E depois do Fogos? Lidar com as perdas desde pequenino

Fiquei desnorteada. Aliás nunca percebi muito bem, porque é que é tão comum dizer-se fiquei sem norte, sempre que alguém se sente perdido. Penso que esta reflexão não começou com o que me aconteceu no sul do Japão, vem sim da altura em que vivi no hemisfério sul, no Brasil. Lá, sentia muitas vezes que esta expressão era meio preconceituosa e desvirtuante em relação ao sul. Porque que apenas o Norte daria sentido às coisas, às nossas vidas? Porque não éramos nós habituados a dizer encontrei o meu Sul?

Enfim, filosofias à parte, eu estava na ilha do Sudeste Japonês, em Kyushu, quando fiquei doente. No último artigo do projeto Kids falei da importância do sonho para a vida das crianças. Já passei pela tolerância, harmonia social e outros temas, e hoje é a vez da perda. Em breve sigo para a Colômbia, onde vou entrevistar até crianças indígenas (saibam todos os detalhes em www.mariapalha.com).

Decidira visitar esta região do sul Japonês à última hora. Sabia que era conhecida pela sua beleza natural, pela qualidade do surf, vulcões ainda ativos, como em Kagushima, e, porque grande parte da história Japonesa começara aqui.

Deuses de Sol Chintoístas, ilhéus povoados por fantasmas, portos de entrada marítima milenares, cidades embutidas em termas, como Beppu e até às maiores cascatas sagradas em Takachi-ho, onde adoeci.

É também o lugar onde se deram guerras sangrentas, como a dos samurais. Desconfio que inconscientemente, esta foi a grande razão que me motivou a visitar o sul. Não podia deixar o Japão, sem encontrar algumas crianças com descendência Samurai.

Tinha acabado de chegar de um retiro Za Zen (onde aprendi a praticar meditação e a seguir os rituais dos monges Japoneses que lá viviam há mais de duas décadas). Antes deixei Beppu, onde a única regra era não deixar a cidade sem saltitar de termas naturais em termas naturais pelo menos durante 2 dias. Por isto sentia-me revigorada para muitas mais entrevistas com crianças.

Takachi-ho era a única vila onde não tinha nenhum contacto e também sabia que seria difícil encontrar pessoas que falassem inglês. Caracterizada por ser um lugar remoto e sagrado, também a sua lenda fazia com que fosse imperdível.

A lenda conta que foi numa das grutas das cascatas desta vila, que a Deusa do Sol, Amaterasu, trouxe luz ao mundo em escuridão. Parece que por lá passou e a partir de lá, iluminou o mundo.

Segundo a lenda, Amaterasu zangou-se com o mau comportamento do seu irmão, e por isso escondeu-se numa gruta (hoje considerada sagrada), levando a luz e deixando o mundo às escuras. Alarmados com o acontecido, os outros Deuses reuniram-se para decidir o que fazer para iluminar tudo de novo. Até que um dos deuses, Ame-no- Uzume, resolveu dançar para Amaterasu, deixando-a rendida e, acima de tudo, curiosa, fazendo com que quisesse saÍr da cave. Neste momento, ela não só saiu, como devolveu a luz ao mundo.

Foi exatamente assim que me senti quando fiquei doente, impossibilitada de mexer-me, numa pousada familiar remota a cerca de 5 kms da pequena vila. Na escuridão, com esperança que algum Ame-no-Uzume pudesse-me ajudar a explicar à responsável da casa (que nada falava de inglês) que eu precisava de um médico.

Três dias depois, sem médico, nem Ame-no- Uzume, apenas com a ajuda da família da pousada, consegui recuperar alguma força para apanhar o famoso Shinkazen de 15 horas, que me levava rumo ao aeroporto de Tókio.

Tenho a crença que na Europa não estamos habituados a ficar muito doentes, e se falamos em perder o norte, normalmente falamos em perder coisas, dinheiro, amigos ou pessoas, e nunca incluímos a doença ou a confiança. Talvez no hemisfério sul, ao falarmos de perdas, surja a doença como uma das coisas mais importantes que se pode perder, não sei.

Se olharmos para Portugal, no recente mês de Outubro, perdemos mais de 50 000 hectares de floresta com os fogos, mais de 108 vitima mortais e centenas de desalojados. Perdemos ainda mais de 80% do Pinhal D´el Rei e só em Tocha tivemos mais de 25 mil euros em prejuízo.

Perante esta calamidade diria que é urgente os Portugueses aprenderem a lidar com a perda, especialmente para momentos como este. Entender o que pode acontecer quando perdemos algo, como se processa, o que sentimos, e que podemos fazer para recuperar de perdas que nos parecem irrecuperáveis. A acrescentar a tudo isto, ensinar os nossos filhos, as futuras gerações, a fazer o mesmo, de modo a irem criando a sua conta poupança para lidar com perdas.

Por isto, porque perder faz parte da vida, e ganhar também (mas essa às vezes é mais fácil de lidar), incluí algumas perguntas sobre a perda, nas entrevistas que faço às crianças pelo mundo fora. Pergunto se já perderam alguma coisa e peço-lhes uma receita para se lidar com a perda.

Acreditava que as crianças da Serra Leoa eram os verdadeiros especialistas de perdas, dada as gerações que viveram a guerra civil e o recente surto de Ébola em 2015, mas como sempre, fui surpreendida. Vi que não foram só eles a dar-me bons conselhos.

Respostas como “Esperar que passe. Sempre acaba por passar”, “Fazer Surf com os amigos” ou ”Fazer coisas que gostamos até nos sentirmos melhor” foram algumas das respostas Na Serra Leoa.

No Japão rondavam o “escrever uma carta faz sentir melhor”, “perder? Nunca perdi nada..só um carrinho…”

Já em Portugal as histórias foram outras: “quando perdemos coisas, podemos sempre comprar outras… mas quando são pessoas… já sei, se tivesse uma molécula dessa pessoa criava-a outra vez”.

“Perdi a minha cadela, penso que se tivesse um quarto cheio de cachorrinhos para me darem lambidelas, eu ia-me sentir bem outra vez”.

“Perdi a confiança, quando descobri que o Pai Natal não existia….mas isto foi quando tinha 2 anos, claro (criança com 9 anos agora) até vi que as meias que pomos nas chaminés são sempre pequenas demais para serem dele e até para pôr presentes, mas depois aceitei. Às vezes temos que aceitar as coisas como elas são”.

Para início de tópico, quando falamos em perdas, talvez por ser um tema difícil, normalmente não estamos conscientes do que podemos perder. Diria que o primeiro passo é identificar que se está perante uma perda, em seguida, identificar o que se sente com isso, e por fim, ativar estratégias para se lidar com a situação. Passando da teoria à prática.

Podemos perder 5 coisas importantes: Pessoas, Objetos, Animais, Confiança e Saúde. Cada uma destas perdas remete para emoções diferentes, com profundidades diferentes. Se há regras quando falamos de perdas, é sem dúvida o facto de não haver supostos em relação ao que se deve ou não sentir.

Algumas das emoções mais comuns quando estamos perante uma perda são: Zanga, revolta, ansiedade, medo, calma, contentamento, tristeza, aceitação, negação. Aqui fica uma atividade que pode fazer com as crianças lá de casa. E uma atividade para os adultos.

Para crianças dos 6 aos 10 anos (também dá para crianças mais velhas, mas não dá para mais novas).

1. Ilustrar a história do que perdi:
Em conjunto devem preencher a seguinte história:
1.1 Quando eu perdi…
1.2 Eu fiquei Triste Porque…
1.3 Eu lembro-me que…
1.4 Eu era feliz quando…
1.5 Eu senti-me triste quando…
1.6 Uma coisa engraçada que me lembro desse momento é…
1.7 O que as outras pessoas me disseram naquele momento foi…
1.8 O que me fez mesmo sentir melhor naquele momento foi…

Depois de preencherem a história da perda, podem ilustrar, com recortes, desenhos e colagens.

Para os Adultos:

Durante os 3 meses seguintes a uma grande perda é comum haver uma grande instabilidade emocional, há até quem lhe chame, um “carrocel de emoções dificeis”. Contudo, há uma serie exercicios que podem ser feitos e que podem acalmar essas emoções. E como todos os adultos que sofreram neste momento o impacto das perdas dos fogos do país merecem um miminho especial, aqui fica um exercício, que ao longo destes 3 meses, pode ajudar a transformar algumas das emoções dificeis que são vividas nesta fase.

Aqui vai:

Imagine que lhe foi dada a oportunidade criar a a sua vila/cidade/aldeia ideal. Um lugar com muitas coisas que lhe pudessem dar mais qualidade de vida a vários níveis.

Responda às instruções:

1. Os serviços: Que tipo de serviços gostaria que a sua nova localidade tivesse?

2. Os lugares com natureza. Como gostava que fossem? Perto ou longe de sua casa? Acessíveis, verdes ou mais húmidos? Apenas um lago, ou uma praia?

3. Os transportes. Gostava que andassem de bicicleta, de carros, de cavalo ou apenas a pé? Seria um lugar com fácil acesso ou difícil?

4. Imagine agora a relação entre os vizinhos. Como gostaria que as pessoas que vivessem mais próximas de si se relacionassem? Haveria uma associação comunitária? Apenas encontros ocasionais no supermercado com cumprimentos tímidos?

5. E crianças: Um lugar com muitas ou poucas crianças?

6. Os serviços. Haveriam muitos serviços, poucos? Que tipo de serviços? Apenas os essenciais mais que isso? Gostaria de prestar algum serviço na sua comunidade?

A transformação de emoções difíceis é possível e esta é apenas uma atividade.

Uma receita para realizar sonhos

Ganhar Euro-milhões, acabar com a fome ou distribuir skates como transportes públicos: Uma receita para Realizar Sonhos

Fujieda prometia. Não só porque ainda hoje significa “flôr”, mas também porque passados 30 anos Sohei conseguiu realizar um sonho de infância, entrar em Lisboa por Santa Apolónia. Fujieda é uma pequena cidade Japonesa e Sohei é um pintor que decidiu apoiar o “Kids” e me convidou a conhecer as crianças da sua cidade de origem.

O Projeto “Kids” tem como objetivo criar um kit de Emoções para Pais, criado por filhos dos 4 cantos do mundo. Ao longo deste ano, viajo por vários países para entrevistar crianças dos 5 aos 10 anos e recolher delas, dicas para se gerir as emoções. Às suas dicas adiciono o meu conhecimento na saúde mental, várias técnicas e ainda atividades que os pais podem usar em casa, para integrarem e promoveram mais competências emocionais nos seus filhos.Comecei por Portugal, fui até a Serra Leoa, estou no Japão e em Novembro sigo para a Colômbia (deixo cerca de 6 países para 2018). Vejam como apoiar na página deste site -Kids: O que é &Como apoiar)

Se na última crónica viajei por Quioto e falei da importância da tolerância, hoje vim até Fujieda para entender porque devemos pôr as nossas crianças a sonhar.
Viajar é sem dúvida uma excelente forma de aprender, especialmente sobre a humanidade. Mas em Fujieda, com Sohei e a sua Família, aprendi sobretudo como sonhar.
Tudo começou como deve ser, à mesa, num dos Izakaias da cidade.
Se pudesse traduzir à letra, diria que os Izakayas são Pubs. Pubs de Comida.

Os Izakaias são lugares onde podemos apreciar sakes e também comer. Normalmente são espaços onde se pode viver toda esta experiência sentada/o ao balcão e sózinha/o.
Historicamente os Isakayas eram lugares de passagem e aos clientes que passavam, era servido, ainda em pé, um sakê na sua masu (caixas de madeira que servem de medida para a bebida), e este era bebido ainda encostado ao balcão, de pé. Mais tarde, alguns espaços começaram a ter lugares sentados, mas ao balcão, para que a clientela conseguisse apreciar a sua bebida, desta vez, sem pressas.
Já tinha experimentado alguns Izakayas noutras cidades, mas foi Sohei que me mostrou o seu verdadeiro poder na sociedade Japonesa e arrisco-me a dizer, no mundo.

Tradicionalmente, após um dia de trabalho, os homens passam pelo Isakaya a caminho de casa e normalmente são os mais velhos ou até o próprio chefe, que paga aos mais novos o que vão consumir. A ideia é que, à medida que vão bebendo, falem livremente sobre coisas relacionadas com o trabalho (aqui, sem qualquer restrição) e também sobre a sua vida pessoal. Para que os mais velhos possam ensinar os mais novos: a pedir, a refilar com o chefe (que muitas vezes é quem está à frente), a lamentar a mulher, a beber, e até a viver o mundo. Quase como se estes pubs se tivessem vindo a tornar como uma escola de vida humana e social.

Naquela tarde Sohei também partilhou que desde os 5 anos que uma imagem não lhe saía da cabeça. Era uma fotografia de Lisboa (como aquelas fotos de desconhecidos que se vendem na feira da ladra) e que desde então, sonhava em visitar a cidade.

Sohei também sempre quis ser Pintor, e fazia disso a sua vida, por isso não tinha muito cash flow (facto que dificultava a realização de 2 sonhos numa só vida).

Quando casou, partilhou Lisboa com a sua futura mulher e conseguiu envolvê-la. Envolveu-a de tal forma que a desafiou a vir passar a Lua de mel à cidade das 7 colinas. Em 2015 entram finalmente, em Lisboa por Santa Apolónia, “afinal entrar numa cidade com a qual se sonha desde pequenino, é como conhecer a mulher por quem estamos apaixonados em segredo há anos, requer um encontro especial. Entrar pelo aeroporto, iria tirar muita intimidade ao nosso encontro”.
Acrescentou ainda que a visita à cidade de Lisboa o contemplou de muitas formas. Que a figurinha que tinha guardado desde os seus 5 anos, tinha agora dado lugar à sua primeira exposição de Pintura internacional, em Maio 2017, Sohei vai expôr no Centro Cultural.

Disse-me também, que agora podia concentrar-se no seu atual sonho em relação à família: Educar os filhos, com a mesma capacidade de sonhar que os pais dele o educaram: “Ser Japonês, exige muita força de vontade para se conseguir ser diferente, embora a independência seja incutida desde cedo, temos que ter muito apoio para seguir os nossos sonhos, pois pode não ser claro o seu contributo para a harmonia social. E os meus pais, se havia uma coisa que se preocuparam, era em transmitir que os sonhos, sejam eles quais forem, mais ou menos peculiares, mais ou menos diferentes do grupo, só têm uma regra, ser realizados!E é isso que quero passar aos meus filhos!!”

Foi num balcão de um Isakaya que Sohei me mostrou o seu “eu” mais íntimo, sem restrições.

Sei que todos os países têm pubs, mas confesso que vi sérios benefícios em criar mais “Cafés de Sonho” em Portugal. Cafés onde os mais velhos nos esperam de braços abertos, com tremoços,  para partilhar as suas experiências, e nós os nossos sonhos. Para nos ajudarem a realizar os sonhos de uma vida, e tudo isto ao balcão de um café a caminho de casa.

Consciente de que o Sonho não é uma componente emocional, decidi incluí-lo como uma peça fundamental na educação das nossas crianças, pois, está provado que desenvolve uma série de competências que afetam diretamente a forma como nos sentimos. Independência, criatividade, valor próprio, sentido de propósito e envolvimento são apenas alguns dos ingredientes que falo.

Por isso uma das perguntas que faço às crianças deste mundo é qual é o seu sonho.
Na Serra Leoa, a Martha de 7 anos disse-me que sonhava no dia em que iria ter comida para dar a todas as pessoas. Em Portugal, o Diogo de 8 anos, disse que o seu sonho era mesmo que todas as pessoas se deslocassem de skate, e o Martim, de apenas 6 anos, acrescentou que se toda a gente comesse hambúrgueres todos seriam muito mais felizes. No Japão, o Caio de 6 anos, acrescentou que sonhava com o dia em que os adultos deixassem de dobrar a roupa; Para a Min de 7 anos era mesmo conseguir estudar até morrer. A Yoo de 5 anos disse que queria ser um especialista de Chopsticks. E quando terminei as entrevistas na Serra Leoa, também um pai desabafou, que o seu verdadeiro sonho era que todas as crianças aprendessem a dedicar-se ao Yoga, assim seria mais fácil lidar com as mudanças.

Perante isto, fui investigar como estamos em Portugal em relação aos sonhos e descobri que a maioria dos Portugueses em 2014 (registos de estudos mais recentes) ainda sonhava em ter uma casa própria, ter um carro ou ganhar o euro milhões. Muitos têm insónias, por isso não sonham e ainda há aqueles que se recusam a sonhar, por uma questão de gestão de expetativas.
As boas notícias em relação aos sonhos, é que não há bons nem mau, o importante é mesmo sonhar!
Se formos literais como os neurocientistas, descobrimos o que nos mostram os estudos desta área. Sonhar está associado a dormir e faz bem à saúde. Os sonhos são fontes de/e para criatividade, aumentam a esperança no futuro e por isso a serotonina, dão sentido de propósito e acima de tudo, quando partilhado, permitem que pessoas com o mesmo sonho se juntem a nós, aumentando assim a Oxitocina (hormona das relações amigáveis.

Para os comuns mortais, sonhar está associado a aspirações. Sonhar é uma habilidade para definir objectivos para o futuro enquanto de mantêm a inspiração no presente para os atingir. Se olharmos para as crianças, quando esta sonha deve ser simultaneamente desenvolvida a sua capacidade concreta, na realidade, de o realizar. Para que o Diogo consiga que todos andemos de skate nas ruas de Lisboa, ou até que o Martim seja capaz de transformar Lisboa num Mc Donalds gigante ou até a Martha de ter um banco Alimentar global, é fundamental que consigam passar de “Dreamers”- sonhadores – a “Doers”-fazedores.

Aqui ficam algumas atividades que podem fazer lá em casa com a criança dos 5 aos 10 anos:

  1. Promover o valor próprio: É fundamental que a criança consiga percebendo qual o seu valor, o que a torna única, sabendo isto, conseguirá desenvolver o sentido de pertença, sentir que pertence a um grupo (seja à família, na comunidade, na escola ou com amiguinhos). Como? Faça uma tarde de talentos.
    Cada um deve conseguir pensar numa coisa que sabe fazer bem e que o torna único. Cada um pensa numa coisa que saiba fazer bem. Depois recortam de revistas pequenas ilustrações que o representam. Colocam todos os desenhos voltados para baixo e cada um escolhe um sem saber de quem é. Em grupo todos devem apresentar às outras pessoas o talento que seleccionaram e todos têm que adivinhar de quem é o talento.
    Envolvimento: É essencial promover envolvimento em tudo o que se faz. E com as crianças consegue fazê-lo quando tornamos as coisas “Fun” e aventurosas. Quando em todas as atividades a criança está de tal forma envolvida que perde a noção do tempo. Alguns estudos dizem que para isto ser possível é essencial que criança sinta que há um risco associado e que o pode correr em segurança.
    “Missão Explorador” usando a ideia dos Japoneses, o contacto com a natureza pode ser uma excelente forma de promover envolvimento. Num fim de semana em que esteja família reunida, fazerem uma incursão a um parque e descobrirem bicharocos da região. Há um projeto interessante que se chama http://projectorios.blogspot.pt/ e onde se podem apadrinhar um troço de um rio. Com o apadrinhamento vem uma série de atividades para viver esse troço do rio.
    3. O sentido de propósito: Por definição é fazer algo de que gostamos, que faça a diferença e contribua para o bem de todos. Em família cada um deve identificar um talento, e uma coisa que goste muito de fazer no seu tempo livre, junta-las e por fim, chegar a um sentido de propósito.

Tolerância Zero ou Tolerância De ponte. Tolerância Divina, mista e até Tolerância alimentar. O Importante é ser Tolerante

 

Saía mais pesada. De coração Cheio. Talvez pelos cânticos do mantra do coração que me acordaram naquela manhã, talvez por ter conseguido finalmente apanhar um escaravelho antes de seguir para Quioto. No último artigo falei da generosidade e partilhei uma atividade que pode ser feita com crianças dos 5 -10anos. Hoje viajo por Quioto e pela importância da tolerância.

Quioto, embora tenha dado nome a um rigoroso protocolo de controlo de gases, é uma cidade bastante descontraída. A sua história exigiu-lhe ser uma cidade, essencialmente tolerante. Tolerante a mudança, a diferenças, a turistas e estilos de vida. Começou por ser a capital do império, mais tarde Tóquio roubou-lhe o lugar. E por isso hoje chamam-lhe “Antiga Capital” e (embora para mim, Quioto tenha mais de futurista do que de antigo) as ruas de Machyas – casas tradicionais anteriores à II guerra mundial – não deixam dúvidas da sua sapiência antiga.

O centro da cidade está ordenado segundo as linhas de Feng Shui, mas as áreas periféricas, não mantém padrão do centro. Como se desde início, Quioto se distinguisse pela sua rebeldia em relação às linhas das cidades que seguiam a tradição. Sem dúvida que ao longo de uma viagem, vivemos mudanças a vários níveis. No Japão, a maior viagem de todas é ao nível de reformulação de preconceitos. E foi através da arte que me confrontei com a tolerância e com os meus preconceitos ocidentais. Foi nas lojas de Manga e Animação de Akiabara ainda em Tókio, como as lojas do Sonic, do Dragon ball ou do Jay World que voltei a sentir aquela adrenalina que só o mundo fantástico nos pode dar. E que deixamos de usar à medida que crescemos. Estas lojas, ao contrário do que se esperaria no Ocidente são, acima de tudo para Adultos. É através das animações de Manga que se vive e consome a literatura Japonesa. Os Livros de Tankôbon ocupam muitas das prateleiras das livrarias, e o Miyazaki não pára de esgotar as salas de cinema, com os seus filmes de Totoro. É com muita cor, fantasia e brincadeira que se fala de assuntos de adultos, e se abordam temas que vão desde a ficção cientifica, a romance que fazem chorar ou até mesmo dilemas éticos, filosofias de vida.

É inevitável comparar a sociedade Japonesa adulta, com a sociedade Portuguesa. Em que momento é que deixamos de ter momento de lazer, humor e flexibilidade (também falo da física), em prole das responsabilidades de gente grande. Como se ser adulto exigisse uma postura corporal séria, pesada, barriguda e sem dúvida “saber tudo sobre tudo”?

A arte levou-me também a pensar ao nível do papel das mulheres, pois, nas ruas de Quioto ainda se veem Gueixas, muitas Gueixas.

E se há coisa que não são, é o equivalente às prostitutas do ocidente, como dizem as más línguas ocidentais. A Gueixa é uma apaixonada por arte: estudante exemplar de arte, canto e dança milenar Japonesa. Identificáveis à distância, pelo seu traje, delicadeza e estatuto, a Gueixa é alguém que conhece muito da cultura do seu país, uma artesã. Muitas vezes os próprios Japoneses recorrem aos seus serviços, por isso mesmo, para conhecer mais das suas raízes culturais.

Ser Gueixa é uam opção de vida que deve ser feita desde cedo, quando a jovem meninda (por volta dos 17 anos) deve decidir integrar a escola das Gueixas, e para isso, deve ter uma conta poupança para as propinas, para pagar os encontros com Gueixas mais velhas, e comprar o primeiro quimono. Para assim se conseguir dedicar à vida de entretenimento. Algumas gueixas chegam a ganhar até 5000euros/aparição. Mas este é apenas mais um caminho de vida. Outro caminho de vida, são as mulheres Japonesas que enveredam pela vida familiar. E ao contrário dos estereótipos ocidentais, a mulher que decide dedicar-se a um projeto de família, não é submissa ou isenta de auto-determinação. De facto, os números mostram que cerca de 64% das mulheres Japonesas trabalham, nem que seja em tempo parcial. A modéstia, primeiro nas conversas com as suas amigas, e a sua autossuficiência são algo muito valorizado nesta cultura. Autossuficiência, porque a mulher “Needy” é vista como um fardo para os outros. A modéstia, pois, a descrição ajudará a ter um melhor sentido de oportunidade na relação com os outros.

A mulher de família é alguém que tem um enorme poder familiar e social. A “koiko mama” – a mãe que é responsável pelo orçamento da família, por garantir que todos estão bem e ainda, que as crianças têm um excelente desempenho na escola. Para alem de que é alguém que deve contribuir para a vida comunitária do seu bairro e por isso, voluntariar-se para tal. Como me disse a Marta, uma amiga Portuguesa, casada com um monge Japonês, “Talvez aqui a grande diferença entre a Dona de Casa japonesa e Dona de Casa Portuguesa” seja o facto de cá, haver um reconhecimento quase oficial e muito grande, quando a mulher faz a escolha de ser uma mulher de família”. Depois há as turistas. Em Quioto, há muitos turistas.

E ao olhar para as ruas de Quioto, apercebo-me da quantidade de mulheres turistas que por cá passam. Sem dúvida, com uma enorme miscelânea de línguas, idades, culturas, famílias, máquinas fotográficas e escolhas de vida. Algumas tirarem licenças sem vencimento para viajar, outras em mudança de trajeto de vida, outras mesmo com filhos para lhes mostrar o “Mundo” e até aquelas que se dedicam a juntar dinheiro para conseguir viajar, nem que seja apenas uma vez por ano.

“Para mim o mais importante, é conseguir ver o mundo; mudar de perspetiva e sentir que há muitas formas de viver, crescer e sentir”, dizia-me a Anne, viajante de 40 anos. Estas realidades são apenas algumas que se cruzam em Quioto. Pessoas que se cruzam diariamente nas ruas da cidade, nos supermercados ou transportes públicos, e que final do dia dormem de consciência tranquila. Pois, se há coisa que a sociedade Japonesa não é, é moralista.

A tolerância é uma atitude fundamental para quem vive em sociedade. Uma pessoa tolerante aceita opinião ou comportamentos diferentes daqueles estabelecidos pelo seu meio social, sem julgamentos ou moralismos. E nós por cá, somos tolerantes? Como sabemos que alguém é diferente de nós? É a Pergunta que faço às crianças de modo a entender o que sentem em relação à tolerância e que dicas de respeito pelo outro nos dão. O Diogo de 8 anos respondeu “é pelo aspeto e se forem gémeos, pela postura”. O Daniel de 5 anos: “porque temos coisas diferentes no corpo…só que eu não percebo muito dessa parte… Depois acrescentou “Mas julgo que podemos, mostrar respeito, fazendo acordos”.

O Miguel de 6 anos, disse que era pelos sabores “Algumas pessoas gostam da outra e essa outra pode gostar ou não gostar da primeira”. Já no Japão, a YeChan de 8 anos, e a ShizukoChande 5 anos, o Yuki de 6 e Caio de 7 anos, não souberam responder a esta pergunta. Apenas a YuChan, de 7 anos, disse-me que devia ser…por exemplo como ela e a sua gémea, a irmã é muito boa em ballet e ela é apenas uma especialista em manejar “chopsticks”.

E só 15 entrevistas depois entendi porque só a Yo tinha conseguido responder “Se me perguntares o que temos de semelhante, é mais fácil, mas se for de diferente…não sei…disse-me ela. O Sohei, um amigo pintor tambem me explicou, o que hoje entendo como a base da tolerância: “se me foco na diferença de quem está á minha frente, tendo a distanciar-me dela, se por outro lado, tento identificar o que temos em comum, em última instância chego à permissa de que somos humanos, com os mesmos medos, a mesma necessidade de ser aceites, sentir segurança, com a mesma vontade de ser feliz ou medo de não conseguir, e por isto, porque somos da mesma especie, vale a pena olha-la de forma única e pôr em prática a minha responsabilidade de a respeitar”.

Segundo o estudo o jornal Público, em 2016 Portugal era o terceiro país da Europa que mais se opunha a acolher imigrantes. Mesmo sabendo que cerca de 1,2 milhões de pessoas procuram proteção na Europa (um número mais alto do que na Segunda Guerra Mundial). Mesmo que a tolerância cultural seja um dos valores da Democracia Portuguesa. Por esta razão, porque acredito que devemos ser mais e mais tolerantes à diferença, menos moralistas em geral, e que a tolerância, empatia e compaixão, são as chaves para acabar com as guerras na geração dos nossos filhos, deixo-vos uma atividade de como a podemos promover lá em casa com os miúdos:

1. Pegando nas revistas ou jornais velhos lá de casa, a criança deve escolher imagens (partes que constituem uma cara, nariz, boca…) para recortar e construir uma cara. Em seguida devem escolher as imagens que mais gostam e usá-las para fazer uma máscara através de colagens numa folha que servirá de porta retratos.

2. Fazer um serão e jantar multi-cultural: Escolha um continente e depois um país, decore a casa com elementos desse país, faça uma comida que o represente e mostre á criança como se brinca (ex. Ásia: monte um TiPi, e ao jantar mostre como se come com pauzinhos, por exemplo). Tambem posso aproveitar para sugerir ao adulto lá de casa tolerar o dia do “hoje comemos como nós quisermos” a refeição é escolhida pelas crianças e comida como elas quiserem (à mão, na mesa sem pratos… – sim, desculpem a bagunça!!)

3. Em família, todos devem identificar as características diferentes de cada um e porque é que cada uma é importante para o grupo.

Link para ler o artigo na revista Visão

Generosidade: O anti-depressivo para a sociedade dos nossos filhos

Ver artigo original na Revista Visão aqui

Aqui não são as linhas de comboio que nos levam aos lugares, mas sim os comboios. Comboios com nome próprio, Nozomi, Hikari ou Shinkansen, cada um com a sua personalidade, com ritmo e música que caracteriza a forma como voam sobre as linhas, e até há aqueles que conseguem rolar sem tocar nos carris, os famosos comboios bala.

Quando me disseram que chegavam a ser tão rápidos quanto a própria sombra eu pensei que era mais um daqueles mitos sobre este país. Mas se há assunto em que tudo o que se diz, não é mito ou exagero, são os comboios, os comboios Japoneses.

Na última crónica do projeto “KIDS” (saibam como se podem envolver n página projetos) falei da importância de estimularmos a consciência social e responsabilidade das nossas crianças. Hoje venho falar sobre generosidade e de como a podemos pôr sobre carris lá em casa.

Decidi vir num comboio shinkanzen para chegar mais depressa a Kannami. Kannami é uma vila com densidade populacional de 585 pessoas/Km2 dedicada à agricultura. O facto de se encontrar meio escondida nas montanhas de Hakone junto às margens do rio Kano dá-lhe uma ruralidade Japonesa muito genuína.

 

As crianças desta vila são especiais, para além de distinguirem auditivamente o nome de cada comboio que se aproxima da estação da aldeia (a mais de 7 km de distância) têm hobbies peculiares: colecionar o sagrado, a vida. Colecionam escaravelhos.

Os escaravelhos também são bichos muito especiais, não só aqui, porque são adorados por todos (e especialmente pelas crianças), mas também noutros lugares. Na história Egípcia por exemplo, são considerados sagrados e, em geral são símbolo de ressurreição, de fertilidade e vida.

Acredito que se em Kannami soubessem que existem cerca de 30 mil espécies de escaravelhos, de várias formas, com cores e feitios diferentes, estas crianças palmilhavam o mundo para as tentar descobrir e junta-las num só sítio da vila. E não o fariam por uma questão de vaidade para as exibir como as suas raridades. Não por lhes quererem dar uma vida diferente do que a natureza lhes definiu, mas sim, porque todo o processo de procura de escaravelhos, de procura de vida e fertilidade, é uma aventura que pode ser divertida e exigente ao mesmo tempo, muito mais eficaz quando partilhada.

Como em muitas outras vilas e cidades Japonesas as crianças têm a responsabilidade de cuidar de si mesmas e de pôr em prática o que já são capazes de fazer, tal como aceitar novos desafios, sem que isso represente uma ameaça. A criança tem a mesma responsabilidade que o adulto, só tem menos autonomia.

Para que a procura de escaravelhos tenha sucesso é importante que o grupo mantenha uma harmonia. Manter esta harmonia significa aprender e viver simultaneamente com a experiência e com o grupo.

1º Preparar a expedição

2º Observar (não só a natureza – as árvores, os bichinhos ou os arrozais, mas também as limitações e sentimentos dos outros elementos do grupo) para que todos tenham condições para contribuir para o bem comum e assim sentir que pertencem à expedição. Esta busca pelo escaravelho, ou direi pela vida, dá-lhes uma nova consciência de grupo, “eu sou tão importante como cada outra criança ou adulto desta equipa”  – as relações atingem uma igualdade interessante. As discórdias e/ou frustrações do grupo servem para entender que as relações com os outros são recíprocas e que todos são importantes. Acima de tudo, que todos são responsáveis pelas suas vidas e pela vida do grupo.

É a assumir esta responsabilidade que Caio, de 6 anos, mesmo quando se zanga com o Yuki por ele não ter apanhado o escaravelho, mais tarde lhe pede desculpa, e o Yuki respeita, prometendo ter mais cuidado com a descoberta do amigo nas próximas expedições. Tal como a Hinna, de 8 anos, ao ver que o Taiyo (com menos 3 anos que ela), se isola do grupo por ser difícil acompanhar o ritmo dos mais velhos, o apoia e partilhando a sua caixinha com o escaravelho azul arroxeado que encontrou. Aos restantes adultos, cabe-lhes a responsabilidade de celebrarem o regresso do grupo e os ajudarem a decidir o que fazer com “a vida”.

E é aqui que a família e a comunidade se juntam na equação. Pois, não há adulto que não festeje a vitória das crianças – o regresso a casa após a descoberta do escaravelho. Como se a missão “descobrir a vida” começasse com a excitação de uma aventura por explorar que envolve a criança, a família e a comunidade num harmonioso círculo, que só está completo quando a generosidade é posta em prática por todos.

No japão “ser Yasashi” – ser generoso – é mais que um conjunto de regras ou princípios. É uma forma de vida. E é dado a todos, independentemente da idade, a responsabilidade e oportunidade para a pôr em prática. Agir generosamente, significa ter a oportunidade de partilhar algo com a comunidade, que consequentemente, retribuirá com inspiração para novas vivências. Por isto, uma das perguntas que faço pelos quartos cantos do mundo é o que podemos fazer para tornar o dia de alguém mais feliz. E enquanto na Serra leoa e em Portugal a criançada me falava em atos como “ajudar quando alguém me pede ajuda; cumprir as regras lá de casa”, “fazer menos birras” ou ajudar o amigo que está triste”. No Japão as respostas vinham com uma pergunta: “onde? Na escola, na comunidade ou na família?” e só depois havia uma sugestão. De facto, desconstruir a generosidade desta forma, facilita a ter mais foco e ação.

Por curiosidade, em Kannami, a maioria das respostas focava o “presentear a minha amiga com o escaravelho”, “levar-te comigo a descobrir escaravelhos”.

Por definição generosidade é: Dar e partilhar acima de qualquer interesse ou utilidade, acrescentar algo ao próximo. Por isto, acredito que e a concretização de algumas das emoções mais importantes na relação com os outros, como a empatia ou a compaixão, seja a generosidade. Vários estudos indicam que a prática de atos generosos contribuem não só para o bem-estar de quem os recebe, mas também, para quem os pratica. Reduzem o stress, melhoram a depressão, previnem o isolamento, trazendo sentido de pertença e melhorando a qualidade das relações. Dão sentido de propósito, e ainda dão perspetiva.

Quando sofremos tendemos a autocentrar-nos, mas os atos generosos exigem a que olhemos para fora, nem que seja para descobrir as necessidades do outro para lhe demonstrar que “o queremos bem”.

Daí que o próprio Dalai Lama sugira que se queremos ser felizes, pratiquemos compaixão e generosidade.

Segundo o Jornal expresso, um estudo internacional de 2016 coloca Portugal em 82º lugar no ranguinha de generosidade. Questiono até se não fará sentido introduzir uma disciplina “generosidade” no currículo escolar obrigatório. Não só funcionaria como um preventivo ao nível de saúde mental (já que contribui níveis mais altos de oxitocina, serotonina e consequentemente produtividade da sociedade), como também para os casos de depressão, funcionando como um anti- depressivo natural.

Como ainda não chegamos aí, porque não introduzi-la como uma prática diária na vida das crianças, tão importante como a higiene oral?

Aqui fica uma ideia de atividade que treina a generosidade e que podem fazer em família lá em casa.

O calendário de atos generosos

Criar um calendário familiar mensal de atos generosos (em conjunto com a criança, claro). Pode fazer em papel. Depois de definidos os atos que cada elemento da família quer/vai fazer, podem desenhar em cada quadricula algo que represente o ato.

O Passo a Passo:

1. Começar por dar uma definição de ato generoso à criança: É um ato ou palavra simples, que não envolve dinheiro que faça o dia de outra pessoa mais feliz.

2. A seleção dos atos, podemos dividi-los por áreas. Podem ser na e com a família, na comunidade ou na escola/trabalho.

3. Idealmente cada elemento escolhe os atos consoante a sua idade. Só há uma regra, que todos têm a responsabilidade de pôr os seus atos em prática. Relembro, que as crianças têm tanta responsabilidade quanto os adultos, têm apenas outro tipo de autonomia.

Aqui fica um exemplo de alguns dias do calendário, com ator generoso. Que deve ser afixado no frigorífico até que o mês acabe:

Bom Setembro e enquanto não começam as aulas dos mais novos, aproveite para começar uma troca de atos generosos no seu Bairro!

Que sociedade queremos para os nossos filhos?

Clicar para ver o artigo original na revista Visão

 

Algumas dicas de como promover a responsabilidade e a consciência social no seu filho – dos 5 aos 10 anos – usando o exemplo japonês

Cheguei a um extremo. Ao Extremo Oriente.

De facto quando mudamos de continente não mudamos só de língua. Mudamos de comida e de forma de comer – aqui come-se cru e não cozinhado e os talheres dão lugar a “pauzinhos” – mudamos a forma como vivemos a estação do ano – aqui chove no verão e usam-se sombrinhas – e até mudamos de mentalidade – mais importante do que aprender a tabuada, as crianças devem aprender a ser cidadãos responsáveis e contribuintes para uma harmonia social. Cheguei ao Japão.

Se na última crónica falei da importância da espiritualidade na educação das crianças, com histórias de Serra Leoa e Portugal, hoje exploro a importância da consciência de responsabilidade para a harmonia social na educação das crianças, a sociedade dos nossos filhos. O Japão tem cerca de 127 milhões de pessoas. Em cada 100 japoneses, 64 têm entre 15 e 65 anos, 23 japoneses têm mais de 65 anos e apenas 13 têm entre os 0 e 14 anos.

Tenho a teoria que somos pouco tolerantes a mistérios e por isso criamos mitos para nos tranquilizar. Em relação ao Japão isto é gritante. Tratando-se de uma cultura tão diferente, especialmente na forma como (inter)agem uns com os outros e com o mundo, ouvi uma série de comentários estranhos quando anunciei que o Japão faria parte do “Kids” (saibam mais e envolvam-se em “projectos” nesta página).

Há medida que cá estou identifico algumas causas para estes mistérios sociais.

O primeiro talvez seja ao nível religioso, os japoneses nascem xintoístas e morrem budistas ( o que a meu ver pode estar na base de uma sociedade tolerante e pouco moralista), depois o facto de ser uma nação em uma ilha, sem fronteiras diretas com outros países. Em seguida o facto de, até à Segunda Guerra Mundial, o país não ter sofrido muitas influências exteriores ou até ao início do século passado a maioria dos japoneses viver em comunidades rurais. As questões geográficas também têm influência com certeza: a maioria do território do país é montanhoso, e por isto as poucas áreas planas são onde as muitas pessoas se juntam para viver, vivendo literalmente, em cima umas outras.

Uma enorme densidade populacional ou pequenas comunidades rurais, não deixam espaço para excentricidades ou caprichos individuais. A harmonia social e a identidade de grupo surgem como uma forma de sobrevivência. Sem a clara noção do impacto que se tem no outro, sem que todos contribuam responsavelmente para o bem-estar do próximo, a com(vivência) no território Japonês seria impossível.

Esta harmonia social e identidade de grupo sente-se de várias formas, mas no crossing de Shibuya em Tóquio (um cruzamento atravessado pelo maior número de pessoas do mundo) vê-se a olhos nus ou direi a sentidos nus?

Vê-se por exemplo, no sentido de oportunidade do japonês, que é marcado em cada interação. Nos diversos aromas (nem demais, nem de menos). Através dos sons (o silêncio na correria ou as músicas harmoniosas enquanto o sinal está verde) nas aparências (indumentárias á base de preto e branco para não destoar e ninguém se sentir mal). Nas paisagens que mais parecem um suave patch work organizado pela mão humana.

Aqui cada um é peça fundamental para a conciliação de ideias e emoções verdadeiras que podem produzir sensações de bem-estar ao grupo. Um por todos e todos por Um “seria o mantra dos japoneses.

Ao contrário do mantra revelado pelo inquérito feito à população portuguesa, da Universidade Católica, em 2014, que mostra que a sociedade portuguesa está cada vez mais “Cada um por si, e salve-se quem puder” ou as revelações feitas no livro escrito pela jornalista Marisa Moura que tenta responder à pergunta “O que é que os portugueses têm na cabeça?” e onde através de vários inquéritos, pensadores e histórias, revela um Portugal com uma enorme InConsciência coletiva, o que significa menos atos civicos, mais individualismo e maior preocupação em chegar mais além, por si e para si. Tal como veio reforçar o Expresso em 2014 através do artigo de Diogo Agostinho.

Como podemos reverter este ciclo?

Ganhando cada vez mais consciência da nossa responsabilidade e no impacto que podemos ter nos outros, nas ações que podemos escolher ter para contribuir para o bem-estar dos que nos rodeiam. E por isto, uma das perguntas que faço às crianças para introduzir a responsabilidade é qual seria a primeira lei que criavam se fossem eleitos o Rei/presidente do mundo.

Em Portugal, o Diogo de 8 anos disse-me “todos deviam andar de skate e apanhar ar”, a Inês de 6 anos, acrescentou “acho que todos deviam proteger a natureza e cuidar das florestas, é dela que vivemos”, e a Shi, japonesa de 9 anos, dizia que todos devíamos nascer especialistas de chopsticks (“pauzinhos”), pois assim não havia discriminação”. O isac de 8 anos defendia “que devíamos cuidar da nossa escola, da nossa comunidade e da nossa família”.

No Japão a responsabilidade e harmonia social são levadas muito a sério, e para isto as crianças, desde cedo, que as praticam. Quando digo cedo, falo do facto de desde os 3 anos que vão sozinhas para a escola, podendo assim ter um contacto direto com a comunidade. Por seu lado, os pais juntam-se a grupos de atividades comunitárias, os Kodomo Kai, e têm como objetivo desenvolver atividades que promovam o bem-estar comunitário, melhorem algumas condições do bairro e ainda ajudem a criança a aprender a ter atos cívicos.

Os kodomo kai (grupos de pais e filhos) têm atividades como recolha de lixo, reciclagem, distribuição de roupas ou até ensinar ao grupo das crianças a agradecer a um estranho que lhe faça uma boa ação. Aos 5 anos as crianças entram para a escola e as expetativas sobre estas, mudam. Eles vão agora, em contexto protegido, aprender a ser bons cidadãos, cidadãos cívicos. E por isto, ao longo do primeiro ciclo, não há matéria escolar nem testes, há sim, uma serie de práticas, cujo o objetivo é ensinar a esta criança, a ser um cidadão civicamente ativo. Alguém consciente de que é responsável por contribuir para a harmonia social da sua escola, na sua comunidade e na sua família. Apenas no 5º ano as crianças começam a sua vida de testes e matérias.

“Afinal de que vale ser um ótimo aluno, se não apanha o seu próprio lixo, se não diz obrigado, se não ajuda um amigo triste?” Perguntava-me a Akiro enquanto me explicava algumas destas coisas.

E como o nosso currículo de primeiro ciclo ainda não segue as linhas japonesas, aqui ficam algumas dicas de como promover a responsabilidade e consciência social no seu filho – entre os 5 e os 10 anos:

Entre os 4 e 5 anos é esperado que as crianças consigam: arrumar a cama, por a roupa na máquina, guardar a roupa, ajudar a pôr a mesa, limpar o pó, regar as plantas, incentivar a pequenos atos generosos em casa, como agradecer, partilhar e ajudar nas tarefas que contribuem para o bem estar de todos.

Entre os 6 e 8 anos é esperado que as crianças consigam: Lavar a loiça, pôr e levantar a mesa, varrer, aspirar, guardar as compras, pendurar a roupa no estendal, voluntariar-se para ajudar na escola.

Entre os 9 e 11 anos: Preparar lanches rápidos, limpar os móveis, ajudar a fazer o jantar, guardar a loiça, fazer a lista de supermercado, ajudar um adulto que precise ajuda

Ao nível emocional:

Entre os 4 e 5 anos a criança vai imitar o que fizer e é importante demonstrar generosidade: Explicando as decisões generosas que vai tomando, por exemplo “comprei duas cópias do livro e vou dar um deles á tua tia, porque ela me disse que também gostava muito”. Agradecer, sorrir, dar passagem, ajudar alguém que esteja a precisar e até, promovendo comportamentos menos egoístas “hoje vamos fazer gelado, o teu amigo joão adora gelado, vamos convida-lo para vir cá comer a sobremesa?”
Elogiar sempre que a criança tem uma demonstração generosa “foste muito generoso em partilhar o brinquedo com o teu irmão”
Ao nível de generosidade na comunidade: a melhor forma de a transmitir e viver, é sem dúvida através de voluntariado. Existem muitos grupos de voluntariado de famílias nas freguesias. Inscrevam-se, passem tempo de qualidade em família e contribuam para o bem-estar da sua comunidade.

Entre os 6 e 8 anos: Nesta fase a criança deve entender que generosidade é mais que partilhar os seus brinquedos.

É durante este período que as crianças começam a desenvolver empatia e a ter a capacidade de se colocar no lugar dos outros, por isto, a exigência em relação à forma como ajudam quem está a precisar de ajuda, como se preocupam como o amigo que está triste pode sem aumentada.

Entre os 9 e 11 anos: A dica para promover a generosidade nestas idades é uma regra de 3 simples:

1 – Faça você mesmo: a criança vai tender a imitar

2 – Fale sobre isso: importante falar sobre atos generosos e debatendo em diversos momentos

3 – Encoraje e dê reforço positivo sempre que haja um ato generoso.

Boas praticas, mas cuidado com extremismos, não deixemos que as nossas crianças se tornem adultos demasiado cedo.

No Japão o sentido de responsabilidade é tão elevado e intrínseco que as pessoas recorrem “ao melhor lugar do mundo para morrer” (uma floresta na base do Mt Fuji onde vão para cometer suicído e assim tomar responsabilidade sobre as suas vidas e deixar de ter impacto negativo na vida dos outros).

Mais amor por favor.