Apoiar o Fundraising do Projeto Kids

Desde 2017 que me dedico ao Projeto Kids: a criação de um kit de emoções para Famílias, co-criado com crianças (dos 4 cantos do mundo).

Este kit vai incluir um guia que ajuda as famílias a desenvolverem a sua saúde emocional e técnicas para revolucionarem o seu estilo parental. Inclui ainda um documentário com as reflexões de crianças dos 4 cantos do mundo sobre as emoções.

1 ano e muito investimento pessoal depois, confirmo que preciso de ajuda para conseguir lançar o projeto no início de 2019.

Por isto criei uma recolha de fundos para edição do documentário final, que todos podem e devem apoiar. Os apoios podem ir dos 5 euros aos 25000 euros, e muitas pessoas já apoiaram, incluindo bandas de Rock Português, mas ainda não consegui todos os fundos. Por isso apelo à ajuda de todos:

Para fazerem uma doação basta clickar o link:

https://www.generosity.com/education-fundraising/emotional-toolkit-for-parents-done-by-children/x/16050156

Compre aqui o livro “Uma caixa de primeiros socorros das Emoções” autografado

Olá a todos!

Tenho recebido algumas pessoas a perguntarem onde podem comprar o livro “Uma Caixa de Primeiros Socorros das Emoções”.

Podem fazê-lo aqui.

Basta que enviem o email para maria.palha@gmail.com com o pedido e após a transferência entrego o livro autografado

Valor do Livro: 14.90Euros

Criar uma Conta Poupança de emoções prazerosas para lidar com a adversidade

Há muitas formas de viajar. A que mais gosto é viajar por terra.
Ver o país a passar na janela e partilhar a experiência com os passageiros locais, acrescenta uma dimensão cinematográfica com boas doses de imprevisto ao percurso.

Na última crónica aproveitei a viragem de ano para focar a mudança e partilhei uma atividade para os mais novos. Hoje falo de adversidades no contexto familiar e de alguns antídotos (podem ver outras dicas de gestão emocional no projeto Kids em www.mariapalha.com).

Fiz Bogotá-Medellin de autocarro. São 18 horas. Uma viagem caricata.

Tratando-se de uma viagem maioritariamente noturna, não esperava encontrar o pequenino televisor a passar filmes dublados em Espanhol toda a noite. Também fui surpreendida pela entrada rompante dos vendedores ambulantes a tentarem vender os seus bens. Mesmo que fossem 1h da manhã, 2h ou 4h. Fui acordando algumas vezes sobressaltada. Confesso que, os incentivos de vendedores de CDs para que os passageiros cantassem, desafinadamente, um refrão de merengue e, o concurso da vendedora de balas e bolinhos: “Para ganhar um bolinho basta acertar na resposta: O que deve uma mulher fazer quando descobre a infidelidade do marido?” me alegraram a noite.
Foi uma viagem rica. Rica em filmes dublados, souvenirs, música e muita comida.

Já dizem os sábios, independentemente do destino, o caminho é que faz a viagem.

Os ânimos começam a aquecer com a próximidade a Medellin.
Antigamente, Medellin, era um lugar famoso pelos seus perigosos carteis de droga.

Hoje chamam-lhe a “cidade da eterna primavera” , não só porque a temperatura anual ronda os amenos 27 graus (por estar erguida no cento do vale de Aburrá) mas pelo característico aroma a café. Afinal aqui, o café é mais que um café, é uma forma de vida.

Medellin já tem uma musicalidade muito própria, mas aos fins de semana quando o merengue e o reggaeton aumentam o seu volume é inevitável não abanar o pezinho.

Na Praça de Botero ainda hoje se encontra uma das igrejas mais emblemáticas da cidade e, não é pelos seus vitrais, é por estar bem protegida pelas “Provedoras de Amor”. As “Provedoras de Amor” São mulheres aptas a aceitarem o convite para irem ao motel em frente da igreja “promover amor”. Afinal o importante é que o homem que requisite amor, consiga logo em seguida limpar os seus pecados.
Não há sombra de dúvidas de que é a segunda maior metrópole Colombiana.

Diria que é impossível passar por aqui e não ouvir falar do “homem que não se pode dizer o nome”.

Amado por uns, idolatrado e odiado por outros, ele foi sem dúvida um dos marcos de resiliência e adversidades da cidade.

Era o líder do famoso cartel de drogas de Medellin.
Pablo Escobar é “aquele que não podemos dizer o nome” e foi um dos responsáveis pelos anos sangrentos, guerras, guerrilhas e assassinatos do País nos anos 90.
Pablo nascido numa família de classe média Colombiana e nunca escondeu o sonho de ser bilionário. Ainda jovem começou a contrabandear cigarros. Mais tarde, cocaína.

Aos 23 anos começa a namorar a mulher com quem acaba por casar e ter 2 filhos. Juan Pablo era o mais velho.
Escobar, apenas com 26 anos já contrabandeava cerca de quinze toneladas de cocaína por dia, no valor de mais de meio bilhão de dólares.O irmão revelou que chegavam a gastar 1000 dólares por semana em elásticos para enrolar as pilhas de dinheiro e cerca de 10% da fortuna anual era desconsiderada pela deterioração que os ratos faziam quando roiam as notas de cem dólares, escondidas na Fazenda Napoles, em Medellin.

A Fazenda Nápoles era uma herdade com dez moradias dispersas por três mil hectares. Com mais de 27 lagos artificiais e um parque jurássico com dinossauros à escala real, cem mil árvores de fruta e um jardim zoológico com 1.200 espécies. Era o centro de operações do Cartel de Medellin, onde Escobar vivia com a sua família e com os 1.700 homens ao seu serviço. Era ali que muitos recebiam o seu treino militar e que fazia os primeiros ensaios com carros-bomba.

Numa das incursões que fiz para entrevistar crianças, tive o privilegio de conhecer o lado humano da vida de Escobar, o seu filho, Juan Pablo (o filho mais velho de Escobar). Conheci-o através da voz de um dos caçadores privados de Pablo Escobar.

José tem 85 anos, ainda hoje é caçador e em tempos, para além de usufruir da Fazenda Nápoles, conhecia bem a família e o filho de Pablo Escobar, Juan. José estava responsável por satisfazer os desejos de caça de Escobar.

O caçador contou-me que Juan tinha apenas 7 anos quando o seu pai lhe revelou que a sua profissão era ser bandido. Dizia que Escobar nunca tentou enganar o filho, sempre lhe disse a verdade. Via muitas vezes Juan Pablo brincar na fazenda. Tinha amigos de todas as idades, e mesmo vivendo com constantes questões de segurança, pois tinha os seus guarda-costas, tambem presenciava os treinos guerrilheiros na fazenda. Sempre foi uma criança com brilho nos olhos.

Recordou que quando Juan fez nove anos, Escobar deu-lhe a espada que havia sido doada por um militar a quem Escobar poupou a vida “Embora fosse muito pequeno, Juan teve que aprender a lidar com essa realidade. Tiveram momentos bons, em que puderam desfrutar do dinheiro e da fortuna, mas depois da morte do Ministro Bonilla praticamente não tiveram descanso… Os miúdos viram muitas mortes, muita violência. Inclusivé perderam o pai muito cedo. O narcotráfico deu tudo àquela família, mas também lhes roubou muito, até vidas. Juan Pablo sempre foi um miúdo voltado para coisas boas. Ele era um verdadeiro colecionador bons momentos, dos seus sonhos… Talvez por isso, Juan Pablo se tenha transformado num famoso escritor e ativista de paz”

Uso a história de Juan Pablo para focar no tema da adversidade por várias razões, talvez a primeira seja para mostrar a antítese do que normalmente o espaço Família significa.

Por idealização, família é um espaço seguro, de proteção e concretização do amor de dois adultos. Um casal que se junta, porque se ama e, cujo amor resulta numa criança (ou duas ou mais). Quando se fala em família, é inevitável não idealizar um casal que fica junto para sempre, que supera as vicissitudes da vida e ainda protege as suas crianças. Onde os pais morrem antes dos filhos, e por velhice. Contudo, a realidade costuma ser diferente.

Famílias são muitas vezes palco de adversidades, de violência, dôr ou sofrimento, chegando a deixar cicatrizes emocionais e psicológicas para a vida.

Por isto, resolvi acrescentar a questão da adversidade em contexto famíliar como uma das componentes essenciais de um Kit de Emoções.

Adversidade significa contratempo, obstáculo, dificuldade, uma contrariedade ou um impedimento para a ação. Logo trás, sempre, mal estar. São inevitáveis e fazem parte da vida.

Por isto decidi perguntar à criançada o que as faz feliz, pois, se são inevitáveis e trazem mal-estar, então, é essencial criar uma conta poupança de emoções prazerosas, que nos ajude a lidar com o embate.

A pergunta que coloco é simples “o que te faz feliz?

Na Colômbia a resposta comum é a “família”.
O xavi de 6 anos sugeriu que para serem felizes os adultos não se deviam matar por amor”.
Pablo de 8 anos defendia que se devia estar com a família, fazer família era o que iria fazer dele uma pessoa muito feliz. A Paloma de 7 anos, defendia que o que a deixava mesmo feliz era receber um elogio de pessoas com quem se cruza todos os dias”

No Japão, as respostas rondavam a “existência de outras pessoas”, “ajudar os outros”. O Yuki de 6 anos dizia que para ser mais feliz, tinha que ter sempre os seus amigos a brincarem por perto. A Shizuko de 7 dizia que era o facto de conseguir fazer uma coisa boa por alguem “Quando ajudo outra pessoa sinto-me mesmo bem. Preciso fazer isso muitas vezes”

Na Serra Leoa as respostas começavamo no “o surf” e inevitavelmente terminavam em “ter uma refeição por dia” ou “ter dinheiro para estudar”.

Em Portugal, as crianças entre os 5-8 anos disseram que “receber presentes”, “ter novos jogos da PS4”, “quando os pais têem tempo para fazermos coisas juntos” eram o que mais os deixavam felizes.

E a si? O que o/a deixa feliz e que pode fazer para ir amealhando na sua conta poupança de emoções prazerosas para que seja mais fácil lidar com as adversidades?

Aqui fica ma atividade para explicar que conseguimos recuperar de adversidades (para crianças dos 5 aos 8 Anos):

Uma forma de explicar sobre o impacto de uma adversidade e de como só pode superar, é através da natureza.

Leve o seu filho/a um jardim/parque/campo. Peça-lhe que descubra uma planta pequenina. Peça-lhe que a observe e a descreva a si, como se você não a estivesse a ver.
Peça-lhe em seguida que imagine o que pode acontecer a essa planta se alguém a agarrar, arrancar ou puxar com força ou até se houvesse uma grande tempestade? (possivelmente vai responder que morre, que fica amachucada…)

Em seguida peça-lhe que procure uma grande árvore. Faça as mesmas perguntas que fez para a planta pequenina. E termine a perguntar o que ele preferia ser em caso de tempestade. A árvore forte ou a planta pequenina? (possivelmente vai responder a árvore, por ser maior e mais forte).
Depois explique que as pessoas são como plantas e árvore, e que podemos escolher como crescer. Por exemplo, se nos sentimos uma planta indefesa, podemos ver quem nos pode ajudar em momentos de tempestade, que coisas podemos fazer com tempestade, e o que fazer em que momento. Podemos ainda ver quais são as vantagens de ter chuva nas nossas vidas. Afinal a água é essencial para o crescimento das plantas. Quais são as coisas difíceis que tens sentido como tempestade na tua vida?
Construção da Caixa das memórias felizes:

Após o passeio, chegou o momento de criar uma caixa das memórias felizes. Uma caixa que servirá para regar os dias de seca ou secar os dias de chuva. Neste caixa a criança deve ir a colecionar coisas que o fazem sentir bem. Números de telefone de pessoas que são importantes para ele/ela; Desenhos, brinquedos importantes e até lembretes, que podem fazer em conjunto “Tu és importante nesta família porque….”, “gosto muito de ti porque…”,”não te esqueças que és ótimo a fazer…..”
Boas construções felizes!

Uma reflexão para os adultos lidarem melhor com adversidades na família.

1. Perceber que tipo de família é a nossa.
Há vários tipos de famílias. Christopher Hamilton, no seu livro sobre como lidar com adversidade familiar, defende que oscilam entre dois grandes grupos:
As famílias com um acordo tácito, onde tudo o que magoa os outros, não se fala, é proibido e até tabu. Caracterizadas, muitas vezes por uma felicidade estranha e irreal.
E aquelas famílias onde nunca se pondera que possa haver algo que magoe os outros. As famílias egoístas.
Num segundo momento o autor foca a aceitação de algumas premissas como base para se lidar com as adversidades em família.
1. A esperança de amor incondicional: Normalmente família é o lugar onde esperamos receber o amor e carinho, mas é também onde aprendemos a ser independentes. É na família que aprendemos, por privação, a ganhar independência e isso significa sofrimento. Aceitar a família como um campo de treino de independência retira um pouco de romantismo sobre o que se idealiza receber deste grupo.
2. “Desculpa sou um idiota!”. Aceitar que mesmo quando somos adultos repetimos reações que tínhamos em criança, com nossos pais. Quem nunca viu dois namorados a discutir e um deles a bater com a porta e saír? Essassão as reações que uma criança pode ter com os seus pais, e que se torna totalmente desadequado repetir em adulto. Contudo, essa é uma realidade. O autor defende que é essencial “aceitar que somos idiotas” para lidar com as adversidades familiares, assim fica mais fácil pedir desculpa, corrigir erros e emendar situações.
3. “Syonara Culpa!”. Os sentimentos de culpa estão muitas vezes presentes quando se fala em “Família”. A sociedade e logo em seguida a família, exercem uma grande pressão para que se esteja presente e a culpa, ora porque “não me sinto bom filho” ora porque “devia fazer isto ou aquilo” ora porque nos habituamos a esperar X ou Y destas relações. A proposta do autor, é que mudemos de ângulo, que comecemos a olhar para a nossa família como reagentes, físicos e quimicos. Entendendo, que há certas reações químicas que estão fora do nosso controlo. Tal como nunca conseguiremos misturar água com azeite, nunca conseguiremos que X ou Y reajam como esperávamos, como reagentes à natureza. Nesta perspetiva as pessoas ganham uma dimensão quimicamente possível e não intencional.
4. “Adeus, bye bye, Fui!: Ainda na linha da físico-química, o autor fala de distância, como um recurso a não esquecer. Refere-a como uma decisão honesta, que não deve ser culpabilizadora. Se dois reagentes não se misturam ou provocam mesmo uma reação tóxica, o melhor e mais honesto a fazer é aceitar que assim é e resistir às fortes pressões sociais e familiares, sem culpa!
5. “Estou crónicamente estragado e então?”tal como o autor, também ouço esta frase em consultório, a sensação de que se ficou crónicamente estragado. Hamilton defende que este mecanismo de estrago, normalmente é compensado por outras coisas, no caso do filho de Escobar, tornou-se num ativista de paz. Não precisa ser um exemplo extremo, basta, por exemplo, registar o que se sente num diário, quem sabe um dia dará um livro. Afinal quando doí, a tendência é achar que ninguém sente assim, quando na realidade é muito diferente.
6. Aceitar e reconhecer a Solidão: As emoções difíceis fazem parte da realidade familiar e isto deve ser uma premissa consciente. Muitas vezes não vamos ser entendidos pelos mais velhos, isto também é uma realidade, e quando se aceita, reduz as expetativas e pressão sobre estas relações e permite a entrada de um amor maior, mais compaixão.
Uma atividade lúdica que nos pode ajudar a aceitar que as Adversidades vão fazer parte da vida.

 

Mudar de vida, de sapatos de trabalho ou até de Ano: Como lidar como mudanças

Ano novo vida nova. No caso do Projeto Kids, ano novo, continente diferente.
Aterro em mais um continente com o Projeto Kids (saibam como podem apoiar na secção Projetos/projeto Kids)

Desta vez deixei o Extremo oriente, no Japão e aterrei na América Latina, mais propriamente na Colômbia.

Na última crónica falei de perdas. Partilhei uma atividade para adultos e outra para as crianças, de modo que todos consigamos apropriar-nos de competências emocionais para lidar com situações de perda. Hoje, aproveitando o momento de virada de ano e todas as resoluções que ele envolve, foco a mudança.

A América latina, e neste caso a Colômbia, surge no projeto Kids, por várias razões.

A primeira porque a ideia é criar um KIT de expressão emocional para famílias, enriquecido com respostas de crianças de contextos que lhes exigiram aprimorar determinadas competências emocionais.

A segunda razão está relacionada com números. O Instituto Gallup partilhou um estudo que mostra que este continente tem o maior registo de emoções prazerosas vividas no dia a dia. A a Colômbia ocupa o segundo lugar (não resisto em partilhar uma curiosidade deste estudo, é que o Afeganistão, surge como o País com maior número de gargalhadas dadas por dia. Contudo hoje não vamos passar por lá).

A terceira razão, e esta mais focada no país, é que para além estar na lista de países com maior registo de emoções prazerosas, a Colômbia, é também o país com maior número de deslocados internos do mundo devido aos conflitos . Diria que estes factos transformam a Colômbia, numa verdadeira incubadora de especialistas em gestão de mudança (até de resiliência).

Com uma população de 48 milhões, em 2014 os registos mostravam que cerca de 5,4 milhões de pessoas tinham sido obrigadas a saír das suas casas e mudar de vida por causa dos conflitos vividos.

Os cerca de 50 anos de instabilidade e violência causada pelos paramilitares, pelas Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia- F.A.R.C. – e os cartéis de droga estavam na base destes números. Se disser que o maior narco-traficante do País, Pablo Escobar, morreu apenas em 1993 e o 67º acordo de paz entre as F.A.R.C e o Governo só foi aprovado em 2016, posso dizer que esta realidade passada, está ainda muito presente na vida de um Colombiano.  E Sinto que só me apercebi disto, quando conheci o José.

José é um caçador de 87 anos, e responsabilizou-se por me levar à aldeia onde tinha que entrevistar crianças. Ao longo do nosso caminho contou-me que era o caçador privado de Pablo Escobar. Sempre que ele visitava aquele mato, era José que caçava para os seus homens, “apesar de ter manchado as suas mãos com muito sangue, tinha uma enorme alma. Precisamos de mais pessoas com alma” lamentava José.

O Colombiano típico é aquele que nasce em Bogotá, leva os seus pais e muda-se para La Guajira, casa e passa uns anos em Guatapé, com a sua mulher, claro. Vive em Quibdó onde tem filhos, mas a sua morada fiscal do momento é junto a Leticía.

O merengue, a salsa, a religião e a sua família são os elixires essenciais a levar na bagagem para lidar com todas as mudanças pelas quais passa ao longo da vida.

Sem ter ponto de comparação, mas com muitas semelhanças, podemos ver de que forma a Colômbia pode acrescentar valor a Portugal, especialmente no que toca a “reinventar-se”, mudar, inovar, sem que isso signifique uma quebra de valores ou tradição.

Portugal, é um dos países mais antigos do mundo, com uma forte cultura de tradição e rituais religiosos difíceis de romper. Mentalidades fortes, com certezas absolutas, conservadoras e com medo de mudar. Contudo somos também um recetor significativo de populações migratórias, oriundas países Africanos, do Brasil, Ucrânia e até da China. E existem mais de cinco milhões de Portugueses espalhados pelo mundo. Facto que nos mostra que devemos e podemos desenvolver melhores gestões de mudança.

Para além disto, vivemos num mundo que nos exige uma constante reinvenção de nós mesmos, das nossas fontes de rendimento, dos nossos modelos familiares, das nossas estratégias, conceitos e preconceitos. Um mundo onde a mudança é a regra e não a exceção.

Acredito que o que a Colômbia tem para nos mostrar é essencialmente a sua capacidade de mudança, mantendo os seus valores de culto intocáveis: a igreja católica, o sentido de família e hospitalidade.

Isto mostrou-me que, afinal mudar, inovar, arrojar ser diferente, não significa perda de identidade, uma quebra de valores ou de tradição. Pelo contrário, inovar, tentar fazer diferente, pode trazer a uma cultura uma dimensão prática, de humanidade e empatia pelos outros, mais genuína e libertadora, sem preconceitos.

Em tempos, um amigo Português dizia-me que cada 10 anos mudava de profissão. Já tinha sido cozinheiro, fotógrafo e agora preparava-se para tirar o curso de enfermagem. De facto estes percursos de vida não são comuns em Portugal e podem até ser julgados como algo “sem rumo”, “sem carreira”. A pressão social pode ser de tal ordem pesada, que acabam até por ser desencorajados.

Mal cheguei a Bogotá conheci muitas pessoas a viverem a sua sexta/sétima vida.

Confesso que sempre tive uma admiração grande por aqueles que são capazes de usar a mudança para crescerem e desenvolverem-se enquanto Seres Humanos.

A Mama Glória, Colombiana de 58 anos, de olhar brilhante e gargalhada fácil, após um casamento desastroso (mas que lhe deu 4 filhos lindos) decidiu pedir o divórcio, deixar Bogotá e sediar-se em Guatapé. Da sua casa fez um pequeno alojamento local. Disse-me que após os anos que viveu de solidão e isolamento no casamento, ansiava conhecer o mundo, saber como se podia viver de forma diferente. Como tinha pavor de andar de avião, a melhor forma seria mesmo, ter o mundo a vir a sua casa.
De facto, num alojamento com apenas 8 camas, por vezes chegava a ter 8 nacionalidades diferentes. Disse-me que há muito tempo não se sentia tão bem, que havia sido a mudança mais drástica da sua vida, mudança que mais resistência e medo lhe tinha trazido, mas, a que mais realização e honestidade consigo própria tinha conseguido.

A Sónia, professora de música de 47 anos, também me marcou pela sua mudança. Ela era a sétima mulher de uma família de 8 irmãs nascidas num vilarejo junto ao Putumayo. A região de Putumayo é uma das regiões que ainda hoje sofre de insegurança devido ao narco-tráfico. Há cerca 2 anos, Sónia, decide deixar Mocoa e sediar-se no meio da montanha de Serra Nevada, num terreno de 1 hectare herdado pela sua filha. Sónia sempre acreditou que a vida pode ser de mais crescimento pessoal e espiritual, mas para isso tem que ser feita em comunidade, com os outros.

Assim, decidiu construir uma pequena cabana (de bambu e plástico) no terreno e começar a plantar Café. Mesmo sem ter um verdadeiro conhecimento agrícola, decide disponibilizar a sua pequena casa para viajantes interessados em colaborar com a nova produção de café. Sei que em 2 anos, a Sónia tem uma cabana com mais de 10 redes (hamacas) para dormir e frequentemente está lotada. Os voluntários são quem a ajudam a cuidar do café. Durante os dias que lá estive a entrevistar crianças, tive o privilégio começar as manhãs com o melhor café do mundo. O café da Estância Madre Terra, era feito por uma das mulheres com um dos sorrisos mais realizados, que conheci até hoje, o da Sónia.

Todas as mudanças começam com uma “urgência”, uma necessidade urgente de mudar. Todas trazem consigo emoções, umas prazerosas outras difíceis.

Enquanto as prazerosas são normalmente bem aceites, as difíceis são tendencialmente rejeitadas. Por isto, as mudanças trazem tantos desafios para quem os vive.

Por isto, porque somos homens de hábitos e conforto, decidi incluir esta dimensão nas entrevistas às crianças.

O que aprendeste com uma mudança que tenhas tido na tua vida?

A Mayo, Japonesa de 7 anos, tal como a sua prima de apenas 6, diziam que o importante era mesmo ajudar outras pessoas, que quando o fazemos deixamos de pensar no nosso problema e sentimo-nos melhor com as mudanças. Já a shizuku (5 anos) contra argumentava dizendo que ajudar os outros ajudava, mas pedir ajuda a um adulto também podia ser uma boa ideia.

A marta e o Diogo, irmãos Portugueses de 5 e 7 anos, disseram ambos que o melhor era não ficar sózinho. Brincar com os primos. Contaram que com o divórcio dos Pais começaram a ficar em casa dos primos e hoje parece que em vez de dois irmãos, são 5.

Na Colômbia, O Javier, de 6 anos, partilhou que nestes momentos fica com muita raiva, mas normalmente reza, e percebe que Deus o ouve quando deixa de ter raiva, consegue parar de chorar e começar a resolver coisas.

A Simona, 9 anos, disse-me que lhe custou muito quando perdeu o seu diário, mas que uma coisa que aprendeu com esta mudança, é que tinha uma oportunidade para o renovar e criar uma forma nova de registar as suas coisas.

A julia de apenas 5 anos, aconselha que se deixe de beber tanto café e se comece a beber chá. Assim custa menos e é mais fácil parar de chorar.

O Guga, de 7 anos, disse que o melhor para deixar-mos de ter medo quando as coisas mudam, é mesmo ter um cão. “Quando fiquei sem o meu avó todos os dias ia ao jardim, brincar com o meu cão, até me habituar à ideia de que ele não iria voltar”.

Normalmente quando se coloca a hipótese de que uma mudança se aproxima, a apreensão, ansiedade o ou medo, são as primeiras emoções a surgir. Face à mudança, há uma tendência a resistir, de modo a tentar preservar os antigos padrões, formas de pensamento e ação. Tratando-se de uma nova condição, possivelmente vai exigir novas estratégias. Durante um período (e isto varia de pessoa para pessoa) a tendência vai ser de negociação, ou seja tento usar as minhas antigas estratégias, vejo se funcionam, tento reajustá-las, e sinto-me mal com o reajuste que tenho que fazer (um adulto sente sempre que deve saber fazer tudo, e este tipo de flexibilidade é muitas vezes sentido como um teste à sua performance e por isto é um estádio com muitas emoções como medo, baixa-auto estima, sensação de “não ser suficientemente bom”, dúvidas e inseguranças face ao futuro). Passado este momento entra-se numa fase de aceitação “ok, isto é diferente, mas não tem que ser pior” e logo em seguida costuma haver uma fase de exploração criativa, onde se começa a tentar fazer coisas de forma diferente, sem que isso traga emoções difíceis. Pelo contrário, muitas vezes traz sensação de “Isto até pode ser divertido”, “eu sou capaz” até que a mudança acaba por se instalar.

Aqui fica uma atividade lúdica que podemos fazer lá em casa e que pode ajudar a desenvolver algumas competências.

Atividade “Um livro de Receitas para as Mudanças”

Nesta atividade vai-se criar um livro de receitas para lidar com mudanças.
É necessário ter um livro com folhas em branco. Material de desenho e colagens
A ideia é que em família se identifiquem momentos de mudança, situações que a família passou e que exigiram mudar. Depois, cada um deve identificar situações pessoais onde sentiram uma mudança, ou que tinham que mudar. Todos devem identificar no mínimo 1 situação.

Após haver uma lista de mudanças, todos devem escrever e ilustrar pelo menos uma receita de gestão emocional:

  1. Uma Receita capaz de sossegar o coração e ajudá-lo a sentir-se melhor com esta mudança.
  2. Uma receita capaz de acalmar os pensamentos que surgiram com a mudança, ajudá-lo a ter pensamentos tranquilos, sem preocupações.
  3. Uma receita capaz de reduzir as reações físicas que normalmente sentimos com as mudanças, por ex. Os nós na barriga ou o mal-estar que sente no corpo, e que podem ajudar a dormir bem todas as noites.

Boas mudanças para 2018

E depois do Fogos? Lidar com as perdas desde pequenino

Fiquei desnorteada. Aliás nunca percebi muito bem, porque é que é tão comum dizer-se fiquei sem norte, sempre que alguém se sente perdido. Penso que esta reflexão não começou com o que me aconteceu no sul do Japão, vem sim da altura em que vivi no hemisfério sul, no Brasil. Lá, sentia muitas vezes que esta expressão era meio preconceituosa e desvirtuante em relação ao sul. Porque que apenas o Norte daria sentido às coisas, às nossas vidas? Porque não éramos nós habituados a dizer encontrei o meu Sul?

Enfim, filosofias à parte, eu estava na ilha do Sudeste Japonês, em Kyushu, quando fiquei doente. No último artigo do projeto Kids falei da importância do sonho para a vida das crianças. Já passei pela tolerância, harmonia social e outros temas, e hoje é a vez da perda. Em breve sigo para a Colômbia, onde vou entrevistar até crianças indígenas (saibam todos os detalhes em www.mariapalha.com).

Decidira visitar esta região do sul Japonês à última hora. Sabia que era conhecida pela sua beleza natural, pela qualidade do surf, vulcões ainda ativos, como em Kagushima, e, porque grande parte da história Japonesa começara aqui.

Deuses de Sol Chintoístas, ilhéus povoados por fantasmas, portos de entrada marítima milenares, cidades embutidas em termas, como Beppu e até às maiores cascatas sagradas em Takachi-ho, onde adoeci.

É também o lugar onde se deram guerras sangrentas, como a dos samurais. Desconfio que inconscientemente, esta foi a grande razão que me motivou a visitar o sul. Não podia deixar o Japão, sem encontrar algumas crianças com descendência Samurai.

Tinha acabado de chegar de um retiro Za Zen (onde aprendi a praticar meditação e a seguir os rituais dos monges Japoneses que lá viviam há mais de duas décadas). Antes deixei Beppu, onde a única regra era não deixar a cidade sem saltitar de termas naturais em termas naturais pelo menos durante 2 dias. Por isto sentia-me revigorada para muitas mais entrevistas com crianças.

Takachi-ho era a única vila onde não tinha nenhum contacto e também sabia que seria difícil encontrar pessoas que falassem inglês. Caracterizada por ser um lugar remoto e sagrado, também a sua lenda fazia com que fosse imperdível.

A lenda conta que foi numa das grutas das cascatas desta vila, que a Deusa do Sol, Amaterasu, trouxe luz ao mundo em escuridão. Parece que por lá passou e a partir de lá, iluminou o mundo.

Segundo a lenda, Amaterasu zangou-se com o mau comportamento do seu irmão, e por isso escondeu-se numa gruta (hoje considerada sagrada), levando a luz e deixando o mundo às escuras. Alarmados com o acontecido, os outros Deuses reuniram-se para decidir o que fazer para iluminar tudo de novo. Até que um dos deuses, Ame-no- Uzume, resolveu dançar para Amaterasu, deixando-a rendida e, acima de tudo, curiosa, fazendo com que quisesse saÍr da cave. Neste momento, ela não só saiu, como devolveu a luz ao mundo.

Foi exatamente assim que me senti quando fiquei doente, impossibilitada de mexer-me, numa pousada familiar remota a cerca de 5 kms da pequena vila. Na escuridão, com esperança que algum Ame-no-Uzume pudesse-me ajudar a explicar à responsável da casa (que nada falava de inglês) que eu precisava de um médico.

Três dias depois, sem médico, nem Ame-no- Uzume, apenas com a ajuda da família da pousada, consegui recuperar alguma força para apanhar o famoso Shinkazen de 15 horas, que me levava rumo ao aeroporto de Tókio.

Tenho a crença que na Europa não estamos habituados a ficar muito doentes, e se falamos em perder o norte, normalmente falamos em perder coisas, dinheiro, amigos ou pessoas, e nunca incluímos a doença ou a confiança. Talvez no hemisfério sul, ao falarmos de perdas, surja a doença como uma das coisas mais importantes que se pode perder, não sei.

Se olharmos para Portugal, no recente mês de Outubro, perdemos mais de 50 000 hectares de floresta com os fogos, mais de 108 vitima mortais e centenas de desalojados. Perdemos ainda mais de 80% do Pinhal D´el Rei e só em Tocha tivemos mais de 25 mil euros em prejuízo.

Perante esta calamidade diria que é urgente os Portugueses aprenderem a lidar com a perda, especialmente para momentos como este. Entender o que pode acontecer quando perdemos algo, como se processa, o que sentimos, e que podemos fazer para recuperar de perdas que nos parecem irrecuperáveis. A acrescentar a tudo isto, ensinar os nossos filhos, as futuras gerações, a fazer o mesmo, de modo a irem criando a sua conta poupança para lidar com perdas.

Por isto, porque perder faz parte da vida, e ganhar também (mas essa às vezes é mais fácil de lidar), incluí algumas perguntas sobre a perda, nas entrevistas que faço às crianças pelo mundo fora. Pergunto se já perderam alguma coisa e peço-lhes uma receita para se lidar com a perda.

Acreditava que as crianças da Serra Leoa eram os verdadeiros especialistas de perdas, dada as gerações que viveram a guerra civil e o recente surto de Ébola em 2015, mas como sempre, fui surpreendida. Vi que não foram só eles a dar-me bons conselhos.

Respostas como “Esperar que passe. Sempre acaba por passar”, “Fazer Surf com os amigos” ou ”Fazer coisas que gostamos até nos sentirmos melhor” foram algumas das respostas Na Serra Leoa.

No Japão rondavam o “escrever uma carta faz sentir melhor”, “perder? Nunca perdi nada..só um carrinho…”

Já em Portugal as histórias foram outras: “quando perdemos coisas, podemos sempre comprar outras… mas quando são pessoas… já sei, se tivesse uma molécula dessa pessoa criava-a outra vez”.

“Perdi a minha cadela, penso que se tivesse um quarto cheio de cachorrinhos para me darem lambidelas, eu ia-me sentir bem outra vez”.

“Perdi a confiança, quando descobri que o Pai Natal não existia….mas isto foi quando tinha 2 anos, claro (criança com 9 anos agora) até vi que as meias que pomos nas chaminés são sempre pequenas demais para serem dele e até para pôr presentes, mas depois aceitei. Às vezes temos que aceitar as coisas como elas são”.

Para início de tópico, quando falamos em perdas, talvez por ser um tema difícil, normalmente não estamos conscientes do que podemos perder. Diria que o primeiro passo é identificar que se está perante uma perda, em seguida, identificar o que se sente com isso, e por fim, ativar estratégias para se lidar com a situação. Passando da teoria à prática.

Podemos perder 5 coisas importantes: Pessoas, Objetos, Animais, Confiança e Saúde. Cada uma destas perdas remete para emoções diferentes, com profundidades diferentes. Se há regras quando falamos de perdas, é sem dúvida o facto de não haver supostos em relação ao que se deve ou não sentir.

Algumas das emoções mais comuns quando estamos perante uma perda são: Zanga, revolta, ansiedade, medo, calma, contentamento, tristeza, aceitação, negação. Aqui fica uma atividade que pode fazer com as crianças lá de casa. E uma atividade para os adultos.

Para crianças dos 6 aos 10 anos (também dá para crianças mais velhas, mas não dá para mais novas).

1. Ilustrar a história do que perdi:
Em conjunto devem preencher a seguinte história:
1.1 Quando eu perdi…
1.2 Eu fiquei Triste Porque…
1.3 Eu lembro-me que…
1.4 Eu era feliz quando…
1.5 Eu senti-me triste quando…
1.6 Uma coisa engraçada que me lembro desse momento é…
1.7 O que as outras pessoas me disseram naquele momento foi…
1.8 O que me fez mesmo sentir melhor naquele momento foi…

Depois de preencherem a história da perda, podem ilustrar, com recortes, desenhos e colagens.

Para os Adultos:

Durante os 3 meses seguintes a uma grande perda é comum haver uma grande instabilidade emocional, há até quem lhe chame, um “carrocel de emoções dificeis”. Contudo, há uma serie exercicios que podem ser feitos e que podem acalmar essas emoções. E como todos os adultos que sofreram neste momento o impacto das perdas dos fogos do país merecem um miminho especial, aqui fica um exercício, que ao longo destes 3 meses, pode ajudar a transformar algumas das emoções dificeis que são vividas nesta fase.

Aqui vai:

Imagine que lhe foi dada a oportunidade criar a a sua vila/cidade/aldeia ideal. Um lugar com muitas coisas que lhe pudessem dar mais qualidade de vida a vários níveis.

Responda às instruções:

1. Os serviços: Que tipo de serviços gostaria que a sua nova localidade tivesse?

2. Os lugares com natureza. Como gostava que fossem? Perto ou longe de sua casa? Acessíveis, verdes ou mais húmidos? Apenas um lago, ou uma praia?

3. Os transportes. Gostava que andassem de bicicleta, de carros, de cavalo ou apenas a pé? Seria um lugar com fácil acesso ou difícil?

4. Imagine agora a relação entre os vizinhos. Como gostaria que as pessoas que vivessem mais próximas de si se relacionassem? Haveria uma associação comunitária? Apenas encontros ocasionais no supermercado com cumprimentos tímidos?

5. E crianças: Um lugar com muitas ou poucas crianças?

6. Os serviços. Haveriam muitos serviços, poucos? Que tipo de serviços? Apenas os essenciais mais que isso? Gostaria de prestar algum serviço na sua comunidade?

A transformação de emoções difíceis é possível e esta é apenas uma atividade.