Das Revoltas às Birras: Como Lidar com a Zanga?

A entrada da Primavera em Portugal trouxe uma mudança de continente no “Kids”. Deixei os ares do caribe e mergulhei nos cheiros Africanos, em São Tomé e Príncipe.

África: o terceiro continente mais extenso do mundo, ocupa cerca de 20% do planeta Terra e é composto por 54 países. Embora alguns países tenham um índice de desenvolvimento humano razoável, como é o caso das Seychelles, África do Sul ou São Tomé e Príncipe, dos 30 países mais pobres do mundo, 21 são Africanos. Com um mapa desenhado a régua e esquadro pelos colonizadores Europeus (consoante seus interesses e zonas de influência) que dividiu artificialmente grupos com os mesmos costumes, tribos e praticantes dos mesmos dialectos,  é um continente muito marcado pela resiliência na luta, acima de tudo, por dignidade. Com revoltas separatistas, golpes de estado, ditaduras, massacres ou guerras sangrentas, nunca se deixou ficar perante as injustiças. Mas o encanto selvagem e belezas brutas destes 20% de planeta distraí-nos da sua história mal aterramos.

Quando aterramos em São Tomé a sensação imediata é de expansão: de cores, de natureza, de volumes e cheiros. Talvez ter ficado alojada no “Pequeno Paraíso” tenha ajudado, mas decerto que a combinação entre a lusofonia que cá se fala, a natureza e a ecologia, a cultura e história marcam a diferença deste arquipélago cruzado pela linha do Equador. Mais que direito por linhas tortas, é aqui que a linha do Hemisfério Norte se cruza com o Hemisfério Sul.

Na ilha do “Leve Leve” deslocamos-nos de Vanettes amarelas, regateamos caso nos cobrem preço de turista. A  Rosema (cerveja Nacional) ajuda muito nos fins de tarde húmidos e alaranjados. O peixe e a banana estão na ordem dos dias, ou melhor, nos menus de refeição. As crianças, essas são ágeis a estender a mão para pedir “doce” e raramente estão sós. Em qualquer comunidade, quintal ou Roça, o que não faltam são crianças. Muitas, mas muitas crianças. Seja a lavar a roupa nos rios, a capinar nas roças ou a pôr o “pé na estrada” para ir para a escola. Crianças pequenas com agilidade de adulto, até para colocar a capulana e transportar outras ainda mais pequenas.

Confesso que se em algumas regiões da Colômbia ou no Japão foi difícil ter autorização das famílias para entrevistar crianças, aqui esse não é o caso. O desafio é mesmo manter a calma, sem ficar enfurecida, e conseguir que as

centenas de crianças curiosas se afastem e fiquem em silêncio durante as filmagens das entrevistas.

Em conversa com o Presidente do Conselho de Ministros da ilha apercebi-me que também ele tinha assuntos que o enfureciam. O desemprego na Ilha era o seu tema. Não que fosse essa a questão, mas afinal, dizia-me “é que cerca de 90% da população presta serviços informais, criando uma economia paralela no mercado, difícil de mensurar. As famílias rurais trocam os vegetais da sua roça, as pessoas que vemos sentadas nas ruas a viver o “tempo livre” são simplesmente os donos das moto-taxis que circulam na cidade. Alguns deles têm até 4 motas a trabalhar; nas comunidades  piscatórias, por exemplo, todo o peixe é pescado e vendido em mercado paralelo. Como é que a comunidade internacional ainda fala no desemprego de São Tomé?”.

O Kuame é um artista plástico São Tomense, também me confidenciou o que a sua revolta o levou a fazer à medida que me mostrava a sua escola de artes “com esta residência/escola vou mostrar à comunidade internacional que os São Tomenses têm capacidade para fazer crescer o país, não só em termos morais como, económicos e artísticos, mantendo nossa cultura!”.

Ia ficando desconfortável com algumas destas partilhas, mas ainda não entendia a importância que estas revoltas podiam ter.

A ida a São Tomé foi resultado da primeira parceria do projeto “Kids” com uma ONG Portuguesa, Missão Dimix.

A Sónia, fundadora da Dimix, acredita na mais-valia dum trabalho de competências emocionais para os jovens com quem trabalha e desafiou o “Kids” a desenvolver os seus workshops para promoverem auto conhecimento, melhorarem a relação com os outros e a interacção com o planeta, num grupo institucionalizado.

Diariamente apanhávamos as vans e deixávamos a casa do “Pequeno Paraíso” rumo à comunidade onde a instituição se encontrava. Dia após dia, as sessões corriam bem e a ideia de, no final, entrevistar as crianças da instituição para o documentário do “Kids”, era cereja no topo do bolo. Ambas  queríamos dar voz a estes especialistas e ter a sua contribuição na criação do kit de saúde emocional que o Projeto Kids se propõe.

Vivêmos algumas revoltas ao longo da semana, que não nos impediam de continuar. A Sónia numa das viagens de transportes públicos foi atacada verbalmente por um grupo de mamãs ao perguntar o preço por saír numa outra paragem. Já eu, enquanto tentava comprar carambolas no mercado (não há melhor do que as carambolas de São Tomé) fui a causa de uma richa nas vendedoras de mercado, que em uníssono gritavam, esbracejavam que me devia ir embora. E foi um moto-taxista que me aconselhou a ir embora. Sem as carambolas…

No final da semana, já com a autorização da directora da instituição, começamos com as filmagens. A Sónia conseguiu criar a primeira equipa de produção do projeto Kids (formada por crianças!!) e conseguimos respostas deliciosas, dicas incríveis. É sem dúvida um grupo de rapazes muito especial. O que não contemplamos foi a zanga da directora face ao facto das filmagens terem como plano de fundo um vão de porta “o que vão pensar as pessoas? Esta porta meio destruída?! Não autorizo esta publicação.” Decisão respeitada, entrevistas não vão ser usadas no documentário.

Semana terminada,  uma missão cumprida no terreno, e muitas zangas expressas pelo caminho.

Efetivamente, ambas estranhamos algumas destas reacções e confissões, afinal se há lugar no mundo onde as pessoas são felizes e pacíficas, é em São Tomé. Demorei a entender o que estava por detrás de tudo isto, uma história marcada por imposições de valores, costumes e ordens e um enorme desejo de “preservação da sua cultura”.  Parece que estas revoltas desempenham um papel num país tão pacifico como este: Manter os limites e proteger uma região que tem sofrido muito com a invasão de estrangeiros, ora como o colonialismo, era com boom turístico dos últimos anos. Os turistas que “entram” sem respeitar a cultura e acabam por interferir com a dinâmica do dia a dia e os nacionais que se defendem disso, reagindo com estrangeiros, como se todos fossem turistas.

De facto, segundo o índice de Felicidade Interna Bruta, uma dos indicadores que mais contribui para a felicidade de um povo é a conservação e protecção da sua cultura. Voilá, revoltas em prole do bem estar do povo!!

É impossível falar de zanga e bem estar sem referir a importância de aprender a regulação desta emoção especialmente num mundo como o que vivemos hoje, onde as relações entre os povos são marcadas pela doença do século (o terrorismo) e as interacções com o planeta com a explosão de revoltas e guerra. Não é difícil agir de forma zangada contra os outros e contra o mundo. Parece-me urgente ensinar às futuras gerações a zangarem-se.

Por isso uma das perguntas que faço nas entrevistas do “Kids”: “O que podemos fazer quando estamos zangados?”

Em São Tomé as respostas rondaram: “ Deve-se beber água e lavar a cara até ficar calmo.”

Na Serra Leoa: “Ficar quieto até passar.”

Na Colômbia: “Quando estamos zangados o melhor é deixar passar e não fazer nada que nos podemos arrepender.”

Em Portugal: “Brincar com os amigos.”

No Brasil: “Dar um mergulho no Mar.“

Japão:” Zangado? Não sei…nunca me senti zangado.”

A Zanga é uma emoção primária, logo muito importante, acima de tudo porque traz ação. É uma energia interna que permite pôr limites, que dá motivação para dar um “murro na mesa”, lutar contra injustiças ou repressões; permite que nos rebelemos contra regimes, situações ou contextos disfuncionais. Traz mudança. Agora sim, vislumbro a função de algumas das revoltas que vi no povo mais pacífico do mundo, os São Tomenses. De facto talvez sem estas zangas, fosse difícil manterem-se com níveis bons de desenvolvimento humano, com cultura e carácter próprio.

É essencial que aprender a direccionar a zanga para o lugar certo, sem sair explosivamente e contra coisas/pessoas/situações que não são a sua causa. Deve ser regulada e usada de forma saudável, e nunca para mostrar poder ou castigar os outros. Quantas vezes ouvimos dizer ou dizemos que “ Ela reage com 7 pedras na mão”, “Não lhe fiz nada para me falar assim..” “Ele foi muito agressivo e isso foi injusto..”, estas são algumas situações em que a zanga foi “disparada” e em vez de construir e desempenhar a sua função saudável, intoxicou a relação com os outros.

A primeira dica para aprender a lidar com a zanga é:  Autorregular-mo-nos.

Em seguida aprender a reconhecer o que nos deixa zangados e a libertar a emoção.

Por fim, aprender a usar a energia da zanga para criar, transformar o que precisa ser tranformado (este último ponto ficará para outro momento).

É comum ver famílias a castigar as crianças, porque estão a fazer uma birra, porque estão zangadas ou batem nos colegas. O que não é tão comum é ver famílias a ensinarem os seus filhos a zangarem-se. Talvez o primeiro passo na parentalidade é reflectir sobre a forma como lida com o seu filho quando ele o faz ficar zangado:

Algumas perguntas que podem ajudar nesta reflexão:

  1. Tenho uma estratégia coerente e consistente para disciplinar o meu filho?
  2. B. Normalmente, nestas situações, consigo transmitir o que quero aos meus filhos?
  3. C. Sinto-me bem com a forma como o faço?
  4. D. Eles sentem-se bem com a forma como lhes ponho limites?
  5. Quanto da minha estratégia de disciplina reflete o que os meus pais faziam comigo?
  6. F. O que gostava de mudar na educação que dou aos meus filhos? Muitas vezes a resposta a estas perguntas traz sentimentos de culpa “não estou a ser sufientemente bom”, “estou a falhar”, “posso estar a errar”…É um momento de respire fundo e relembrar que tem feito o seu melhor. Agora pode aprender algumas estratégias para fazer diferente.

Mais do que a corrigir as situações imediatas, o importante é promover ligações neuronais e celebrais que levem a criança a fazer escolhas cada vez mais conscientes e responsáveis, a desenvolver competências emocionais que lhe permitam auto-regular-se e assim a precisar menos e menos de medidas de disciplinares. Especialmente em momentos de gestão de stress.

Como sabemos, nas crianças os comportamentos são o termómetro do que estão a viver internamente, por exemplo, comportamentos como: Zangas, brigas, birras, atirar-se para o chão, mostram que a criança está com dificuldade em regular as suas emoções internas. Agarrar, pegar ao colo, Tocar, tranquilizar pode ajudar a que se acalme e organize internamente. Já as reacções de Ansiedade, medos, tristeza,  isolamento (são mais difíceis de observar), mostram que a criança precisa de ajuda para exprimir o que está a sentir. Verbalizar as emoções e dar hipóteses costumam ser uma grande ajuda.

 

 

Uma dica de Daniel Siegel  para lidar com a zanga do seu filho:

Não desvalorize o que zanga o seu filho (como nos sentimos quando alguém nos diz”deixa la isso, esquece isso, perante uma situação onde nos sentimos injustiçados?!) por isso, conecte-se com o seu filho/a” Eu sei que estás a passar um mau bocado. Que está a ser difícil controlares-te. Anda, eu ajudo-te”. Atenção, é frequente ver famílias a usar a estratégia de repetir apenas o que a criança está a fazer “Eu sei, eu sei…pareces zangado” e nestes casos o comportamento descontrolado da criança é o que está a ser promovido, de forma muito indulgente. É importante explicar o primeiro exemplo, pois este permite que a criança perceba que precisa de se controlar e esteja receptivo e disponível para fazer diferente.

Dicas para promover auto-regulação de uma criança zangada:

  1. Em caso de birras, faça um “time out” afaste-se deixando-a regular-se por si. Caso seja muito pequenina, respire fundo e mostre-se ainda mais calmo que o normal. As crianças aprendem por modelos.
  2. Priorizar a ligação com a criança: a criança é mais cooperante quanto mais se sentir acarinhada e amada.
  3. Validar o que a criança sente: Mesmo que seja inconveniente “sim, eu sei que estás desapontada”.

Actividades lúdicas que desenvolvem técnicas de autocontrole ou regulação de emoções difíceis:

O grito de Guerra “AAAAAUUUTXXXX”: Junte e encha balões de água de várias cores. Escolha um lugar onde possam ser lançados (pode ser na banheira lá de casa, num jardim…). Com o seu filho, lance-os contra a parede/banheira/chão, a única regra é que em cada balão lançado ambos devem dizer uma coisa que os deixa muito zangados ou irritados. No final de cada frase é lançado o balão acompanhado do grito. Esta actividade ajuda libertar e trabalhar sentimentos de zanga precisam ser libertados. Não substitui auto-regulação dos mesmos, mas ajuda a introduzir o tema das emoções difíceis.

Zanga no Pincel: Distribua material de pintura (é melhor serem tintas ou lápis de cera, pois, deslizam melhor na folha) e folhas A3. A instrução a dar “Agora vamos desenhar como se o lápis/pincel estivesse triste” “Agora como se estivesse Zangado”, “irritado”, “sózinho”..

No final, aproveite para falar do quadro artístico, focando mais a zona da zanga. Esta actividade ajuda a introduzir a emoção e trabalhá-la no papel. Não exclui a auto-regulação, mas mais uma vez ajuda a introduzir o tema das emoções difíceis.

O croquete na Relva/croquete de Praia: Num jardim ou Praia, proponha ao seu filho este jogo. Cada um deve partilhar uma coisa que o deixa zangado e em seguida rebolam na relva ou areal da praia. As crianças normalmente gostam tanto deste jogo que rapidamente deixam de estar zangados ou de querer falar disso, mas pode aproveitar a brincadeira para introduzir o tema e mais tarde falar sobre as coisas que referiram no jogo.

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