem cerca de 127 milhões de pessoas. Em cada 100 japoneses, 64 têm entre 15 e 65 anos, 23 japoneses têm mais de 65 anos e apenas 13 têm entre os 0 e 14 anos.

Tenho a teoria que somos pouco tolerantes a mistérios e por isso criamos mitos para nos tranquilizar. Em relação ao Japão isto é gritante. Tratando-se de uma cultura tão diferente, especialmente na forma como (inter)agem uns com os outros e com o mundo, ouvi uma série de comentários estranhos quando anunciei que o Japão faria parte do “Kids” (saibam mais e envolvam-se em “projectos” nesta página).

Há medida que cá estou identifico algumas causas para estes mistérios sociais.

O primeiro talvez seja ao nível religioso, os japoneses nascem xintoístas e morrem budistas ( o que a meu ver pode estar na base de uma sociedade tolerante e pouco moralista), depois o facto de ser uma nação em uma ilha, sem fronteiras diretas com outros países. Em seguida o facto de, até à Segunda Guerra Mundial, o país não ter sofrido muitas influências exteriores ou até ao início do século passado a maioria dos japoneses viver em comunidades rurais. As questões geográficas também têm influência com certeza: a maioria do território do país é montanhoso, e por isto as poucas áreas planas são onde as muitas pessoas se juntam para viver, vivendo literalmente, em cima umas outras.

Uma enorme densidade populacional ou pequenas comunidades rurais, não deixam espaço para excentricidades ou caprichos individuais. A harmonia social e a identidade de grupo surgem como uma forma de sobrevivência. Sem a clara noção do impacto que se tem no outro, sem que todos contribuam responsavelmente para o bem-estar do próximo, a com(vivência) no território Japonês seria impossível.

Esta harmonia social e identidade de grupo sente-se de várias formas, mas no crossing de Shibuya em Tóquio (um cruzamento atravessado pelo maior número de pessoas do mundo) vê-se a olhos nus ou direi a sentidos nus?

Vê-se por exemplo, no sentido de oportunidade do japonês, que é marcado em cada interação. Nos diversos aromas (nem demais, nem de menos). Através dos sons (o silêncio na correria ou as músicas harmoniosas enquanto o sinal está verde) nas aparências (indumentárias á base de preto e branco para não destoar e ninguém se sentir mal). Nas paisagens que mais parecem um suave patch work organizado pela mão humana.

Aqui cada um é peça fundamental para a conciliação de ideias e emoções verdadeiras que podem produzir sensações de bem-estar ao grupo. Um por todos e todos por Um “seria o mantra dos japoneses.

Ao contrário do mantra revelado pelo inquérito feito à população portuguesa, da Universidade Católica, em 2014, que mostra que a sociedade portuguesa está cada vez mais “Cada um por si, e salve-se quem puder” ou as revelações feitas no livro escrito pela jornalista Marisa Moura que tenta responder à pergunta “O que é que os portugueses têm na cabeça?” e onde através de vários inquéritos, pensadores e histórias, revela um Portugal com uma enorme InConsciência coletiva, o que significa menos atos civicos, mais individualismo e maior preocupação em chegar mais além, por si e para si. Tal como veio reforçar o Expresso em 2014 através do artigo de Diogo Agostinho.

Como podemos reverter este ciclo?

Ganhando cada vez mais consciência da nossa responsabilidade e no impacto que podemos ter nos outros, nas ações que podemos escolher ter para contribuir para o bem-estar dos que nos rodeiam. E por isto, uma das perguntas que faço às crianças para introduzir a responsabilidade é qual seria a primeira lei que criavam se fossem eleitos o Rei/presidente do mundo.

Em Portugal, o Diogo de 8 anos disse-me “todos deviam andar de skate e apanhar ar”, a Inês de 6 anos, acrescentou “acho que todos deviam proteger a natureza e cuidar das florestas, é dela que vivemos”, e a Shi, japonesa de 9 anos, dizia que todos devíamos nascer especialistas de chopsticks (“pauzinhos”), pois assim não havia discriminação”. O isac de 8 anos defendia “que devíamos cuidar da nossa escola, da nossa comunidade e da nossa família”.

No Japão a responsabilidade e harmonia social são levadas muito a sério, e para isto as crianças, desde cedo, que as praticam. Quando digo cedo, falo do facto de desde os 3 anos que vão sozinhas para a escola, podendo assim ter um contacto direto com a comunidade. Por seu lado, os pais juntam-se a grupos de atividades comunitárias, os Kodomo Kai, e têm como objetivo desenvolver atividades que promovam o bem-estar comunitário, melhorem algumas condições do bairro e ainda ajudem a criança a aprender a ter atos cívicos.

Os kodomo kai (grupos de pais e filhos) têm atividades como recolha de lixo, reciclagem, distribuição de roupas ou até ensinar ao grupo das crianças a agradecer a um estranho que lhe faça uma boa ação. Aos 5 anos as crianças entram para a escola e as expetativas sobre estas, mudam. Eles vão agora, em contexto protegido, aprender a ser bons cidadãos, cidadãos cívicos. E por isto, ao longo do primeiro ciclo, não há matéria escolar nem testes, há sim, uma serie de práticas, cujo o objetivo é ensinar a esta criança, a ser um cidadão civicamente ativo. Alguém consciente de que é responsável por contribuir para a harmonia social da sua escola, na sua comunidade e na sua família. Apenas no 5º ano as crianças começam a sua vida de testes e matérias.

“Afinal de que vale ser um ótimo aluno, se não apanha o seu próprio lixo, se não diz obrigado, se não ajuda um amigo triste?” Perguntava-me a Akiro enquanto me explicava algumas destas coisas.

E como o nosso currículo de primeiro ciclo ainda não segue as linhas japonesas, aqui ficam algumas dicas de como promover a responsabilidade e consciência social no seu filho – entre os 5 e os 10 anos:

Entre os 4 e 5 anos é esperado que as crianças consigam: arrumar a cama, por a roupa na máquina, guardar a roupa, ajudar a pôr a mesa, limpar o pó, regar as plantas, incentivar a pequenos atos generosos em casa, como agradecer, partilhar e ajudar nas tarefas que contribuem para o bem estar de todos.

Entre os 6 e 8 anos é esperado que as crianças consigam: Lavar a loiça, pôr e levantar a mesa, varrer, aspirar, guardar as compras, pendurar a roupa no estendal, voluntariar-se para ajudar na escola.

Entre os 9 e 11 anos: Preparar lanches rápidos, limpar os móveis, ajudar a fazer o jantar, guardar a loiça, fazer a lista de supermercado, ajudar um adulto que precise ajuda

Ao nível emocional:

Entre os 4 e 5 anos a criança vai imitar o que fizer e é importante demonstrar generosidade: Explicando as decisões generosas que vai tomando, por exemplo “comprei duas cópias do livro e vou dar um deles á tua tia, porque ela me disse que também gostava muito”. Agradecer, sorrir, dar passagem, ajudar alguém que esteja a precisar e até, promovendo comportamentos menos egoístas “hoje vamos fazer gelado, o teu amigo joão adora gelado, vamos convida-lo para vir cá comer a sobremesa?”
Elogiar sempre que a criança tem uma demonstração generosa “foste muito generoso em partilhar o brinquedo com o teu irmão”
Ao nível de generosidade na comunidade: a melhor forma de a transmitir e viver, é sem dúvida através de voluntariado. Existem muitos grupos de voluntariado de famílias nas freguesias. Inscrevam-se, passem tempo de qualidade em família e contribuam para o bem-estar da sua comunidade.

Entre os 6 e 8 anos: Nesta fase a criança deve entender que generosidade é mais que partilhar os seus brinquedos.

É durante este período que as crianças começam a desenvolver empatia e a ter a capacidade de se colocar no lugar dos outros, por isto, a exigência em relação à forma como ajudam quem está a precisar de ajuda, como se preocupam como o amigo que está triste pode sem aumentada.

Entre os 9 e 11 anos: A dica para promover a generosidade nestas idades é uma regra de 3 simples:

1 – Faça você mesmo: a criança vai tender a imitar

2 – Fale sobre isso: importante falar sobre atos generosos e debatendo em diversos momentos

3 – Encoraje e dê reforço positivo sempre que haja um ato generoso.

Boas praticas, mas cuidado com extremismos, não deixemos que as nossas crianças se tornem adultos demasiado cedo.

No Japão o sentido de responsabilidade é tão elevado e intrínseco que as pessoas recorrem “ao melhor lugar do mundo para morrer” (uma floresta na base do Mt Fuji onde vão para cometer suicído e assim tomar responsabilidade sobre as suas vidas e deixar de ter impacto negativo na vida dos outros).

Mais amor por favor.

Católicos a visitar mesquitas aos domingo deixa de ser pecado original

Na última crónica falei de empatia e das razões que levavam os homens a chorar. Desta vez venho refletir sobre espiritualidade e porque é que é mais uma dimensão importante na educação dos mais novos.

Artigo da VISÃO, Kids: volta ao mundo das emoções

Freetown, para além do nome que mexe com o meu imaginário, nasceu da libertação de opressões. Foram os escravos negros, libertados por Inglaterra, Canadá e Jamaica que a ocuparam pela primeira vez em 1787. É a capital da Serra Leoa. Quando lá chegamos, não é só o nome e a história que são inspiradores. São as estradas com bancas coloridas que acompanham os “Ss” das colinas da cidade, os vendedores, que se atiram literalmente às janelas dos carros para vender cajus ou as crianças, que aos domingos, mandam nas ruas da cidade e as fecham para jogar futebol.

A Cotton Tree (árvore do algodão), posicionada estrategicamente no centro da cidade, já cá estava na década de 90 e testemunhou muitas coisas. Testemunhou por exemplo, que a religião não entrou na equação durante a guerra. “Todos acreditamos num só deus”. A Cotton Tree também testemunha os gangues que lá se passeiam e que independentemente da cor do seu lenço trocam ideias e os seus cigarros de haxixe. É por lá que passa quase diariamente o presidente do país (homem cristão que se apoia num primeiro-ministro muçulmano).

E por falar em religião, é também ali que se cruzam centenas de frases de ordem religiosa:“God is great” (Deus é bom), “Trust in Alla” (Confia em Alla), “Be gratefull” (Sê Grato), “Gsus Loves You” (Deus ama-te) são alguns dos slogans pintados nas vans (transportes públicos) que lá passam rumo ao seu destino final. Procissões de enterros cristãos que adoptam rituais islâmicos, médicos tradicionais a declamarem textos do Al Corão e os católicos a visitarem mesquitas aos domingos, deixam de ser pecados originais e passam repetidamente pela Cotton Tree (árvore de algodão).

Parece que deste lado do mundo a religião é mesmo um ponto de união, quase como se aqui se concretizasse a sua origem do latim “Religar”. A cidade tem mais de 1 milhão de habitantes e seria pouco criativo todos terem as mesmas crenças. Se assim fosse não haveriam artistas, cientistas, mágicos ou até filósofos.

Nos dias que correm, é comum ver religiões a tornarem-se em instituições de opressão, desunião e extremismo (como testemunhamos o terrorismo ou a simples culpa cristã). Talvez seja isto que leva a maioria das pessoas a distanciarem-se da sua espiritualidade. Mas qual será o impacto disto nas futuras gerações?

Se antigamente falar de religião no contexto da saúde mental era considerado “de doidos”, hoje já há quem defenda que a espiritualidade é um excelente antidepressivo, tal como dormir. E foi por isto que decidi investigar a importância desta dimensão no desenvolvimento emocional dos mais pequenos e a incluí nas entrevistas que faço por aí.

“Deus come muitos hambúrgueres e tem caracóis. Nunca falei com ele.” Respondeu-me o Vicente de 7 anos, em Lisboa. O João, de 5 anos, desabafou que já tinha falado com ele, mas não podia dizer a ninguém, porque a mãe não acredita. “Sim, Deus já me respondeu. Ele responde sempre que os pedidos são muito bons”, disseram tanto a Carminho, lisboeta de 4 anos, como a Alexia, em Freetown, de 8 anos. “Ele manda-nos para o mundo, para vivermos muito e depois, quando estamos cansados, ele leva-nos para o céu outra vez” disse-me a Mimi, de apenas 4 anos em Freetown. Mas foi o John (disse que o podia tratar assim) de apenas 6 anos, filho dos gangsters de Frewtown, nascido e crescido na rua, que mais me emocionou com a sua resposta: “Nós vimos ao mundo para sofrer. Se ele gostar de nós, leva-nos…”

Quando falamos destes temas, parece que nem sempre nos lembramos do óbvio: Distinguir religião de espiritualidade. A espiritualidade envolve a crença numa força maior (normalmente chamada de Deus) que controla o Universo e o une às pessoas definindo o seu destino, e por isto dando-lhe um sentido de propósito e de conexão com o todo. A religião é a operacionalização da espiritualidade, composta por estas crenças, mais rituais e muitos mitos.

Os estudos indicam que ter espiritualidade previne em 80% a instalação de depressões ou mal estar psicológico. As crianças, futuros adultos, com uma espiritualidade desenvolvida, para além de um sentido de propósito mais apurado, têm um sentido de pertença e esperança mais fortes, tal como menor angustia em termos existenciais: “eu pertenço ao mundo, que pertence a um universo e portanto há coisas que estão fora do meu controlo”.

Não sou da opinião de que todos tenhamos que optar por uma religião, defendo sim, que é fundamental os adultos introduzirem a reflexão sobre a espiritualidade no dia a dia das crianças.

Temas como a existência, a vida depois da morte, a razão e mistérios da vida, são questões que fazem parte da nossa existência e para além de surgirem quando ainda crianças, muitas vezes trazem angústia. É fundamental que estes temas deixem de ser tabus. Que se crie um espaço para a criança pensar sobre questões existênciais sem que isso seja fonte de desconforto e encontre as suas prórias respostas, praticando semanalmente a generosidade, o amor, a tolerância, o respeito ou a esperança como sendo a sua religião.

Quem sabe em alguns anos, consigamos seguir os passos dos americanos e criar os “Cafés da Morte” – grupos que se juntam para falar da morte.

Ora, aqui ficam algumas dicas de como pode estimular a espiritualidade lá por casa:

1. Admitir que não sabe tudo: As crianças sentem quando não estamos certos ou estamos a mentir e isso traz-lhes confusão. É sempre mais seguro admitir que não sabe, que não tem a certeza quando se tratam de temas relacionados com a existência, com o sentido da vida ou da morte. Um exemplo comum é quando morre alguém na família e a criança pergunta o que acontece depois, uma resposta possível é: “Não tenho a certeza, a vida está cheia de mistérios. Umas pessoas acreditam em X – explicar uma teoria – e outras em Y – explicar outra teoria – e tu? o que achas que acontece?” Com esta abordagem, dá informação à criança e espaço para que aprenda a criar suas teorias sobre o tema.

2. Introduzir rituais que promovam a gratidão e reflexão, que celebrem momentos celebráveis, que marquem momentos importantes: Não posso deixar de partilhar o que descobri em casa da Maria e Kiko (um jovem casal Português). Antes de dormir os miúdos sentam-se em círculo e agradecem o que de melhor se passou com eles naquele dia, definem a intenção para o dia seguinte. A mais nova, de apenas 3 anos, é uma gulosa, e costuma agradecer o “melhor jantar do mundo”. Já o mais velho, agradece sempre “coisas que gostou que tivessem acontecido durante o dia”.

3. Criar um conjunto de valores familiares: Mesmo com 4 anos as crianças entendem valores como “Cá em casa acreditamos em generosidade”, “Cá em casa somos honestos”, “Cá em casa ajudamos quem mais precisa de ajuda” ou “cá em casa tratamos os outros, como gostaríamos de que nos tratassem”. Este tipo de valores leva a criança a praticar a sua formação de carácter e a sentir que pertence a um grupo.

4. Criar um momento de “Pausa” na semana: Pode começar por explicar que uma das coisas que a religião trouxe de positivo aos longos dos séculos, foi o facto de se tirar um momento para se pensar em questões divinas, existênciais e em nós. Pode fazer como a Inês e João, um casal Português que tem o dia sem electrónica, onde tudo o que seja eléctrico é tirado das fichas e dá lugar a jogos em família, jantares a luz das velas ou ir dormir mais cedo. Praticar Yoga ou mindfulness em família é outra das opções.

Boas práticas esprituais e até á próxima crónica, esta já será escrita do Japão.

As mulheres choram por causa dos homens e os homens normalmente choram por causa de mulheres

Segunda Crónica do blogue da Revista Visão

Bureh é um lugar especial. Não só porque sobreviveu ao ébola, “que nunca cá entrou” e à guerra civil “os guerreiros tinham medo de ficar encurralados”, mas também, porque é uma das praias mais bonitas do país.

A ondulação irreverente, o areal entrecortado pelo rio e as enormes montanhas verdejantes dão-lhe um glamour natural.

As pessoas que cá vivem também são incomuns. O Bongue por ter finalmente começado a pagar as prestações do primeiro sistema solar na casa de madeira; a Kiki que tanto se dedicou a realizar o seu sonho e hoje é a primeira mulher surfista do país; a Francesa dona da homestay, que veio como turista há mais de 10 anos e nunca mais conseguiu saír; e o Powerman, que foi aprendendo yoga com os turistas que passavam até conseguir tirar o curso e afirmar até hoje que “muitos dos problemas sociais das novas gerações, como o meu filho, poderiam acabar se praticassem yoga”.

O surf e a pesca são as actividades principais. E por isso, para além do tradutor, o biquíni e uns mergulhos no mar parecem-me ser essenciais para cumprir o que me proponho (É importante haver uma integração cultural, ou não?).

Bureh tem o primeiro e único surf camp comunitário do país. Hoje é dinamizado por uma dezena de jovens Serra Leoneses, como o John ou a Kiki, que tentam inspirar a criançada da comunidade através do surf.

Desconfiei que falar de emoções num lugar como este, sem falar de ondas, não iria provavelmente acontecer. E confirmou-se quando o irmão mais novo da família Maray (de 5 anos) me respondeu assertivamente “Os adultos choram porque não há ondas!”

Esta é uma das perguntas que faço pelos quatro cantos do mundo “Porque será que os adultos choram?” e que remete automaticamente para a capacidade de empatia. Parece simples, mas perguntar-nos o que será que sentem as pessoas nas diferentes situações, permite-nos ginasticar a perspetiva sobre nós, os outros e o mundo. Particar empatia.

Em Lisboa, o Rafael de 5 anos, respondeu-me perguntando “Eles choram?! Não sabia…”

“Se calhar é porque estão tristes…e nesse caso o melhor a fazer é mesmo chorar”, acrescentou o mais velho dos irmãos Maray (com 8 anos).

A Mia disse-me, após uns momentos de reflexão “é porque são humanos…também sofrem”.
Já o Diogo, o Pedro (Lisboetas de 8 anos) e a Tendza (de Bureh, com 7 anos) estavam certos de que era por terem problemas no amor, ora “as mulheres choram por causa dos homens e os homens normalmente choram por causa de mulheres”. Mas a Tendza ficou dividida e acrescentou “também pode ser por causa dos amigos…é isso. Quando eles lhes fazem alguma coisa má”. A Maria Mackabala, também me surpreendeu com a sua perspicácia de 8 anos. Ela declarou que os adultos choram “porque quando crescem as pessoas deixam de ter outras pessoas para os encorajar, para os apoiar e acompanhar nos momentos difíceis”. Para isto Mackabala dizia-me que era fundamental “aproximarmo-nos de quem está triste e ficar junto. Encorajar essa pessoa até que passe”.

A empatia é a competência que está na base das relações. É a capacidade de me colocar no lugar do outro, de entender o que sente em determinada situação. É, portanto, uma competência essencial para relações saudáveis, mais harmoniosas e acima de tudo, mais humanas. Está na base do altruísmo, da generosidade e de tomadas de decisão socialmente responsáveis.

Uma sociedade sem empatia, é uma sociedade desumana, como acontece com o terrorismo, ilhada a nível social e anémica emocionalmente. Não acredito que Portugal se inclua nesta definição, mas de acordo com o relatório da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento) somos o terceiro país do mundo onde se consomem mais antidepressivos. O que me preocupa é que estes números revelam que grande maioria dos adultos encarregues pela educação das futuras gerações de Portugal, sofre ou já sofreu, de uma tristeza profunda e prolongada no tempo, de depressão.

O que caracteriza alguém que passa por uma fase destas, para além da tristeza, é sua dificuldade em ter perspectiva “Isto nunca vai mudar” e ter um olhar sobre o mundo como “um lugar perigoso” onde os outros representam uma ameaça. Esta combinação dificulta a prática de nos colocarmos no lugar do outro, de altruísmo ou generosidade.

Ora uma criança que cresce com este adulto deprimido, tenderá a não receber as bases de empatia, poderá tornar-se naquele líder egoísta, na mulher fria ou emocionalmente instável, na pessoa inexpressiva ou conflituosa nos seus relacionamentos, ou no marido egoísta que toma decisões sem nunca equacionar o impacto que terá na sua família. As boas notícias é que tratando-se de uma competência, com ou sem depressão, com ou sem ondas, a podemos praticar. Seja em nós adultos ou na educação dos nosso filhos.

Por isso aqui ficam algumas ideias.
Dica para ser um cuidador mais empático quando o seu filho faz algo de errado:

Antes de o castigar, siga a regra das 3 perguntas:

1. Porque será que o meu filho agiu assim? Permite que se coloque no lugar dele, e reaja tendo em conta o que este está a viver. Praticará tambem a sua capacidade de empatia e ficará mais facil para a criança aprender com o seu exemplo.

2. Que lição lhe quer transmitir? Ajuda a delimitar o objetivo que pretendemos. Já que às vezes é comum ouvir “ele fez mal, fica de castigo” sem haver um moral da história.

3. Qual a melhor forma de o transmitir? Ajuda a que se identifiquem quais as melhores ações/castigos/métodos…

Uma receita para brincar à empatia:
Diga (ou faça cartões com) as seguintes situações (pode ir mudando conforme se sentir mais criativo/a ou até mesmo ajustar as situações à realidade aí em casa):

“Ele deixou cair o Gelado”, “A festa de anos dela é hoje”, “ela tem que ficar de cama uns dias”, “caiu da bicicleta e partiu-a”, “Está há 3 horas no carro”; “mais uma vez gozaram com ele na escola”, “A professora já o avisou para parar com a brincadeira”, “O primo deu-lhe um brinquedo novo, mas o melhor é sempre para o irmão”, “Ele queria mesmo era ir ter com o Pai”, “O cão vai ter que ser operado novamente”, “O cão dele morreu”, “ele vai ter uma ficha amanhã”, “ele vai ter que pedir ajuda a um desconhecido”, “Tem que estar à espera de alguém para o vir buscar”, “ele nunca recebe os presentes que quer”, “ela fez um desenho lindo”.

Diga (ou faça) uma lista de emoções. Por exemplo:
Desapontado, excitado, feliz, triste, ciumento, zangado, com vergonha, confuso, orgulhoso, preocupado, grato, frustrado, com medo
A ideia é que diga as situações à criança e que perante cada situação ela diga o que acha que o personagem daquela situação está a sentir.
Pode ir mudando as situações ou ajustá-las à realidade do seu filho/a. Se lá em casa gostarem de artes plásticas, também podem escolher imagens de revistas que ilustrem as situações á medida que vão pensando no que sente a personagem.

 

Kids@Bureh: Dicas de Empatia_Homens choram por causa de mulheres e mulheres por causa de homens

Mais uma Crónica do Blogue da Revista Visão

Homens choram por causa de mulheres e mulheres choram por causa de homens

Bureh é um lugar especial. Não só porque sobreviveu ao ébola, “que nunca cá entrou” e à guerra civil “os guerreiros tinham medo de ficar encurralados”, mas também, porque é uma das praias mais bonitas do país.

A ondulação irreverente, o areal entrecortado pelo rio e as enormes montanhas verdejantes dão-lhe um glamour natural.

As pessoas que cá vivem também são incomuns. O Bongue por ter finalmente começado a pagar as prestações do primeiro sistema solar na casa de madeira; a Kiki que tanto se dedicou a realizar o seu sonho e hoje é a primeira mulher surfista do país; a Francesa dona da homestay, que veio como turista há mais de 10 anos e nunca mais conseguiu saír; e o Powerman, que foi aprendendo yoga com os turistas que passavam até conseguir tirar o curso e afirmar até hoje que “muitos dos problemas sociais das novas gerações, como o meu filho, poderiam acabar se praticassem yoga”.

O surf e a pesca são as atividades principais. E por isso, para além do tradutor, o biquíni e uns mergulhos no mar parecem-me ser essenciais para cumprir o que me proponho (É importante haver uma integração cultural, ou não?).

Bureh tem o primeiro e único surf camp comunitário do país. Hoje é dinamizado por uma dezena de jovens Serra Leoneses, como o John ou a Kiki, que tentam inspirar a criançada da comunidade através do surf.

Desconfiei que falar de emoções num lugar como este, sem falar de ondas, não iria provavelmente acontecer. E confirmou-se quando o irmão mais novo da família Maray (de 5 anos) me respondeu assertivamente “Os adultos choram porque não há ondas!”

Esta é uma das perguntas que faço pelos quatro cantos do mundo “Porque será que os adultos choram?” e que remete automaticamente para a capacidade de empatia. Parece simples, mas perguntar-nos o que será que sentem as pessoas nas diferentes situações, permite-nos ginasticar a perspetiva sobre nós, os outros e o mundo. Particar empatia.

Em Lisboa o Rafael de 5 anos, respondeu-me perguntando “Eles choram?!Não sabia…”

“Se calhar é porque estão tristes…e nesse caso o melhor a fazer é mesmo chorar” acrescentou o mais velho dos irmãos Maray (com 8 anos).

A Mia disse-me, após uns momentos de reflexão “é porque são humanos…também sofrem”. Já o Diogo, o Pedro (Lisboetas de 8 anos) e a Tendza (de Bureh, com 7 anos) estavam certos de que era por terem problemas no amor, ora “as mulheres choram por causa dos homens e os homens normalmente choram por causa de mulheres”. Mas a Tendza ficou dividida e acrescentou “também pode ser por causa dos amigos…é isso. Quando eles lhes fazem alguma coisa má”.

A Maria Mackabala, também me surpreendeu com a sua perspicácia de 8 anos. Ela declarou que os adultos choram “porque quando crescem as pessoas deixam de ter outras pessoas para os encorajar, para os apoiar e acompanhar nos momentos difíceis”. Para isto Mackabala dizia-me que era fundamental “aproximarmo-nos de quem está triste e ficar junto. Encorajar essa pessoa até que passe”.

A empatia é a competência que está na base das relações. É a capacidade de me colocar no lugar do outro, de entender o que sente em determinada situação. É, portanto, uma competência essencial para relações saudáveis, mais harmoniosas e acima de tudo, mais humanas. Está na base do altruísmo, da generosidade e de tomadas de decisão socialmente responsáveis.

Uma sociedade sem empatia, é uma sociedade desumana, como acontece com o terrorismo, ilhada a nível social e anémica emocionalmente. Não acredito que Portugal se inclua nesta definição, mas de acordo com o relatório da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento) somos o terceiro país do mundo onde se consomem mais antidepressivos. O que me preocupa é que estes números revelam que grande maioria dos adultos encarregues pela educação das futuras gerações de Portugal, sofre ou já sofreu, de uma tristeza profunda e prolongada no tempo, de depressão.

O que caracteriza alguém que passa por uma fase destas, para além da tristeza, é sua dificuldade em ter perspetiva “Isto nunca vai mudar” e ter um olhar sobre o mundo como “um lugar perigoso” onde os outros representam uma ameaça. Esta combinação dificulta a prática de nos colocarmos no lugar do outro, de altruísmo ou generosidade.

Ora uma criança que cresce com este adulto deprimido, tenderá a não receber as bases de empatia, poderá tornar-se naquele líder egoísta, na mulher fria ou emocionalmente instável, na pessoa inexpressiva ou conflituosa nos seus relacionamentos, ou no marido egoísta que toma decisões sem nunca equacionar o impacto que terá na sua família. As boas notícias é que tratando-se de uma competência, com ou sem depressão, com ou sem ondas, a podemos praticar. Seja em nós adultos ou na educação dos nosso filhos.

Por isso aqui ficam algumas ideias.

Dica para ser um cuidador mais empático quando o seu filho faz algo de errado:

Antes de o castigar, siga a regra das 3 perguntas:

1. Porque será que o meu filho agiu assim? Permite que se coloque no lugar dele, e reaja tendo em conta o que este está a viver. Praticará também a sua capacidade de empatia e ficará mais fácil para a criança aprender com o seu exemplo.

2. Que lição lhe quer transmitir? Ajuda a delimitar o objetivo que pretendemos. Já que ás vezes é comum ouvir “ele fez mal, fica de castigo” sem haver um moral da história.

3. Qual a melhor forma de o transmitir? Ajuda a que se identifiquem quais as melhores ações/castigos/métodos…

Uma Receita para brincar à empatia:

Diga (ou faça cartões com) as seguintes situações (pode ir mudando conforme se sentir mais criativo/a ou até mesmo ajustar as situações à realidade aí em casa): “Ele deixou cair o Gelado”, “A festa de anos dela é hoje”, “ela tem que ficar de cama uns dias”, “caiu da bicicleta e partiu-a”, “Está há 3 horas no carro”; “mais uma vez gozaram com ele na escola”, “A professora já o avisou para parar com a brincadeira”, “O primo deu-lhe um brinquedo novo, mas o melhor é sempre para o irmão”, “Ele queria mesmo era ir ter com o Pai”, “O cão vai ter que ser operado novamente”, “O cão dele morreu”, “ele vai ter uma ficha amanhã”, “ele vai ter que pedir ajuda a um desconhecido”, “Tem que estar à espera de alguém para o vir buscar”, “ele nunca recebe os presentes que quer”, “ela fez um desenho lindo”.

Diga (ou faça) uma lista de emoções. Por exemplo: Desapontado, excitado, feliz, triste, ciumento, zangado, com vergonha, confuso, orgulhoso, preocupado, grato, frustrado, com medo A ideia é que diga as situações à criança e que perante cada situação ela diga o que acha que o personagem daquela situação está a sentir. Pode ir mudando as situações ou ajustá-las à realidade do seu filho/a. Se lá em casa gostarem de artes plásticas, também podem escolher imagens de revistas que ilustrem as situações á medida que vão pensando no que sente a personagem.

Para apoiar este projeto:

Neste momento rumo ao Japão, preciso chegar a crianças japonesas dos 5 aos 10 anos. Todos os contactos são bem vindos

Procuro um parceiro para a filmagem dos vídeos finais

Apoio em milhas para os bilhetes das viagens

Algum material de Som e vídeo

 

Kids@Serra Leoa: Emoções para que te quero na educação lá em casa

O Primeiro Artigo do Blogue da Visão:

É oficial, aterrei na Serra Leoa para dar início a mais um projecto: Criar um Kit de SOS das emoções para pais, com a ajuda de crianças (dos 4 cantos do Mundo). A ideia é dar a volta ao mundo das emoções das crianças de modo a compilar o que sentem sobre as preocupações dos adultos e o que lhes recomendariam como soluções. E só depois, partilhar algumas dicas do que podemos fazer para que a linguagem emocional seja progressivamente introduzida na educação das futuras gerações. Se nos preocupamos em ensinar as crianças a lavar os dentes, a não falarem com estranhos ou a dizerem “obrigado”, porque não lhes ensinamos desde cedo a lidar com a frustração, a fazer escolhas socialmente mais responsáveis, a pedir ajuda quando têm medo, a pedir desculpa quando magoam o outro?

A Serra Leoa é um país muito resiliente, foi obrigado a reinventar-se ao longo de várias décadas. Primeiro com a guerra civil (entre 1991 e 2002), que resultou na morte de mais de 50 mil pessoas e muitos milhares de refugiados num país com 7 milhões de pessoas. E depois, entre 2013 e 2015, o ébola.

Em 1462, Pedro da Sintra, navegador português, chegou ao país e deu-lhe o nome de Serra Leoa. Quer dizer, alguns rumores dizem que o nome “Serra Leoa” se deve ao facto deste território, quando avistado do mar, ter muitas serras e, além disso, o trovejar na época das chuvas se assemelhar ao rugido de uma leoa. Aqui são conhecidos cerca de 16 grupos étnicos, cada um fala o seu dialecto. E embora a língua oficial seja o inglês (língua em que se lecciona também todo o currículo escolar), o Krio é o que mais se ouve nas ruas do centro e sul do país. O Krio deriva do inglês, mas dá-me um enorme prazer ouvir as expressões “Pikin” (pequenos) ou “No Sabi” (não sei), pois aproxima-me a casa.

Uma das minhas prioridades ao aterrar é garantir que tenho condições para começar o projecto: um tradutor e crianças com diferentes características. Neste momento já tenho filhos de gangsters em Freetown (na capital), crianças surfistas (em Bureh Beach, e crianças das zonas das minas de ouro (em Kabala – uma das zonas mais remotas do país).

Aqui, independente da região, idade ou estado civil, a primeira pergunta que é feita é “How Di Bodi?” (Como está o corpo?, em krio) como forma de cumprimentar quem chega. Adorei esta pergunta, não só porque de facto, se não nos sentimos bem fisicamente, tudo o resto fica afectado, mas também pelas respostas que ela origina: “under my clothes“ (de baixo da minha roupa) “bodi fine” (corpo bom) ”bodi sick…bodi fine..this is Africa” (corpo doente…corpo bom…isto é África).

As entrevistas seguem sempre o mesmo guião e a primeira pergunta que faço é se a criança sabe o que são emoções. Foi com esta pergunta que Maray, de 10 anos (residente em Kabala). me surpreendeu.

Maray começou por responder que sabia “mais ou menos” o que eram as emoções. Mas depois da brincadeira que faço inicialmente, rapidamente me disse que já tinha entendido. Disse que devia ser o que sentia no peito naquele momento. Contou-me que se estava a esforçar para deixar que as inquietudes passassem, pois preparava-se para o ritual de iniciação de entrada na vida adulta.

Trata-se de 2 semanas com várias danças, práticas e muitas outras mulheres, que culmina com um encontro com uma circuncisadora tradicional, uma mulher mais experiente, que lhes fará, uma a uma, mutilação genital feminina – MGF. A MGF é a remoção de parte ou de todos os órgãos sexuais externos femininos – os lábios vaginais, o clitóris. Geralmente é feita com uma lâmina de corte, com ou sem anestesia. Os registos de mortes oriundas desta prática continuam a ser muito elevados, claro.

Na UE, os registos mostram que 500 mil mulheres são vítimas ou estão em risco desta prática. E nós por cá não somos excepção, temos cerca de 8 mil mulheres nestas condições. Oito mil é também o número diário de meninas que correm este risco, o que significa, leiam bem, pelo menos 300 mil raparigas por ano. Mesmo que me obrigue a retirar os óculos ocidentais quando mudo de país, foi impossível não pensar na definição da Organização Mundial de Saúde: “É uma violação de direitos humanos de meninas e mulheres, é uma violência extrema de discriminação e violência com base no sexo”.

Por isso, lhe pergunto se conhece as consequências desta prática, da infertilidade, da impossibilidade de ter prazer sexual para o resto da sua vida e até do risco de vida que corre. Se não tem medo. E foi neste momento que ela me respondeu “Bodi fine. This is my culture…this is Africa…stay quiet because this will pass” (Corpo está bom, esta é a minha cultura… isto é África. Manter calma, porque isto vai passar). Simultaneamente explicava-me que este ritual cumprirá os mitos em que esta prática assenta, como o aumento da fertilidade ou a fidelidade da mulher.

Preocupada com o facto de ainda hoje presenciar-mos realidades destas, Maray também me alertou para a urgência de cumprirmos a nossa responsabilidade perante as futuras gerações: ensiná-los a identificar situações que os podem pôr em risco, a tomar decisões pessoal e socialmente mais responsáveis, dar-lhes ferramentas para que consigam pedir ajuda e regular as suas emoções em prol de mais bem-estar. E isto, para mim, centra-se na educação emocional.

Relembrei com esta conversa que as emoções são mutáveis (o mesmo não posso dizer de uma MGF, que deixará marcas e consequências a vários níveis para o resto da vida de uma mulher. Acredito que esta conversa foi o motor de arranque para os artigos que vou publicar ao longo dos próximos meses.

Verifiquei que em ambos os lugares. Portugal e Serra Leoa, os adultos assumem erradamente que as crianças são menos capazes de entender a complexidade do mundo, mesmo que elas tenham que se adaptar, reagir e desenvolver ideias com a mesma rapidez que o seu cérebro se desenvolve e tudo isto com base na sua experiência emocional diária.

Também vi, que tanto os pais de Maray, como os pais portugueses, raramente dedicam tempo a introduzir a educação emocional nas suas dinâmicas familiares. O que a maioria dos cuidadores desconhecem é que introduzir as emoções na educação das crianças traz outra dimensão à parentalidade. O cuidador deixa de ser “alguém inatingível” e passa a Ser Humano, alguém que comete erros e os reconhece (pedindo desculpa por exemplo, em vez de disfarçar ou ignorar), alguém que valoriza o Ser e não o Fazer (os resultados) que ajuda os seus filhos a serem seres racionais e emocionais, com opinião, com capacidade de dizer “eu não posso aceitar isto”, “eu devo lutar por aquilo”, “eu escolho isto e não aquilo”

Pois bem, e como não nascemos ensinados, nem vimos com manual de instruções, aqui ficam algumas dicas que podem ajudar a introduzir as emoções na educação lá de casa:

1. “Dar um nome”: A maior frustração das crianças é sentirem que o adulto não os entende, “devem sempre fazer tudo, sem que a sua opinião seja tida em conta” por esta razão, é benéfico transmitir a sensação à criança de que entendemos as suas frustrações, as suas reacções, as suas sensações. E uma das formas de o fazer, sem grande margem de erro, é verbalizar o que se está a passar, repetir simplesmente o que a criança está a fazer, acrescentando uma razão lógica para o que deve fazer. Por exemplo, birra porque não quer pôr o casaco: “eu sei que não gostas de pôr o casaco, mas está frio e podes ficar doente”, “Imagino que seja frustrante quando não queres fazer uma coisa que te pedem, mas é importante porque….”. Outro exemplo: a birra porque não quer jantar “sei que não gostas que te obriguem a comer isto, mas tens que comer para crescer…”

2. Reconhecer o que se está a passar, em vez de ignorar. Frequentemente em consultório tenho pacientes em fases mais frágeis das suas vidas, preocupados com o facto de os seus filhos os verem a chorar, tendendo a esconder o que se passa. As crianças são muito sensiveis e é importante reforçar esta expressão, por isso, neste casos, é aconselhável que o adulto explique o que se passa “que está triste, frustrado…” em vez de ignorar.

Para Apoiar este projeto e próximo país – Japão em Julho 2017 – pode fazê-lo através do email Maria.palha@gmail.com