Brincar de esconde-esconde ou de Carnaval: Será que ainda sabemos Brincar?!

O relógio ainda não marcava as 8 horas da manhã e já estávamos prontos para sair. Tínhamos decidido “Brincar de Carnaval” em família por isso bastou-nos tirar a cola quente, as porpurinas e um toque de sensualidade do armário para cumprirmos o que se propusemos. Era o primeiro carnaval da

Madá. Os seus tenros 2 anos e picos, não lhe tinham dado tempo para vir antes. Queríamos que sentisse o som da bateria de perto e experimentasse um “Sambinha no pé”. Por isto seguimos (mascarados de igual, à “wally”) para o largo do machado, para um bloco de rua o “Largo do Machado, mas Não Largo do Copo”.

Juntamo-nos a muitas outras famílias, algumas com 4 gerações presentes, a avó, a filha e o neto, e quase todas competiam connosco, pois, estavam de “Super-Heróis” ou de família dos Flinstones. Juntos pela brincadeira, pelo escárnio do que fazemos como adultos, políticos ou como espécie, passamos uma semana a dançar, rir e brincar, numa das festas mais loucas do planeta, no carnaval do Rio do janeiro.

Decidi que o Brasil devia contribuir para o Kit de Saúde Emocional, por se tratar de um país com formas de expressão que ultrapassam a palavra. Um povo que consegue promover relações sociais e de amizade, que através do Samba usa o humor, dança e criatividade para lidar com o trágico. Foi assim cheguei ao cerne da questão, a brincadeira e a sua importância para a saúde emocional da Família. O carnaval oficial dura uma semana, mas as preparações começam meses antes do evento. É muito mais do que os desfiles das escolas de samba no sambódromo da Sapucaí.

Na verdade, o lado mais divertido do carnaval está nas ruas que, se enchem de pessoas a dançar e bincar de bloco em bloco. Os blocos são bandas independentes que tocam pelas ruas, desfilando fantasias coloridas a ritmos diferentes. Há ritmos para todos os gostos e idades, até para quem não gosta de samba, o bloco do Sargento Pimenta só toca música dos Beatles, por exemplo. O Cordão da Bola Preta é um dos maiores blocos e junta aproximadamente um milhão de pessoas todos os anos, este ano fez completou 100 anos e talvez por isto, tenha tocado mais de 7 horas seguidas.

Os blocos secretos não entram na programação oficial e exigem acima de tudo humor, muita brincadeira, pelos nomes engraçados e para conseguir responder aos comentários de duplo sentido. “A Nega Indoidô; Apertado MasEntra; O bafo da Onça; Deita, mas não dorme; É pequeno, mas vai crescer!;Melhor ser bêbado, do que ser Corno; Parei de mentir, Não de beber!;Te vejo por dentro…Sou de radiologia!;Me enterra na quarta ou Céu na terra!” São alguns dos nomes de blocos e no nosso caso, estando fantasiados de wally, era quase inevitável não ouvir comentários como “

Poh, você vem de Wally, como quer que alguém te veja? Nunca ninguém descobre o wally!”

A OCDE (Organização para a Cooperação Económica e o Desenvolvimento) e o World Happiness Report lançado recentemente pelas Nações Unidas revelam que o segredo dos pais mais felizes do mundo, começa na infância e passa por deixar as crianças brincarem. De facto, se há lugar do mundo onde brincadeira não tem hora nem idade é no Brasil. Uma das perguntas que faço nas entrevistas do “KIDS” é “o que te deixa mesmo feliz?” e tanto na Serra Leoa, como na Colômbia, Japão, São Tomé e Príncipe e Brasil, as respostas oscilavam entre estar com a família e brincar.

 

Embora a realidade das crianças se altere com o tempo, cultura ou contexto, uma coisa é certa, a brincadeira é sem dúvida uma das formas mais eficazes de aquisição de competências essenciais para viver no mundo do “futuro” e ainda uma das bases da saúde emocional. Parece que estes especialistas de pequeno porte, sabem o que confirmam os estudos, que a brincadeira livre ensina as crianças a serem menos ansiosas, mais resilientes, a lidar melhor com o stress e a desenvolverem a criatividade para darem novas soluções aos problemas, criatividade para gerir mudanças, sem que isso as distancie dos outros e do planeta. Traz portanto, mais saúde emocional e deve ser experiênciada no seio familiar.

 

A ciência já nos mostrou que as crianças preferem ouvir vozes humanas a outros sons. E no estudo sobre Felicidade e Infância realizado pela Immaginarium em Portugal (com uma margem de confiança de 95%), a maioria dos pais Portugueses respondeu que a felicidade das crianças está inteiramente ligada ao tempo passado a brincar com os pais e a explorar o mundo através da brincadeira real.

 

Através da brincadeira a criança tem a possibilidade de oscilar entre o mundo real e imaginário, desenvolver autoanálise e por isso conhecer-se melhor, criar e recriar mais relações com os outros e explorar o mundo. Ganha mais consciência das suas capacidades, das limitações e por isto, é obrigado a gerir a sua frustração.

 

A questão que se coloca em seguida é: E nós, sabemos brincar?! E a resposta é duvidosa.

 

Na maioria das vezes incutimos brincadeiras às crianças com orientação dos adultos, raramente lhes permitimos brincar livremente sozinhos ou com outras crianças. Como se isso representasse uma perda de tempo, e talvez por isso as nossas crianças sejam “entupidas” de atividades extras curriculares, de atividades que estimulam competências X e

Y (importantíssimo, sim), mas não menos importante é a Brincadeira Livre, onde crianças são deixadas simplesmente para brincarem.

 

A melhor forma de Brincar?

 

A brincadeira Livre: Significa simplesmente dar tempo para brincar livremente com amigos. As crianças são deixadas sózinhas ou na companhia de amigos para brincarem como lhes apetecer. Brincar não é o mesmo que praticar um desporto ou participar numa atividade (extra) curricular organizada por um adulto.

 

O terceiro relatório do IKEA propõe que se usem formas diferentes de brincar e sugere que estas se vão alternando com a brincadeira livre:

 

  1. “Brincar para Reparar”: São brincadeiras que promovem a recuperação do stress do dia-a-dia e aumentam o bem-estar das pessoas, como o ioga ou o tai-chi, de contacto com a natureza, jardinagem ou passeio.

 

2.”Brincar para Conectar”: Atividades que levem a família e amigos a estarem ligados sem tecnologia, a passar momentos de qualidade com atividades como, fazer karaoke ou fazer jogos tradicionais (como os de tabuleiro ou as cartas).

 

3.”Brincar para explorar”: Atividades que ajudam a explorar mundos reais ou imaginários, viajar ou brincar ao

“faz-de-conta”.

 

4.”Brincar para Expressar”: Atividades que apostam na criatividade e nas artes, da pintura à música.

 

 

Algumas ideias que podem trazer mais brincadeira às rotinas lá de casa:

 

  1. Definir um tempo de brincadeira: Com as crianças definam um dia da semana para os jogos. Faça um calendário e afixe-o no frigorífico. Rapidamente vai ver que a alegria da criançada e sentir a sua criança interior a rejuvenescer.

 

  1. Começar o dia com uma pequena brincadeira: Dança, pequeno jogo à volta do pequeno-almoço, a vestir…

 

  1. Pratique o dramatismo: As crianças adoram dramatizações, crie personagens novas e encarne-as sempre que possível.

 

  1. Ser Tonto: Quanto mais tonto melhor. Finja que cai, fale à monstro, encarne personagens…

 

  1. Use brincadeiras e humor para lidar com os momentos mais difíceis: Uma luta de almofadas, uma corrida a volta de casa ou uma competição de estátuas pode definitivamente mudar os humores.

 

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