Tolerância Zero ou Tolerância De ponte. Tolerância Divina, mista e até Tolerância alimentar. O Importante é ser Tolerante

 

Saía mais pesada. De coração Cheio. Talvez pelos cânticos do mantra do coração que me acordaram naquela manhã, talvez por ter conseguido finalmente apanhar um escaravelho antes de seguir para Quioto. No último artigo falei da generosidade e partilhei uma atividade que pode ser feita com crianças dos 5 -10anos. Hoje viajo por Quioto e pela importância da tolerância.

Quioto, embora tenha dado nome a um rigoroso protocolo de controlo de gases, é uma cidade bastante descontraída. A sua história exigiu-lhe ser uma cidade, essencialmente tolerante. Tolerante a mudança, a diferenças, a turistas e estilos de vida. Começou por ser a capital do império, mais tarde Tóquio roubou-lhe o lugar. E por isso hoje chamam-lhe “Antiga Capital” e (embora para mim, Quioto tenha mais de futurista do que de antigo) as ruas de Machyas – casas tradicionais anteriores à II guerra mundial – não deixam dúvidas da sua sapiência antiga.

O centro da cidade está ordenado segundo as linhas de Feng Shui, mas as áreas periféricas, não mantém padrão do centro. Como se desde início, Quioto se distinguisse pela sua rebeldia em relação às linhas das cidades que seguiam a tradição. Sem dúvida que ao longo de uma viagem, vivemos mudanças a vários níveis. No Japão, a maior viagem de todas é ao nível de reformulação de preconceitos. E foi através da arte que me confrontei com a tolerância e com os meus preconceitos ocidentais. Foi nas lojas de Manga e Animação de Akiabara ainda em Tókio, como as lojas do Sonic, do Dragon ball ou do Jay World que voltei a sentir aquela adrenalina que só o mundo fantástico nos pode dar. E que deixamos de usar à medida que crescemos. Estas lojas, ao contrário do que se esperaria no Ocidente são, acima de tudo para Adultos. É através das animações de Manga que se vive e consome a literatura Japonesa. Os Livros de Tankôbon ocupam muitas das prateleiras das livrarias, e o Miyazaki não pára de esgotar as salas de cinema, com os seus filmes de Totoro. É com muita cor, fantasia e brincadeira que se fala de assuntos de adultos, e se abordam temas que vão desde a ficção cientifica, a romance que fazem chorar ou até mesmo dilemas éticos, filosofias de vida.

É inevitável comparar a sociedade Japonesa adulta, com a sociedade Portuguesa. Em que momento é que deixamos de ter momento de lazer, humor e flexibilidade (também falo da física), em prole das responsabilidades de gente grande. Como se ser adulto exigisse uma postura corporal séria, pesada, barriguda e sem dúvida “saber tudo sobre tudo”?

A arte levou-me também a pensar ao nível do papel das mulheres, pois, nas ruas de Quioto ainda se veem Gueixas, muitas Gueixas.

E se há coisa que não são, é o equivalente às prostitutas do ocidente, como dizem as más línguas ocidentais. A Gueixa é uma apaixonada por arte: estudante exemplar de arte, canto e dança milenar Japonesa. Identificáveis à distância, pelo seu traje, delicadeza e estatuto, a Gueixa é alguém que conhece muito da cultura do seu país, uma artesã. Muitas vezes os próprios Japoneses recorrem aos seus serviços, por isso mesmo, para conhecer mais das suas raízes culturais.

Ser Gueixa é uam opção de vida que deve ser feita desde cedo, quando a jovem meninda (por volta dos 17 anos) deve decidir integrar a escola das Gueixas, e para isso, deve ter uma conta poupança para as propinas, para pagar os encontros com Gueixas mais velhas, e comprar o primeiro quimono. Para assim se conseguir dedicar à vida de entretenimento. Algumas gueixas chegam a ganhar até 5000euros/aparição. Mas este é apenas mais um caminho de vida. Outro caminho de vida, são as mulheres Japonesas que enveredam pela vida familiar. E ao contrário dos estereótipos ocidentais, a mulher que decide dedicar-se a um projeto de família, não é submissa ou isenta de auto-determinação. De facto, os números mostram que cerca de 64% das mulheres Japonesas trabalham, nem que seja em tempo parcial. A modéstia, primeiro nas conversas com as suas amigas, e a sua autossuficiência são algo muito valorizado nesta cultura. Autossuficiência, porque a mulher “Needy” é vista como um fardo para os outros. A modéstia, pois, a descrição ajudará a ter um melhor sentido de oportunidade na relação com os outros.

A mulher de família é alguém que tem um enorme poder familiar e social. A “koiko mama” – a mãe que é responsável pelo orçamento da família, por garantir que todos estão bem e ainda, que as crianças têm um excelente desempenho na escola. Para alem de que é alguém que deve contribuir para a vida comunitária do seu bairro e por isso, voluntariar-se para tal. Como me disse a Marta, uma amiga Portuguesa, casada com um monge Japonês, “Talvez aqui a grande diferença entre a Dona de Casa japonesa e Dona de Casa Portuguesa” seja o facto de cá, haver um reconhecimento quase oficial e muito grande, quando a mulher faz a escolha de ser uma mulher de família”. Depois há as turistas. Em Quioto, há muitos turistas.

E ao olhar para as ruas de Quioto, apercebo-me da quantidade de mulheres turistas que por cá passam. Sem dúvida, com uma enorme miscelânea de línguas, idades, culturas, famílias, máquinas fotográficas e escolhas de vida. Algumas tirarem licenças sem vencimento para viajar, outras em mudança de trajeto de vida, outras mesmo com filhos para lhes mostrar o “Mundo” e até aquelas que se dedicam a juntar dinheiro para conseguir viajar, nem que seja apenas uma vez por ano.

“Para mim o mais importante, é conseguir ver o mundo; mudar de perspetiva e sentir que há muitas formas de viver, crescer e sentir”, dizia-me a Anne, viajante de 40 anos. Estas realidades são apenas algumas que se cruzam em Quioto. Pessoas que se cruzam diariamente nas ruas da cidade, nos supermercados ou transportes públicos, e que final do dia dormem de consciência tranquila. Pois, se há coisa que a sociedade Japonesa não é, é moralista.

A tolerância é uma atitude fundamental para quem vive em sociedade. Uma pessoa tolerante aceita opinião ou comportamentos diferentes daqueles estabelecidos pelo seu meio social, sem julgamentos ou moralismos. E nós por cá, somos tolerantes? Como sabemos que alguém é diferente de nós? É a Pergunta que faço às crianças de modo a entender o que sentem em relação à tolerância e que dicas de respeito pelo outro nos dão. O Diogo de 8 anos respondeu “é pelo aspeto e se forem gémeos, pela postura”. O Daniel de 5 anos: “porque temos coisas diferentes no corpo…só que eu não percebo muito dessa parte… Depois acrescentou “Mas julgo que podemos, mostrar respeito, fazendo acordos”.

O Miguel de 6 anos, disse que era pelos sabores “Algumas pessoas gostam da outra e essa outra pode gostar ou não gostar da primeira”. Já no Japão, a YeChan de 8 anos, e a ShizukoChande 5 anos, o Yuki de 6 e Caio de 7 anos, não souberam responder a esta pergunta. Apenas a YuChan, de 7 anos, disse-me que devia ser…por exemplo como ela e a sua gémea, a irmã é muito boa em ballet e ela é apenas uma especialista em manejar “chopsticks”.

E só 15 entrevistas depois entendi porque só a Yo tinha conseguido responder “Se me perguntares o que temos de semelhante, é mais fácil, mas se for de diferente…não sei…disse-me ela. O Sohei, um amigo pintor tambem me explicou, o que hoje entendo como a base da tolerância: “se me foco na diferença de quem está á minha frente, tendo a distanciar-me dela, se por outro lado, tento identificar o que temos em comum, em última instância chego à permissa de que somos humanos, com os mesmos medos, a mesma necessidade de ser aceites, sentir segurança, com a mesma vontade de ser feliz ou medo de não conseguir, e por isto, porque somos da mesma especie, vale a pena olha-la de forma única e pôr em prática a minha responsabilidade de a respeitar”.

Segundo o estudo o jornal Público, em 2016 Portugal era o terceiro país da Europa que mais se opunha a acolher imigrantes. Mesmo sabendo que cerca de 1,2 milhões de pessoas procuram proteção na Europa (um número mais alto do que na Segunda Guerra Mundial). Mesmo que a tolerância cultural seja um dos valores da Democracia Portuguesa. Por esta razão, porque acredito que devemos ser mais e mais tolerantes à diferença, menos moralistas em geral, e que a tolerância, empatia e compaixão, são as chaves para acabar com as guerras na geração dos nossos filhos, deixo-vos uma atividade de como a podemos promover lá em casa com os miúdos:

1. Pegando nas revistas ou jornais velhos lá de casa, a criança deve escolher imagens (partes que constituem uma cara, nariz, boca…) para recortar e construir uma cara. Em seguida devem escolher as imagens que mais gostam e usá-las para fazer uma máscara através de colagens numa folha que servirá de porta retratos.

2. Fazer um serão e jantar multi-cultural: Escolha um continente e depois um país, decore a casa com elementos desse país, faça uma comida que o represente e mostre á criança como se brinca (ex. Ásia: monte um TiPi, e ao jantar mostre como se come com pauzinhos, por exemplo). Tambem posso aproveitar para sugerir ao adulto lá de casa tolerar o dia do “hoje comemos como nós quisermos” a refeição é escolhida pelas crianças e comida como elas quiserem (à mão, na mesa sem pratos… – sim, desculpem a bagunça!!)

3. Em família, todos devem identificar as características diferentes de cada um e porque é que cada uma é importante para o grupo.

Link para ler o artigo na revista Visão

Generosidade: O anti-depressivo para a sociedade dos nossos filhos

Ver artigo original na Revista Visão aqui

Aqui não são as linhas de comboio que nos levam aos lugares, mas sim os comboios. Comboios com nome próprio, Nozomi, Hikari ou Shinkansen, cada um com a sua personalidade, com ritmo e música que caracteriza a forma como voam sobre as linhas, e até há aqueles que conseguem rolar sem tocar nos carris, os famosos comboios bala.

Quando me disseram que chegavam a ser tão rápidos quanto a própria sombra eu pensei que era mais um daqueles mitos sobre este país. Mas se há assunto em que tudo o que se diz, não é mito ou exagero, são os comboios, os comboios Japoneses.

Na última crónica do projeto “KIDS” (saibam como se podem envolver n página projetos) falei da importância de estimularmos a consciência social e responsabilidade das nossas crianças. Hoje venho falar sobre generosidade e de como a podemos pôr sobre carris lá em casa.

Decidi vir num comboio shinkanzen para chegar mais depressa a Kannami. Kannami é uma vila com densidade populacional de 585 pessoas/Km2 dedicada à agricultura. O facto de se encontrar meio escondida nas montanhas de Hakone junto às margens do rio Kano dá-lhe uma ruralidade Japonesa muito genuína.

 

As crianças desta vila são especiais, para além de distinguirem auditivamente o nome de cada comboio que se aproxima da estação da aldeia (a mais de 7 km de distância) têm hobbies peculiares: colecionar o sagrado, a vida. Colecionam escaravelhos.

Os escaravelhos também são bichos muito especiais, não só aqui, porque são adorados por todos (e especialmente pelas crianças), mas também noutros lugares. Na história Egípcia por exemplo, são considerados sagrados e, em geral são símbolo de ressurreição, de fertilidade e vida.

Acredito que se em Kannami soubessem que existem cerca de 30 mil espécies de escaravelhos, de várias formas, com cores e feitios diferentes, estas crianças palmilhavam o mundo para as tentar descobrir e junta-las num só sítio da vila. E não o fariam por uma questão de vaidade para as exibir como as suas raridades. Não por lhes quererem dar uma vida diferente do que a natureza lhes definiu, mas sim, porque todo o processo de procura de escaravelhos, de procura de vida e fertilidade, é uma aventura que pode ser divertida e exigente ao mesmo tempo, muito mais eficaz quando partilhada.

Como em muitas outras vilas e cidades Japonesas as crianças têm a responsabilidade de cuidar de si mesmas e de pôr em prática o que já são capazes de fazer, tal como aceitar novos desafios, sem que isso represente uma ameaça. A criança tem a mesma responsabilidade que o adulto, só tem menos autonomia.

Para que a procura de escaravelhos tenha sucesso é importante que o grupo mantenha uma harmonia. Manter esta harmonia significa aprender e viver simultaneamente com a experiência e com o grupo.

1º Preparar a expedição

2º Observar (não só a natureza – as árvores, os bichinhos ou os arrozais, mas também as limitações e sentimentos dos outros elementos do grupo) para que todos tenham condições para contribuir para o bem comum e assim sentir que pertencem à expedição. Esta busca pelo escaravelho, ou direi pela vida, dá-lhes uma nova consciência de grupo, “eu sou tão importante como cada outra criança ou adulto desta equipa”  – as relações atingem uma igualdade interessante. As discórdias e/ou frustrações do grupo servem para entender que as relações com os outros são recíprocas e que todos são importantes. Acima de tudo, que todos são responsáveis pelas suas vidas e pela vida do grupo.

É a assumir esta responsabilidade que Caio, de 6 anos, mesmo quando se zanga com o Yuki por ele não ter apanhado o escaravelho, mais tarde lhe pede desculpa, e o Yuki respeita, prometendo ter mais cuidado com a descoberta do amigo nas próximas expedições. Tal como a Hinna, de 8 anos, ao ver que o Taiyo (com menos 3 anos que ela), se isola do grupo por ser difícil acompanhar o ritmo dos mais velhos, o apoia e partilhando a sua caixinha com o escaravelho azul arroxeado que encontrou. Aos restantes adultos, cabe-lhes a responsabilidade de celebrarem o regresso do grupo e os ajudarem a decidir o que fazer com “a vida”.

E é aqui que a família e a comunidade se juntam na equação. Pois, não há adulto que não festeje a vitória das crianças – o regresso a casa após a descoberta do escaravelho. Como se a missão “descobrir a vida” começasse com a excitação de uma aventura por explorar que envolve a criança, a família e a comunidade num harmonioso círculo, que só está completo quando a generosidade é posta em prática por todos.

No japão “ser Yasashi” – ser generoso – é mais que um conjunto de regras ou princípios. É uma forma de vida. E é dado a todos, independentemente da idade, a responsabilidade e oportunidade para a pôr em prática. Agir generosamente, significa ter a oportunidade de partilhar algo com a comunidade, que consequentemente, retribuirá com inspiração para novas vivências. Por isto, uma das perguntas que faço pelos quartos cantos do mundo é o que podemos fazer para tornar o dia de alguém mais feliz. E enquanto na Serra leoa e em Portugal a criançada me falava em atos como “ajudar quando alguém me pede ajuda; cumprir as regras lá de casa”, “fazer menos birras” ou ajudar o amigo que está triste”. No Japão as respostas vinham com uma pergunta: “onde? Na escola, na comunidade ou na família?” e só depois havia uma sugestão. De facto, desconstruir a generosidade desta forma, facilita a ter mais foco e ação.

Por curiosidade, em Kannami, a maioria das respostas focava o “presentear a minha amiga com o escaravelho”, “levar-te comigo a descobrir escaravelhos”.

Por definição generosidade é: Dar e partilhar acima de qualquer interesse ou utilidade, acrescentar algo ao próximo. Por isto, acredito que e a concretização de algumas das emoções mais importantes na relação com os outros, como a empatia ou a compaixão, seja a generosidade. Vários estudos indicam que a prática de atos generosos contribuem não só para o bem-estar de quem os recebe, mas também, para quem os pratica. Reduzem o stress, melhoram a depressão, previnem o isolamento, trazendo sentido de pertença e melhorando a qualidade das relações. Dão sentido de propósito, e ainda dão perspetiva.

Quando sofremos tendemos a autocentrar-nos, mas os atos generosos exigem a que olhemos para fora, nem que seja para descobrir as necessidades do outro para lhe demonstrar que “o queremos bem”.

Daí que o próprio Dalai Lama sugira que se queremos ser felizes, pratiquemos compaixão e generosidade.

Segundo o Jornal expresso, um estudo internacional de 2016 coloca Portugal em 82º lugar no ranguinha de generosidade. Questiono até se não fará sentido introduzir uma disciplina “generosidade” no currículo escolar obrigatório. Não só funcionaria como um preventivo ao nível de saúde mental (já que contribui níveis mais altos de oxitocina, serotonina e consequentemente produtividade da sociedade), como também para os casos de depressão, funcionando como um anti- depressivo natural.

Como ainda não chegamos aí, porque não introduzi-la como uma prática diária na vida das crianças, tão importante como a higiene oral?

Aqui fica uma ideia de atividade que treina a generosidade e que podem fazer em família lá em casa.

O calendário de atos generosos

Criar um calendário familiar mensal de atos generosos (em conjunto com a criança, claro). Pode fazer em papel. Depois de definidos os atos que cada elemento da família quer/vai fazer, podem desenhar em cada quadricula algo que represente o ato.

O Passo a Passo:

1. Começar por dar uma definição de ato generoso à criança: É um ato ou palavra simples, que não envolve dinheiro que faça o dia de outra pessoa mais feliz.

2. A seleção dos atos, podemos dividi-los por áreas. Podem ser na e com a família, na comunidade ou na escola/trabalho.

3. Idealmente cada elemento escolhe os atos consoante a sua idade. Só há uma regra, que todos têm a responsabilidade de pôr os seus atos em prática. Relembro, que as crianças têm tanta responsabilidade quanto os adultos, têm apenas outro tipo de autonomia.

Aqui fica um exemplo de alguns dias do calendário, com ator generoso. Que deve ser afixado no frigorífico até que o mês acabe:

Bom Setembro e enquanto não começam as aulas dos mais novos, aproveite para começar uma troca de atos generosos no seu Bairro!

Que sociedade queremos para os nossos filhos?

Clicar para ver o artigo original na revista Visão

 

Algumas dicas de como promover a responsabilidade e a consciência social no seu filho – dos 5 aos 10 anos – usando o exemplo japonês

Cheguei a um extremo. Ao Extremo Oriente.

De facto quando mudamos de continente não mudamos só de língua. Mudamos de comida e de forma de comer – aqui come-se cru e não cozinhado e os talheres dão lugar a “pauzinhos” – mudamos a forma como vivemos a estação do ano – aqui chove no verão e usam-se sombrinhas – e até mudamos de mentalidade – mais importante do que aprender a tabuada, as crianças devem aprender a ser cidadãos responsáveis e contribuintes para uma harmonia social. Cheguei ao Japão.

Se na última crónica falei da importância da espiritualidade na educação das crianças, com histórias de Serra Leoa e Portugal, hoje exploro a importância da consciência de responsabilidade para a harmonia social na educação das crianças, a sociedade dos nossos filhos. O Japão tem cerca de 127 milhões de pessoas. Em cada 100 japoneses, 64 têm entre 15 e 65 anos, 23 japoneses têm mais de 65 anos e apenas 13 têm entre os 0 e 14 anos.

Tenho a teoria que somos pouco tolerantes a mistérios e por isso criamos mitos para nos tranquilizar. Em relação ao Japão isto é gritante. Tratando-se de uma cultura tão diferente, especialmente na forma como (inter)agem uns com os outros e com o mundo, ouvi uma série de comentários estranhos quando anunciei que o Japão faria parte do “Kids” (saibam mais e envolvam-se em “projectos” nesta página).

Há medida que cá estou identifico algumas causas para estes mistérios sociais.

O primeiro talvez seja ao nível religioso, os japoneses nascem xintoístas e morrem budistas ( o que a meu ver pode estar na base de uma sociedade tolerante e pouco moralista), depois o facto de ser uma nação em uma ilha, sem fronteiras diretas com outros países. Em seguida o facto de, até à Segunda Guerra Mundial, o país não ter sofrido muitas influências exteriores ou até ao início do século passado a maioria dos japoneses viver em comunidades rurais. As questões geográficas também têm influência com certeza: a maioria do território do país é montanhoso, e por isto as poucas áreas planas são onde as muitas pessoas se juntam para viver, vivendo literalmente, em cima umas outras.

Uma enorme densidade populacional ou pequenas comunidades rurais, não deixam espaço para excentricidades ou caprichos individuais. A harmonia social e a identidade de grupo surgem como uma forma de sobrevivência. Sem a clara noção do impacto que se tem no outro, sem que todos contribuam responsavelmente para o bem-estar do próximo, a com(vivência) no território Japonês seria impossível.

Esta harmonia social e identidade de grupo sente-se de várias formas, mas no crossing de Shibuya em Tóquio (um cruzamento atravessado pelo maior número de pessoas do mundo) vê-se a olhos nus ou direi a sentidos nus?

Vê-se por exemplo, no sentido de oportunidade do japonês, que é marcado em cada interação. Nos diversos aromas (nem demais, nem de menos). Através dos sons (o silêncio na correria ou as músicas harmoniosas enquanto o sinal está verde) nas aparências (indumentárias á base de preto e branco para não destoar e ninguém se sentir mal). Nas paisagens que mais parecem um suave patch work organizado pela mão humana.

Aqui cada um é peça fundamental para a conciliação de ideias e emoções verdadeiras que podem produzir sensações de bem-estar ao grupo. Um por todos e todos por Um “seria o mantra dos japoneses.

Ao contrário do mantra revelado pelo inquérito feito à população portuguesa, da Universidade Católica, em 2014, que mostra que a sociedade portuguesa está cada vez mais “Cada um por si, e salve-se quem puder” ou as revelações feitas no livro escrito pela jornalista Marisa Moura que tenta responder à pergunta “O que é que os portugueses têm na cabeça?” e onde através de vários inquéritos, pensadores e histórias, revela um Portugal com uma enorme InConsciência coletiva, o que significa menos atos civicos, mais individualismo e maior preocupação em chegar mais além, por si e para si. Tal como veio reforçar o Expresso em 2014 através do artigo de Diogo Agostinho.

Como podemos reverter este ciclo?

Ganhando cada vez mais consciência da nossa responsabilidade e no impacto que podemos ter nos outros, nas ações que podemos escolher ter para contribuir para o bem-estar dos que nos rodeiam. E por isto, uma das perguntas que faço às crianças para introduzir a responsabilidade é qual seria a primeira lei que criavam se fossem eleitos o Rei/presidente do mundo.

Em Portugal, o Diogo de 8 anos disse-me “todos deviam andar de skate e apanhar ar”, a Inês de 6 anos, acrescentou “acho que todos deviam proteger a natureza e cuidar das florestas, é dela que vivemos”, e a Shi, japonesa de 9 anos, dizia que todos devíamos nascer especialistas de chopsticks (“pauzinhos”), pois assim não havia discriminação”. O isac de 8 anos defendia “que devíamos cuidar da nossa escola, da nossa comunidade e da nossa família”.

No Japão a responsabilidade e harmonia social são levadas muito a sério, e para isto as crianças, desde cedo, que as praticam. Quando digo cedo, falo do facto de desde os 3 anos que vão sozinhas para a escola, podendo assim ter um contacto direto com a comunidade. Por seu lado, os pais juntam-se a grupos de atividades comunitárias, os Kodomo Kai, e têm como objetivo desenvolver atividades que promovam o bem-estar comunitário, melhorem algumas condições do bairro e ainda ajudem a criança a aprender a ter atos cívicos.

Os kodomo kai (grupos de pais e filhos) têm atividades como recolha de lixo, reciclagem, distribuição de roupas ou até ensinar ao grupo das crianças a agradecer a um estranho que lhe faça uma boa ação. Aos 5 anos as crianças entram para a escola e as expetativas sobre estas, mudam. Eles vão agora, em contexto protegido, aprender a ser bons cidadãos, cidadãos cívicos. E por isto, ao longo do primeiro ciclo, não há matéria escolar nem testes, há sim, uma serie de práticas, cujo o objetivo é ensinar a esta criança, a ser um cidadão civicamente ativo. Alguém consciente de que é responsável por contribuir para a harmonia social da sua escola, na sua comunidade e na sua família. Apenas no 5º ano as crianças começam a sua vida de testes e matérias.

“Afinal de que vale ser um ótimo aluno, se não apanha o seu próprio lixo, se não diz obrigado, se não ajuda um amigo triste?” Perguntava-me a Akiro enquanto me explicava algumas destas coisas.

E como o nosso currículo de primeiro ciclo ainda não segue as linhas japonesas, aqui ficam algumas dicas de como promover a responsabilidade e consciência social no seu filho – entre os 5 e os 10 anos:

Entre os 4 e 5 anos é esperado que as crianças consigam: arrumar a cama, por a roupa na máquina, guardar a roupa, ajudar a pôr a mesa, limpar o pó, regar as plantas, incentivar a pequenos atos generosos em casa, como agradecer, partilhar e ajudar nas tarefas que contribuem para o bem estar de todos.

Entre os 6 e 8 anos é esperado que as crianças consigam: Lavar a loiça, pôr e levantar a mesa, varrer, aspirar, guardar as compras, pendurar a roupa no estendal, voluntariar-se para ajudar na escola.

Entre os 9 e 11 anos: Preparar lanches rápidos, limpar os móveis, ajudar a fazer o jantar, guardar a loiça, fazer a lista de supermercado, ajudar um adulto que precise ajuda

Ao nível emocional:

Entre os 4 e 5 anos a criança vai imitar o que fizer e é importante demonstrar generosidade: Explicando as decisões generosas que vai tomando, por exemplo “comprei duas cópias do livro e vou dar um deles á tua tia, porque ela me disse que também gostava muito”. Agradecer, sorrir, dar passagem, ajudar alguém que esteja a precisar e até, promovendo comportamentos menos egoístas “hoje vamos fazer gelado, o teu amigo joão adora gelado, vamos convida-lo para vir cá comer a sobremesa?”
Elogiar sempre que a criança tem uma demonstração generosa “foste muito generoso em partilhar o brinquedo com o teu irmão”
Ao nível de generosidade na comunidade: a melhor forma de a transmitir e viver, é sem dúvida através de voluntariado. Existem muitos grupos de voluntariado de famílias nas freguesias. Inscrevam-se, passem tempo de qualidade em família e contribuam para o bem-estar da sua comunidade.

Entre os 6 e 8 anos: Nesta fase a criança deve entender que generosidade é mais que partilhar os seus brinquedos.

É durante este período que as crianças começam a desenvolver empatia e a ter a capacidade de se colocar no lugar dos outros, por isto, a exigência em relação à forma como ajudam quem está a precisar de ajuda, como se preocupam como o amigo que está triste pode sem aumentada.

Entre os 9 e 11 anos: A dica para promover a generosidade nestas idades é uma regra de 3 simples:

1 – Faça você mesmo: a criança vai tender a imitar

2 – Fale sobre isso: importante falar sobre atos generosos e debatendo em diversos momentos

3 – Encoraje e dê reforço positivo sempre que haja um ato generoso.

Boas praticas, mas cuidado com extremismos, não deixemos que as nossas crianças se tornem adultos demasiado cedo.

No Japão o sentido de responsabilidade é tão elevado e intrínseco que as pessoas recorrem “ao melhor lugar do mundo para morrer” (uma floresta na base do Mt Fuji onde vão para cometer suicído e assim tomar responsabilidade sobre as suas vidas e deixar de ter impacto negativo na vida dos outros).

Mais amor por favor.

Católicos a visitar mesquitas aos domingo deixa de ser pecado original

Na última crónica falei de empatia e das razões que levavam os homens a chorar. Desta vez venho refletir sobre espiritualidade e porque é que é mais uma dimensão importante na educação dos mais novos.

Artigo da VISÃO, Kids: volta ao mundo das emoções

Freetown, para além do nome que mexe com o meu imaginário, nasceu da libertação de opressões. Foram os escravos negros, libertados por Inglaterra, Canadá e Jamaica que a ocuparam pela primeira vez em 1787. É a capital da Serra Leoa. Quando lá chegamos, não é só o nome e a história que são inspiradores. São as estradas com bancas coloridas que acompanham os “Ss” das colinas da cidade, os vendedores, que se atiram literalmente às janelas dos carros para vender cajus ou as crianças, que aos domingos, mandam nas ruas da cidade e as fecham para jogar futebol.

A Cotton Tree (árvore do algodão), posicionada estrategicamente no centro da cidade, já cá estava na década de 90 e testemunhou muitas coisas. Testemunhou por exemplo, que a religião não entrou na equação durante a guerra. “Todos acreditamos num só deus”. A Cotton Tree também testemunha os gangues que lá se passeiam e que independentemente da cor do seu lenço trocam ideias e os seus cigarros de haxixe. É por lá que passa quase diariamente o presidente do país (homem cristão que se apoia num primeiro-ministro muçulmano).

E por falar em religião, é também ali que se cruzam centenas de frases de ordem religiosa:“God is great” (Deus é bom), “Trust in Alla” (Confia em Alla), “Be gratefull” (Sê Grato), “Gsus Loves You” (Deus ama-te) são alguns dos slogans pintados nas vans (transportes públicos) que lá passam rumo ao seu destino final. Procissões de enterros cristãos que adoptam rituais islâmicos, médicos tradicionais a declamarem textos do Al Corão e os católicos a visitarem mesquitas aos domingos, deixam de ser pecados originais e passam repetidamente pela Cotton Tree (árvore de algodão).

Parece que deste lado do mundo a religião é mesmo um ponto de união, quase como se aqui se concretizasse a sua origem do latim “Religar”. A cidade tem mais de 1 milhão de habitantes e seria pouco criativo todos terem as mesmas crenças. Se assim fosse não haveriam artistas, cientistas, mágicos ou até filósofos.

Nos dias que correm, é comum ver religiões a tornarem-se em instituições de opressão, desunião e extremismo (como testemunhamos o terrorismo ou a simples culpa cristã). Talvez seja isto que leva a maioria das pessoas a distanciarem-se da sua espiritualidade. Mas qual será o impacto disto nas futuras gerações?

Se antigamente falar de religião no contexto da saúde mental era considerado “de doidos”, hoje já há quem defenda que a espiritualidade é um excelente antidepressivo, tal como dormir. E foi por isto que decidi investigar a importância desta dimensão no desenvolvimento emocional dos mais pequenos e a incluí nas entrevistas que faço por aí.

“Deus come muitos hambúrgueres e tem caracóis. Nunca falei com ele.” Respondeu-me o Vicente de 7 anos, em Lisboa. O João, de 5 anos, desabafou que já tinha falado com ele, mas não podia dizer a ninguém, porque a mãe não acredita. “Sim, Deus já me respondeu. Ele responde sempre que os pedidos são muito bons”, disseram tanto a Carminho, lisboeta de 4 anos, como a Alexia, em Freetown, de 8 anos. “Ele manda-nos para o mundo, para vivermos muito e depois, quando estamos cansados, ele leva-nos para o céu outra vez” disse-me a Mimi, de apenas 4 anos em Freetown. Mas foi o John (disse que o podia tratar assim) de apenas 6 anos, filho dos gangsters de Frewtown, nascido e crescido na rua, que mais me emocionou com a sua resposta: “Nós vimos ao mundo para sofrer. Se ele gostar de nós, leva-nos…”

Quando falamos destes temas, parece que nem sempre nos lembramos do óbvio: Distinguir religião de espiritualidade. A espiritualidade envolve a crença numa força maior (normalmente chamada de Deus) que controla o Universo e o une às pessoas definindo o seu destino, e por isto dando-lhe um sentido de propósito e de conexão com o todo. A religião é a operacionalização da espiritualidade, composta por estas crenças, mais rituais e muitos mitos.

Os estudos indicam que ter espiritualidade previne em 80% a instalação de depressões ou mal estar psicológico. As crianças, futuros adultos, com uma espiritualidade desenvolvida, para além de um sentido de propósito mais apurado, têm um sentido de pertença e esperança mais fortes, tal como menor angustia em termos existenciais: “eu pertenço ao mundo, que pertence a um universo e portanto há coisas que estão fora do meu controlo”.

Não sou da opinião de que todos tenhamos que optar por uma religião, defendo sim, que é fundamental os adultos introduzirem a reflexão sobre a espiritualidade no dia a dia das crianças.

Temas como a existência, a vida depois da morte, a razão e mistérios da vida, são questões que fazem parte da nossa existência e para além de surgirem quando ainda crianças, muitas vezes trazem angústia. É fundamental que estes temas deixem de ser tabus. Que se crie um espaço para a criança pensar sobre questões existênciais sem que isso seja fonte de desconforto e encontre as suas prórias respostas, praticando semanalmente a generosidade, o amor, a tolerância, o respeito ou a esperança como sendo a sua religião.

Quem sabe em alguns anos, consigamos seguir os passos dos americanos e criar os “Cafés da Morte” – grupos que se juntam para falar da morte.

Ora, aqui ficam algumas dicas de como pode estimular a espiritualidade lá por casa:

1. Admitir que não sabe tudo: As crianças sentem quando não estamos certos ou estamos a mentir e isso traz-lhes confusão. É sempre mais seguro admitir que não sabe, que não tem a certeza quando se tratam de temas relacionados com a existência, com o sentido da vida ou da morte. Um exemplo comum é quando morre alguém na família e a criança pergunta o que acontece depois, uma resposta possível é: “Não tenho a certeza, a vida está cheia de mistérios. Umas pessoas acreditam em X – explicar uma teoria – e outras em Y – explicar outra teoria – e tu? o que achas que acontece?” Com esta abordagem, dá informação à criança e espaço para que aprenda a criar suas teorias sobre o tema.

2. Introduzir rituais que promovam a gratidão e reflexão, que celebrem momentos celebráveis, que marquem momentos importantes: Não posso deixar de partilhar o que descobri em casa da Maria e Kiko (um jovem casal Português). Antes de dormir os miúdos sentam-se em círculo e agradecem o que de melhor se passou com eles naquele dia, definem a intenção para o dia seguinte. A mais nova, de apenas 3 anos, é uma gulosa, e costuma agradecer o “melhor jantar do mundo”. Já o mais velho, agradece sempre “coisas que gostou que tivessem acontecido durante o dia”.

3. Criar um conjunto de valores familiares: Mesmo com 4 anos as crianças entendem valores como “Cá em casa acreditamos em generosidade”, “Cá em casa somos honestos”, “Cá em casa ajudamos quem mais precisa de ajuda” ou “cá em casa tratamos os outros, como gostaríamos de que nos tratassem”. Este tipo de valores leva a criança a praticar a sua formação de carácter e a sentir que pertence a um grupo.

4. Criar um momento de “Pausa” na semana: Pode começar por explicar que uma das coisas que a religião trouxe de positivo aos longos dos séculos, foi o facto de se tirar um momento para se pensar em questões divinas, existênciais e em nós. Pode fazer como a Inês e João, um casal Português que tem o dia sem electrónica, onde tudo o que seja eléctrico é tirado das fichas e dá lugar a jogos em família, jantares a luz das velas ou ir dormir mais cedo. Praticar Yoga ou mindfulness em família é outra das opções.

Boas práticas esprituais e até á próxima crónica, esta já será escrita do Japão.

As mulheres choram por causa dos homens e os homens normalmente choram por causa de mulheres

Segunda Crónica do blogue da Revista Visão

Bureh é um lugar especial. Não só porque sobreviveu ao ébola, “que nunca cá entrou” e à guerra civil “os guerreiros tinham medo de ficar encurralados”, mas também, porque é uma das praias mais bonitas do país.

A ondulação irreverente, o areal entrecortado pelo rio e as enormes montanhas verdejantes dão-lhe um glamour natural.

As pessoas que cá vivem também são incomuns. O Bongue por ter finalmente começado a pagar as prestações do primeiro sistema solar na casa de madeira; a Kiki que tanto se dedicou a realizar o seu sonho e hoje é a primeira mulher surfista do país; a Francesa dona da homestay, que veio como turista há mais de 10 anos e nunca mais conseguiu saír; e o Powerman, que foi aprendendo yoga com os turistas que passavam até conseguir tirar o curso e afirmar até hoje que “muitos dos problemas sociais das novas gerações, como o meu filho, poderiam acabar se praticassem yoga”.

O surf e a pesca são as actividades principais. E por isso, para além do tradutor, o biquíni e uns mergulhos no mar parecem-me ser essenciais para cumprir o que me proponho (É importante haver uma integração cultural, ou não?).

Bureh tem o primeiro e único surf camp comunitário do país. Hoje é dinamizado por uma dezena de jovens Serra Leoneses, como o John ou a Kiki, que tentam inspirar a criançada da comunidade através do surf.

Desconfiei que falar de emoções num lugar como este, sem falar de ondas, não iria provavelmente acontecer. E confirmou-se quando o irmão mais novo da família Maray (de 5 anos) me respondeu assertivamente “Os adultos choram porque não há ondas!”

Esta é uma das perguntas que faço pelos quatro cantos do mundo “Porque será que os adultos choram?” e que remete automaticamente para a capacidade de empatia. Parece simples, mas perguntar-nos o que será que sentem as pessoas nas diferentes situações, permite-nos ginasticar a perspetiva sobre nós, os outros e o mundo. Particar empatia.

Em Lisboa, o Rafael de 5 anos, respondeu-me perguntando “Eles choram?! Não sabia…”

“Se calhar é porque estão tristes…e nesse caso o melhor a fazer é mesmo chorar”, acrescentou o mais velho dos irmãos Maray (com 8 anos).

A Mia disse-me, após uns momentos de reflexão “é porque são humanos…também sofrem”.
Já o Diogo, o Pedro (Lisboetas de 8 anos) e a Tendza (de Bureh, com 7 anos) estavam certos de que era por terem problemas no amor, ora “as mulheres choram por causa dos homens e os homens normalmente choram por causa de mulheres”. Mas a Tendza ficou dividida e acrescentou “também pode ser por causa dos amigos…é isso. Quando eles lhes fazem alguma coisa má”. A Maria Mackabala, também me surpreendeu com a sua perspicácia de 8 anos. Ela declarou que os adultos choram “porque quando crescem as pessoas deixam de ter outras pessoas para os encorajar, para os apoiar e acompanhar nos momentos difíceis”. Para isto Mackabala dizia-me que era fundamental “aproximarmo-nos de quem está triste e ficar junto. Encorajar essa pessoa até que passe”.

A empatia é a competência que está na base das relações. É a capacidade de me colocar no lugar do outro, de entender o que sente em determinada situação. É, portanto, uma competência essencial para relações saudáveis, mais harmoniosas e acima de tudo, mais humanas. Está na base do altruísmo, da generosidade e de tomadas de decisão socialmente responsáveis.

Uma sociedade sem empatia, é uma sociedade desumana, como acontece com o terrorismo, ilhada a nível social e anémica emocionalmente. Não acredito que Portugal se inclua nesta definição, mas de acordo com o relatório da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento) somos o terceiro país do mundo onde se consomem mais antidepressivos. O que me preocupa é que estes números revelam que grande maioria dos adultos encarregues pela educação das futuras gerações de Portugal, sofre ou já sofreu, de uma tristeza profunda e prolongada no tempo, de depressão.

O que caracteriza alguém que passa por uma fase destas, para além da tristeza, é sua dificuldade em ter perspectiva “Isto nunca vai mudar” e ter um olhar sobre o mundo como “um lugar perigoso” onde os outros representam uma ameaça. Esta combinação dificulta a prática de nos colocarmos no lugar do outro, de altruísmo ou generosidade.

Ora uma criança que cresce com este adulto deprimido, tenderá a não receber as bases de empatia, poderá tornar-se naquele líder egoísta, na mulher fria ou emocionalmente instável, na pessoa inexpressiva ou conflituosa nos seus relacionamentos, ou no marido egoísta que toma decisões sem nunca equacionar o impacto que terá na sua família. As boas notícias é que tratando-se de uma competência, com ou sem depressão, com ou sem ondas, a podemos praticar. Seja em nós adultos ou na educação dos nosso filhos.

Por isso aqui ficam algumas ideias.
Dica para ser um cuidador mais empático quando o seu filho faz algo de errado:

Antes de o castigar, siga a regra das 3 perguntas:

1. Porque será que o meu filho agiu assim? Permite que se coloque no lugar dele, e reaja tendo em conta o que este está a viver. Praticará tambem a sua capacidade de empatia e ficará mais facil para a criança aprender com o seu exemplo.

2. Que lição lhe quer transmitir? Ajuda a delimitar o objetivo que pretendemos. Já que às vezes é comum ouvir “ele fez mal, fica de castigo” sem haver um moral da história.

3. Qual a melhor forma de o transmitir? Ajuda a que se identifiquem quais as melhores ações/castigos/métodos…

Uma receita para brincar à empatia:
Diga (ou faça cartões com) as seguintes situações (pode ir mudando conforme se sentir mais criativo/a ou até mesmo ajustar as situações à realidade aí em casa):

“Ele deixou cair o Gelado”, “A festa de anos dela é hoje”, “ela tem que ficar de cama uns dias”, “caiu da bicicleta e partiu-a”, “Está há 3 horas no carro”; “mais uma vez gozaram com ele na escola”, “A professora já o avisou para parar com a brincadeira”, “O primo deu-lhe um brinquedo novo, mas o melhor é sempre para o irmão”, “Ele queria mesmo era ir ter com o Pai”, “O cão vai ter que ser operado novamente”, “O cão dele morreu”, “ele vai ter uma ficha amanhã”, “ele vai ter que pedir ajuda a um desconhecido”, “Tem que estar à espera de alguém para o vir buscar”, “ele nunca recebe os presentes que quer”, “ela fez um desenho lindo”.

Diga (ou faça) uma lista de emoções. Por exemplo:
Desapontado, excitado, feliz, triste, ciumento, zangado, com vergonha, confuso, orgulhoso, preocupado, grato, frustrado, com medo
A ideia é que diga as situações à criança e que perante cada situação ela diga o que acha que o personagem daquela situação está a sentir.
Pode ir mudando as situações ou ajustá-las à realidade do seu filho/a. Se lá em casa gostarem de artes plásticas, também podem escolher imagens de revistas que ilustrem as situações á medida que vão pensando no que sente a personagem.